sexta-feira, janeiro 30, 2015

quinta-feira, janeiro 29, 2015

terça-feira, janeiro 27, 2015

DOIS POEMAS ANTIGOS E INÉDITOS



GÊNESIS

o amor que quero fazer contigo
não está no kama sutra
nem nas revistas de sacanagem

o amor que quero fazer contigo
haverá de ser santo e pornográfico
e se alguma poesia houver nele
será feita só com a sintaxe
de nossos dedos e bocas
e nossos gestos ardentes

assim não haverá palavras
só os gritos e os sussurros da carne
do vegetal e da pedra que então seremos

pré-animais, pré-humanos
seremos a primeira forma de vida
que surgiu no mar primevo
o gozo no caos criando eros

teremos que inventar o próprio amor
a cada gozo
e ao fim dos dias da criação
repousaremos
sob um céu em festa
e sobre as águas vivas

e céu e terra e mar
quererão então nos imitar

nesse ato inaugural




A GUERRA

De lança em riste
- e no entanto desarmado -
aqui estou,
pronto para a batalha
que no horizonte  da cama se anuncia.

Vem, guerreira,
e aponta tuas armas, 
tuas máquinas de amar,
teu peitos e nádegas,

tua flor úmida e rósea, e executa os planos secretos
de inéditas delícias.

Nenhuma tática te espera.
Só o corpo-a-corpo e o improviso.
Ser conquistado será minha conquista.

E quando pelo chão do quarto
recolhermos juntos os despojos desta guerra,
seremos, enfim,
vencedores e vencidos

TRÊS POEMAS INÉDITOS



NUNCA OCULTEI MINHA ALEGRIA

Nunca ocultei minha alegria.
Não vejo porque, agora,
ocultar minha tristeza.

Aqui estou, como se Tanatos
houvesse vencido Eros
para sempre.

Sei que amanhã,
quando o sol nascer rubro
neste céu de Botafogo (que vejo ardente ao crepúsculo
desta janela carioca
que “dá excessivamente” para o Cristo),
talvez o pio de um passarinho
ou uma canção de Jobim
possam trazer de volta a alegria perdida.
Mas agora sou um homem para sempre triste,
olhando sem consolo
o crepúsculo ardente de Botafogo.



OS DIAS E SUAS NOITES

A segunda-feira reinaugura a semana
Os passarinhos reinauguram o dia
e cantam obstinados

sua presença no mundo
enquanto os homens

prosseguem em seus equívocos
e em sua insensata esperança.

Estes dias passarão

como passaram os da última semana,
carregando-nos em seus barcos velozes
rumo ao inatingível horizonte.

Maio se foi com com suas luzes
antes que o fotografássemos,

que dele guardássemos uma lembrança
para nos consolar na travessia
dos meses tristes que virão.

O rio de Heráclito prossegue
em seu curso, indiferente
ao nosso temor de que por ele

jamais voltaremos a passar

À sua margem seguimos cabisbaixos
com o andar cada vez mais pesado
pelo fardo dos dias e suas noites.

Os nossos mortos se acumulam
como guimbas de cigarro num cinzeiro
ou como a louça suja na cozinha.

Os dias se acumulam
em nossos próprios corpos
trazendo rugas e saudades
cabelos brancos e a certeza
de que deles não poderemos
na pia ou na lixeira nos livrar.

E embora haja luz e azul
nesta bela manhã
que o morto em nós
ainda contempla,
a segunda-feira nos dói
como uma artrose aguda
na cervical do tempo.



DEPOIS DO PESADELO

Acorda. Corre para o banheiro
para lavar seu rosto sujo de espanto,
escovar os dentes enegrecidos pelas trevas,
urinar o veneno do seu medo.

Olha o espelho e ainda não é ele
quem lá está se olhando.
É o Outro,
o que carrega em si como um estorvo,
o mesmo que sonhou o pesadelo,
aquele que mirou seu rosto em outro espelho,

o do pesadelo que ainda não acabou.

Só quando vai à varanda
e avista o mundo na manhã
chuvosa e bela,
enfim se reconhece,
refletido nela.

domingo, janeiro 11, 2015

TRÊS POEMAS DE 'O REI DO VENTO'

AS CARTAS

Vivem silenciosas no fundo da gaveta.
Como nós, também envelhecem,
como se pode ver 
pelo pálido amarelo de suas folhas.
Para elas já é outono,
não a primavera febril 
que um dia eu quis te dar.
No fundo da gaveta,
silenciosas vivem
as cartas
que nunca te mandei.


O DIA NASCE RUBRO

O dia nasce rubro
pros rumos de Botafogo.
O Pão de Açúcar é um presente
que meus olhos desembrulham
ainda cobertos de nuvens.

Na encosta do morro
os passarinhos cantam
obstinados
sua presença no mundo.
Logo estarão — estaremos —
vencidos pela manhã ruidosa.



ACEITAÇÃO

Escrevo meu nome 
com a ponta do dedo
na lousa de ar desta manhã
escura e fria
(desta manhã quase noite).

Letras de fogo brilham no ar por um instante.

Brilham como as estrelas que na madrugada se abriram
— rosas rubras sobre minha solidão — 
e me trouxeram a luz da aceitação
de ser quem sou.

quarta-feira, janeiro 07, 2015

NOVOS 'HAICAIS LOCAIS'

MEIA DÚZIA DE NOVOS 'HAICAIS LOCAIS'

CARÍCIAS VIRTUAIS
Na madrugada insone
os namorados se tocam
nas teclas do iPhone. 
*
DENTRO DA NOITE LENTA
Pesado, lento e ruidoso bicho,
tritura o silêncio da noite
o caminhão de lixo.
*
AO VOLANTE
Das montanhas, uma voz ruidosa:
Drummond, Drummond, Drummond
na estrada de Minas, pedregosa.
*
FORA DA FESTA
Longe da algazarra,
em silêncio, o meu cigarro
namora com a cigarra.  
*
A LUZ ACESA
Sol encapsulado,
a lâmpada do quarto
mantém o dia adiado. 
*
EVASÃO
Já deu a largada:
vai para a Minas que não há mais.
Ou talvez para Pasárgada.

terça-feira, janeiro 06, 2015







SONETO DO QUE NÃO PASSA 

Te dou o meu passado de presente: 
a luz de um certo maio que se foi, 
a lua que luava sobre a gente 
no campo antigo onde pastava um boi. 

Eretas palmeiras te ofereço 
e o vento que dançava sensual 
em suas palmas, com as quais eu teço 
este canto de dor e carnaval. 

Te trago desse tempo o que não passa: 
a flor que nunca murcha no seu vaso, 
as suas cores vivas, infinitas, 

um vinho intocado em sua taça, 
um arco-íris antes do ocaso 
e um buquê de palavras nunca ditas. 

PARA QUEM ESCREVE O POETA


PARA QUEM ESCREVE O POETA

O poeta não tem público-alvo. 
Ele lança sua seta invisível 
para o próprio coração.

Mas se acontece de alguém flagrar seu gesto 
e sentir no próprio peito a dor da seta,
terá tido sucesso
e alcançado a meta.


E nesse instante
(o seu verso vibrando
e ainda teso)
um silencioso aplauso se ouvirá.


Porque a plateia inteira de um poema 
é um homem
só.