A BARRIGA DO POETA
Esta barriga que se me dependura
por certo não é de nascença
e nem pode ser coisa que dura
a vida toda, assim imensa.
Aliás, esta barriga, não a reconheço
como tal.
É mais um apêndice esquisito,
corpo estranho,
que a cada dia mais me tem pesado.
Não a reconhecerei como barriga.
De agora em diante, fica nomeado:
é coisa de outro mundo,
objeto não identificado.
INVENTÁRIO DOS OBJETOS ENCONTRADOS NA BOLSA DO POETA
Uma caneta Bic escrita fina azul.
Uma maço de cigarros marca Albany
contendo l9 cigarros.
Uma caixa de fósforos marca Olho.
Uma carteira de identidade emitida pela SEGUP-PA,
de número que o poeta nunca conseguiu decorar.
Uma carteira de trabalho
com a assinatura de um emprego
do qual o poeta foi demitido no último dia 26
e onde exercia a função de redator de publicidade.
Uma carteira do CPF cujo número
o poeta nunca irá decorar.
Uma folha de papel tamanho ofício contendo uma tabela
de preços de peças publicitárias para free-lancers.
Duas folhas de papel tamanho ofício contendo o poema Tempo Turiense.
Uma pequena agenda azul com endereços e telefones,
onde não constam telefone ou endereço
de quem poderia vir em seu socorro,
neste momento de profunda solidão.
Uma fita cassete onde está gravada uma canção
escrita pelo poeta, contendo uma infinita esperança
de tudo dar certo um dia.
PRAÇA DOS TRÊS PODERES
Brasília,
no dia em que meus olhos
te visitaram pela primeira vez
o projeto concreto
à luz do sol do planalto,
meu coração repartiu-se
entre o projeto
e a cidade viva
em movimento.
Diante de meus olhos,
fez-se a alvorada
de formas exatas.
Meus olhos viram,
empoeirado,
o sonho alto de Oscar,
a arquitetura nova
(funcional pois bela)
de futuras formas de viver.
Mas meu coração viu
a triste arquitetura
de vidas desfuncionais e feias
(ofendidas e humilhadas
nos bancos da Rodoviária)
sem qualquer poder
em frente à Praça.
0 comentários:
Postar um comentário