terça-feira, janeiro 27, 2015
DOIS POEMAS ANTIGOS E INÉDITOS
GÊNESIS
o amor que quero fazer contigo
não está no kama sutra
nem nas revistas de sacanagem
o amor que quero fazer contigo
haverá de ser santo e pornográfico
e se alguma poesia houver nele
será feita só com a sintaxe
de nossos dedos e bocas
e nossos gestos ardentes
assim não haverá palavras
só os gritos e os sussurros da carne
do vegetal e da pedra que então seremos
pré-animais, pré-humanos
seremos a primeira forma de vida
que surgiu no mar primevo
o gozo no caos criando eros
teremos que inventar o próprio amor
a cada gozo
e ao fim dos dias da criação
repousaremos
sob um céu em festa
e sobre as águas vivas
e céu e terra e mar
quererão então nos imitar
nesse ato inaugural
A GUERRA
De lança em riste
- e no entanto desarmado -
aqui estou,
pronto para a batalha
que no horizonte da cama se anuncia.
Vem, guerreira,
e aponta tuas armas,
tuas máquinas de amar,
teu peitos e nádegas,
tua flor úmida e rósea, e executa os planos secretos
de inéditas delícias.
Nenhuma tática te espera.
Só o corpo-a-corpo e o improviso.
Ser conquistado será minha conquista.
E quando pelo chão do quarto
recolhermos juntos os despojos desta guerra,
seremos, enfim,
vencedores e vencidos
TRÊS POEMAS INÉDITOS
Nunca ocultei minha alegria.
Não vejo porque, agora,
ocultar minha tristeza.
Aqui estou, como se Tanatos
houvesse vencido Eros
para sempre.
Sei que amanhã,
quando o sol nascer rubro
neste céu de Botafogo (que vejo ardente ao crepúsculo
desta janela carioca
que “dá excessivamente” para o Cristo),
talvez o pio de um passarinho
ou uma canção de Jobim
possam trazer de volta a alegria perdida.
Mas agora sou um homem para sempre triste,
olhando sem consolo
o crepúsculo ardente de Botafogo.
OS DIAS E SUAS NOITES
A segunda-feira reinaugura a semana
Os passarinhos reinauguram o dia
e cantam obstinados
sua presença no mundo
enquanto os homens
prosseguem em seus equívocos
e em sua insensata esperança.
Estes dias passarão
como passaram os da última semana,
carregando-nos em seus barcos velozes
rumo ao inatingível horizonte.
Maio se foi com com suas luzes
antes que o fotografássemos,
que dele guardássemos uma lembrança
para nos consolar na travessia
dos meses tristes que virão.
O rio de Heráclito prossegue
em seu curso, indiferente
ao nosso temor de que por ele
jamais voltaremos a passar
À sua margem seguimos cabisbaixos
com o andar cada vez mais pesado
pelo fardo dos dias e suas noites.
Os nossos mortos se acumulam
como guimbas de cigarro num cinzeiro
ou como a louça suja na cozinha.
Os dias se acumulam
em nossos próprios corpos
trazendo rugas e saudades
cabelos brancos e a certeza
de que deles não poderemos
na pia ou na lixeira nos livrar.
E embora haja luz e azul
nesta bela manhã
que o morto em nós
ainda contempla,
a segunda-feira nos dói
como uma artrose aguda
na cervical do tempo.
DEPOIS DO PESADELO
Acorda. Corre para o banheiro
para lavar seu rosto sujo de espanto,
escovar os dentes enegrecidos pelas trevas,
Olha o espelho e ainda não é ele
quem lá está se olhando.
É o Outro,
o que carrega em si como um estorvo,
o mesmo que sonhou o pesadelo,
aquele que mirou seu rosto em outro espelho,
o do pesadelo que ainda não acabou.
Só quando vai à varanda
e avista o mundo na manhã
chuvosa e bela,
enfim se reconhece,
refletido nela.
e avista o mundo na manhã
chuvosa e bela,
enfim se reconhece,
refletido nela.
domingo, janeiro 11, 2015
TRÊS POEMAS DE 'O REI DO VENTO'
AS CARTAS
Vivem silenciosas no fundo da gaveta.
Como nós, também envelhecem,
como se pode ver
pelo pálido amarelo de suas folhas.
Para elas já é outono,
não a primavera febril
que um dia eu quis te dar.
No fundo da gaveta,
silenciosas vivem
as cartas
que nunca te mandei.
O DIA NASCE RUBRO
O dia nasce rubro
pros rumos de Botafogo.
O Pão de Açúcar é um presente
que meus olhos desembrulham
ainda cobertos de nuvens.
Na encosta do morro
os passarinhos cantam
obstinados
sua presença no mundo.
Logo estarão — estaremos —
vencidos pela manhã ruidosa.
ACEITAÇÃO
Escrevo meu nome
com a ponta do dedo
na lousa de ar desta manhã
escura e fria
(desta manhã quase noite).
Letras de fogo brilham no ar por um instante.
Brilham como as estrelas que na madrugada se abriram
— rosas rubras sobre minha solidão —
e me trouxeram a luz da aceitação
de ser quem sou.
Vivem silenciosas no fundo da gaveta.
Como nós, também envelhecem,
como se pode ver
pelo pálido amarelo de suas folhas.
Para elas já é outono,
não a primavera febril
que um dia eu quis te dar.
No fundo da gaveta,
silenciosas vivem
as cartas
que nunca te mandei.
O DIA NASCE RUBRO
O dia nasce rubro
pros rumos de Botafogo.
O Pão de Açúcar é um presente
que meus olhos desembrulham
ainda cobertos de nuvens.
Na encosta do morro
os passarinhos cantam
obstinados
sua presença no mundo.
Logo estarão — estaremos —
vencidos pela manhã ruidosa.
ACEITAÇÃO
Escrevo meu nome
com a ponta do dedo
na lousa de ar desta manhã
escura e fria
(desta manhã quase noite).
Letras de fogo brilham no ar por um instante.
Brilham como as estrelas que na madrugada se abriram
— rosas rubras sobre minha solidão —
e me trouxeram a luz da aceitação
de ser quem sou.
quarta-feira, janeiro 07, 2015
NOVOS 'HAICAIS LOCAIS'
MEIA DÚZIA DE NOVOS 'HAICAIS LOCAIS'
CARÍCIAS VIRTUAIS
Na madrugada insone
os namorados se tocam
nas teclas do iPhone.
*
DENTRO DA NOITE LENTA
Pesado, lento e ruidoso bicho,
tritura o silêncio da noite
o caminhão de lixo.
*
AO VOLANTE
Das montanhas, uma voz ruidosa:
Drummond, Drummond, Drummond
na estrada de Minas, pedregosa.
*
FORA DA FESTA
Longe da algazarra,
em silêncio, o meu cigarro
namora com a cigarra.
*
A LUZ ACESA
Sol encapsulado,
a lâmpada do quarto
mantém o dia adiado.
*
EVASÃO
Já deu a largada:
vai para a Minas que não há mais.
Ou talvez para Pasárgada.
CARÍCIAS VIRTUAIS
Na madrugada insone
os namorados se tocam
nas teclas do iPhone.
*
DENTRO DA NOITE LENTA
Pesado, lento e ruidoso bicho,
tritura o silêncio da noite
o caminhão de lixo.
*
AO VOLANTE
Das montanhas, uma voz ruidosa:
Drummond, Drummond, Drummond
na estrada de Minas, pedregosa.
*
FORA DA FESTA
Longe da algazarra,
em silêncio, o meu cigarro
namora com a cigarra.
*
A LUZ ACESA
Sol encapsulado,
a lâmpada do quarto
mantém o dia adiado.
*
EVASÃO
Já deu a largada:
vai para a Minas que não há mais.
Ou talvez para Pasárgada.
terça-feira, janeiro 06, 2015
SONETO DO QUE NÃO PASSA
Te dou o meu passado de presente:
a luz de um certo maio que se foi,
a lua que luava sobre a gente
no campo antigo onde pastava um boi.
Eretas palmeiras te ofereço
e o vento que dançava sensual
em suas palmas, com as quais eu teço
este canto de dor e carnaval.
Te trago desse tempo o que não passa:
a flor que nunca murcha no seu vaso,
as suas cores vivas, infinitas,
um vinho intocado em sua taça,
um arco-íris antes do ocaso
e um buquê de palavras nunca ditas.
PARA QUEM ESCREVE O POETA
PARA QUEM ESCREVE O POETA
O poeta não tem público-alvo.
Ele lança sua seta invisível
para o próprio coração.
Mas se acontece de alguém flagrar seu gesto
e sentir no próprio peito a dor da seta,
terá tido sucesso
e alcançado a meta.
E nesse instante
(o seu verso vibrando
e ainda teso)
um silencioso aplauso se ouvirá.
Porque a plateia inteira de um poema
é um homem
só.
O poeta não tem público-alvo.
Ele lança sua seta invisível
para o próprio coração.
Mas se acontece de alguém flagrar seu gesto
e sentir no próprio peito a dor da seta,
terá tido sucesso
e alcançado a meta.
E nesse instante
(o seu verso vibrando
e ainda teso)
um silencioso aplauso se ouvirá.
Porque a plateia inteira de um poema
é um homem
só.
segunda-feira, janeiro 05, 2015
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