terça-feira, novembro 01, 2011

MAIS TRÊS POEMAS DA DÉCADA DE 70




A BARRIGA DO POETA

Esta barriga que se me dependura

por certo não é de nascença

e nem pode ser coisa que dura

a vida toda, assim imensa.

Aliás, esta barriga, não a reconheço

como tal.

É mais um apêndice esquisito,

corpo estranho,

que a cada dia mais me tem pesado.

Não a reconhecerei como barriga.

De agora em diante, fica nomeado:

é coisa de outro mundo,

objeto não identificado.



INVENTÁRIO DOS OBJETOS ENCONTRADOS NA BOLSA DO POETA

Uma caneta Bic escrita fina azul.

Uma maço de cigarros marca Albany

contendo l9 cigarros.

Uma caixa de fósforos marca Olho.

Uma carteira de identidade emitida pela SEGUP-PA,

de número que o poeta nunca conseguiu decorar.

Uma carteira de trabalho

com a assinatura de um emprego

do qual o poeta foi demitido no último dia 26

e onde exercia a função de redator de publicidade.

Uma carteira do CPF cujo número

o poeta nunca irá decorar.

Uma folha de papel tamanho ofício contendo uma tabela

de preços de peças publicitárias para free-lancers.

Duas folhas de papel tamanho ofício contendo o poema Tempo Turiense.

Uma pequena agenda azul com endereços e telefones,

onde não constam telefone ou endereço

de quem poderia vir em seu socorro,

neste momento de profunda solidão.

Uma fita cassete onde está gravada uma canção

escrita pelo poeta, contendo uma infinita esperança

de tudo dar certo um dia.


PRAÇA DOS TRÊS PODERES

Brasília,

no dia em que meus olhos

te visitaram pela primeira vez

o projeto concreto

à luz do sol do planalto,

meu coração repartiu-se

entre o projeto

e a cidade viva

em movimento.

Diante de meus olhos,

fez-se a alvorada

de formas exatas.

Meus olhos viram,

empoeirado,

o sonho alto de Oscar,

a arquitetura nova

(funcional pois bela)

de futuras formas de viver.

Mas meu coração viu

a triste arquitetura

de vidas desfuncionais e feias

(ofendidas e humilhadas

nos bancos da Rodoviária)

sem qualquer poder

em frente à Praça.

0 comentários: