SOBRE AS AREIAS MOLHADAS
Aylan Kurdi poderia ser meu neto ou bisneto. Nossos nomes são do mesmo idioma e têm o mesmo número de sílabas. Na sua idade, eu costumava ouvir os sons dessa língua estranha, a mesma que ele já começava a falar como sua língua materna. Seus pais fugiram há pouco da mesma região do mundo de onde, um século antes, meus avós fugiram. Todos em busca de uma vida melhor. Meus avós encontraram a nova vida num país distante da América do Sul. Os pais de Aylan encontraram a morte ainda próximo de onde partiram, nas tristes águas azuis do Mediterrâneo. Agora, diante da tela do meu tablet, eu vejo seu corpo pequeno, de bruços, entre a água e a areia de uma praia turca. O mundo inteiro o vê. Aylan poderia ser o neto, o filho, o irmãozinho mais novo de muitos milhões de pessoas que o veem da forma mais dolorosa que se pode ver uma criança. Como tanta gente, eu também o vejo e quero correr para abraçá-lo, para o proteger. Aylan Kurdi poderia ser meu neto. Aylan Kurdi, cujo nome o mundo não deve esquecer, está deitado de bruços, com suas roupinhas coloridas, intactas, sobre as areias molhadas deste triste planeta azul. Aylan Kurdi está morto.
(04/09/15)
UM ISQUEIRO ZIPPO & UMA CARTA ESCRITA À MÃO
Hoje, um amigo dos tempos de Belém, que não vejo há 40 (!) anos, me mandou, antecipado, dois belos presentes de aniversário, numa caixinha de papelão do Sedex: uma carta manuscrita e um isqueiro Zippo que ele já não usa, pois parou de fumar há três meses.
O Zippo está com o seu gostoso clique metálico bem afinado e a carta muito bem escrita e com ótima caligrafia, embora ele comente no final que já não sabe mais escrever à mão.
Quantos significados couberam dentro dessa caixinha! Nossa velha amizade é subitamente revivida nestes dias em que quase ninguém mais fuma e quase ninguém mais envia cartas manuscritas.
Ele fez 62 anos em abril e eu terei a mesma idade agora no dia 7. Ainda não parei de fumar. Mas fico feliz por ele e lhe parabenizo por esse feito. Faço também uma promessa: em breve, o Zippo será apenas um clique metálico gostoso de ouvir. E para citar uma canção do nosso tempo, que fala de uma idade distante, à qual nunca imaginei chegar, farei isso antes de When I'm Sixty-Four.
Muito obrigado, Antonio Daniel Guimarães!
"May we stay forever young."
LINDO!
Lindo! Linda! Lindos! Lindas! Esse adjetivo, em suas diferentes flexões, é campeão absoluto de ocorrências nos comentários do Facebook. Quase sempre seguidos de um ou vários pontos de exclamação. Façam uma pesquisa rápida: peguem um post em que alguma coisa bonita é dita ou mostrada e contem o número de 'lindos' . O que isso significa? Não sei. Mas fico curioso em constatar que ele detém o monopólio como comentário elogioso, em detrimento de tantos outros que, se usados, dariam mais matizes ao que se quer expressar. Já a campeã de ausências é a vírgula, em
especial a que separa o vocativo do resto da frase. Mais de uma vez, já achei que estavam me
chamando de lindo, quando na verdade queriam qualificar o conteúdo do post. "Lindo, Jamil!" é uma coisa, "Lindo Jamil!" é outra, bem diferente. Quando percebo esse erro tão comum sempre me decepciono.
Aylan Kurdi poderia ser meu neto ou bisneto. Nossos nomes são do mesmo idioma e têm o mesmo número de sílabas. Na sua idade, eu costumava ouvir os sons dessa língua estranha, a mesma que ele já começava a falar como sua língua materna. Seus pais fugiram há pouco da mesma região do mundo de onde, um século antes, meus avós fugiram. Todos em busca de uma vida melhor. Meus avós encontraram a nova vida num país distante da América do Sul. Os pais de Aylan encontraram a morte ainda próximo de onde partiram, nas tristes águas azuis do Mediterrâneo. Agora, diante da tela do meu tablet, eu vejo seu corpo pequeno, de bruços, entre a água e a areia de uma praia turca. O mundo inteiro o vê. Aylan poderia ser o neto, o filho, o irmãozinho mais novo de muitos milhões de pessoas que o veem da forma mais dolorosa que se pode ver uma criança. Como tanta gente, eu também o vejo e quero correr para abraçá-lo, para o proteger. Aylan Kurdi poderia ser meu neto. Aylan Kurdi, cujo nome o mundo não deve esquecer, está deitado de bruços, com suas roupinhas coloridas, intactas, sobre as areias molhadas deste triste planeta azul. Aylan Kurdi está morto.
(04/09/15)
UM ISQUEIRO ZIPPO & UMA CARTA ESCRITA À MÃO
Hoje, um amigo dos tempos de Belém, que não vejo há 40 (!) anos, me mandou, antecipado, dois belos presentes de aniversário, numa caixinha de papelão do Sedex: uma carta manuscrita e um isqueiro Zippo que ele já não usa, pois parou de fumar há três meses.
O Zippo está com o seu gostoso clique metálico bem afinado e a carta muito bem escrita e com ótima caligrafia, embora ele comente no final que já não sabe mais escrever à mão.
Quantos significados couberam dentro dessa caixinha! Nossa velha amizade é subitamente revivida nestes dias em que quase ninguém mais fuma e quase ninguém mais envia cartas manuscritas.
Ele fez 62 anos em abril e eu terei a mesma idade agora no dia 7. Ainda não parei de fumar. Mas fico feliz por ele e lhe parabenizo por esse feito. Faço também uma promessa: em breve, o Zippo será apenas um clique metálico gostoso de ouvir. E para citar uma canção do nosso tempo, que fala de uma idade distante, à qual nunca imaginei chegar, farei isso antes de When I'm Sixty-Four.
Muito obrigado, Antonio Daniel Guimarães!
"May we stay forever young."
LINDO!
Lindo! Linda! Lindos! Lindas! Esse adjetivo, em suas diferentes flexões, é campeão absoluto de ocorrências nos comentários do Facebook. Quase sempre seguidos de um ou vários pontos de exclamação. Façam uma pesquisa rápida: peguem um post em que alguma coisa bonita é dita ou mostrada e contem o número de 'lindos' . O que isso significa? Não sei. Mas fico curioso em constatar que ele detém o monopólio como comentário elogioso, em detrimento de tantos outros que, se usados, dariam mais matizes ao que se quer expressar. Já a campeã de ausências é a vírgula, em
especial a que separa o vocativo do resto da frase. Mais de uma vez, já achei que estavam me
chamando de lindo, quando na verdade queriam qualificar o conteúdo do post. "Lindo, Jamil!" é uma coisa, "Lindo Jamil!" é outra, bem diferente. Quando percebo esse erro tão comum sempre me decepciono.