NA PRAÇA
GONÇALVES DIAS
Três e trinta da manhã.
Na praça Gonçalves Dias,
contempla a casa das tias
que dormem profundamente
sem saber
que um
turista
de si mesmo
ali espia
as janelas fechadas.
A criança que foi
é quem olha
a casa estática,
enquanto o tempo
flui
na madrugada silenciosa.
Sobre a palmeira
de pedra
o poeta o observa
e o vento antigo
da ilha
bate e refresca seu rosto.
Tudo foi exílio em sua vida.
Mas naquele instante,
três e trinta da manhã
na praça Gonçalves Dias,
está de volta à casa
onde um
dia o mesmo
vento
bateu naquele rosto sem rugas
e sem desesperança.
Contempla por um tempo
os azulejos, que refletem
as lâmpadas elétricas da praça
na noite sem estrelas.
E logo desce a escadaria da praça
de volta ao bar ainda aberto,
de volta ao tempo presente
e aos barulhos do mundo.
SONETO DA PRAÇA GONÇALVES DIAS
Como o poeta de pedra nesta praça,
o exilado que é mira o poente.
Os seus olhos atentos saem à caça
dos telhados e torres à sua frente.
Ali ainda estão. Mas, à direita
do sol que se afunda na baía,
uma cidade feia e estrangeira
se ergue onde antes nada havia.
As torres, os mirantes, os telhados,
intactos ao tempo e ao destino
olham o poeta, longe, indiferentes.
Será que reconhecem o menino
nesse velho que mira o seu
passado
com os olhos fatigados do presente?

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