quarta-feira, fevereiro 25, 2015

TRÊS POEMAS INÉDITOS (4)


SONETO DA COLA-GUARANÁ JESUS

Sonhei com a cola-guaraná Jesus,
“o sonho cor de rosa de todas as crianças”,
como dizia a propaganda de quando eu era uma
e o meu coração estava cheio de esperanças.

Sonhei com a cola-guaraná Jesus.
Se não me engano estava em São Luís.
Sentia o seu sabor, sua cor, sua luz
e já não cabia em mim ser tão feliz.

Por isso acho que acordei como quem acorda
no crucial momento de um perigo,
o momento em que vai soltar-se a corda

ou que vai nos alcançar o inimigo.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus

o sonho novo de um menino antigo.




RAMBLAS

Meu coração turiense bate
nas ramblas de Barcelona,
de onde vejo a cara múltipla do mundo.
Por sobre os plátanos e as bancas de jornais,
esplende o sol catalão,
enquanto caminho por entre estátuas vivas,
flores e passarinhos.
Que vim fazer aqui?
Que faço entre turistas?
Minhas pernas não respondem, caminham
rumo ao Passeig de Gràcia.
Meus olhos não respondem, miram
a grande rosa de pedra que Mirò
plantou no chão desta rua.

Sou apenas um turista a mais
na Plaça de Catalunya.
Mas o meu coração
que em turiense
ainda bate
já ama em catalão.
T’estimo, Barcelona.
Fins aviat.




PANTANAL

A partir de um álbum de fotografias1
alcança o céu
e bica o azul
o bico longo
do tucano-açu

2
periscópio de si mesma
a distraída garça
troca um “a” por um “r”
e é pura graça

3
a siriema não voa
a sua leveza
não está no peso que tem
mas na beleza

4
de perfil, o casal
de mutum-pinima:
dois versos exatos
de perfeita rima

5
a iguana se iguala
à natureza em volta
de verde, de silêncio
e de si mesma envolta











TRÊS POEMAS INÉDITOS (3)

PRESENÇA

Como o mar está na concha
que agora habita a sala de jantar,
tu estás em mim,
no meu amor feito do que foi.
Como o vôo ainda existe
na ave agora prisioneira,
tu estás em mim, no meu amor
feito do que pode ser.
Tu estás em mim
como a semente  da noite está no dia
e a semente da morte está na vida.
Como o salto dos tigres nos tapetes,
os poemas nos dicionários,
a explosão nas bombas.
Assim tu estás em mim:
no que resta,
no que pode ser
e em tudo aquilo que será
um dia.



COLUMBIA ULTRA LIGHTS

A música, a chuva,
a vontade de ser nada.

Mais um cigarro aceso,
mais uma hora apagada.

(A vida que era pra ser vivida
e foi fumada.)

A ânsia, a calma,
a vontade de fazer nada.

Mais um cigarro apagado,
mais uma esperança acesa

na noite desesperada.

(A vida que era pra ser vivida
e foi sonhada.)




O POEMA PERDIDO

Há muito eu queria te fabricar um poema
que dissesse do vento banal
de uma tarde em Copacabana
e do direito de ser feliz.
E ainda hoje, neste exato instante
em que meu coração volta a reclamar por ele,
o poema se oculta atrás de algum edifício,
talvez de um morro, como lua fugidia
que deixa apenas a claridade de sua luz 
sobre as coisas e os homens.
O poema se esconde e se confunde
por entre as pernas
das pessoas que passam como fantasmas pelas ruas,
no alarido dos carros e vozes,
na sinfonia patética da tarde e seus raios de sol
desenhando uma paisagem irreal.
Perguntei a todos pelo poema e um bêbado me disse
que ele foi entreouvido num bar,
talvez estivesse perdido na serpentina do chope,
nas galerias escuras dos esgotos urbanos,
nos bancos de praça onde se sentam os homens que
perderam o emprego e a dignidade de viver.
Talvez o poema esteja irremediavelmente morto,
para sempre sepultado em alguma cova rasa
onde crescem flores mórbidas,
num cemitério da cidade.
Mas talvez ainda viva,
preso pelos fios elétricos das ruas
que porventura o salvaram
em sua última tentativa de suicídio.


terça-feira, fevereiro 24, 2015

TRÊS POEMAS INÉDITOS (2)

POLAROID

Quase se pode ver
o calor que se desprende do teu corpo
embora àquela hora
- 11 e 30 da manhã -
fizesse muito frio em São Paulo.

Meu corpo magro busca no abraço
o teu calor.
A árvore de cores muito quentes
com seu guarda-chuva de flores
(ou coroa)
paira sobre nós, nos agasalha.

Assim estamos
na fotografia que a máquina
pôs pra fora - língua zombeteira
(na verdade, ciumenta do nosso amor)-
e na qual vimos nossas imagens
das trevas do papel
pouco a pouco
se acenderem

como numa aurora.




CASINHA BOA
                      
                               “A borboleta é uma flor que voa”
                                      José Paulo Paes



por sobre o teto da nossa casinha
a borboleta é uma flor que voa
é lá que o nosso amor se aninha
e o nosso amor por uma outra pessoa

no fundo da nossa casinha
uma montanha que nos abençoa
o rio  é um caminho que caminha
em direção a alguma coisa boa

cá dentro da nossa casinha
carinho, fé, amor, café com broa
a sala o quarto o banheiro a cozinha
em cada canto o nosso canto escoa

bem longe da nossa casinha
a voz do nosso filho ecoa
leva pra longe toda dor mesquinha
não deixa a vida ser vivida à toa


A MOÇA DE VOLENDAM

enquadrada na janela
do ônibus eu pude ver
na casinha em volendam
em luz de clara manhã
a moça espremendo a fruta

e ainda hoje, na luta
de uma  esperança vã,
meus olhos querem de novo
a moça de volendam

o sol de sua loura franja
as mãos brancas na laranja
na manhã de volendam

mas só na fotografia,
essa noite faz-se dia
aquele dia de maio
frio e claro em que a vi

nas estradas de holanda
na fria e clara manhã
entre barcos, bicicletas
tulipas, frutas seletas
todas as setas apontam
pra moça de volendam

quero voltar para vê-la
seus dentes como se estrelas
seus lábios feito maçãs

quero voltar para ver
na fria e clara manhá
a moça espremendo a fru
ta
na casinha em volendam


TRÊS POEMAS INÉDITOS (1)


AS ROSAS QUE FALAM             

Como um buquê de flores te
trago umas palavras:
      anêmona
manhã
crisálida
         romã
e a palavra flor

são as rosas que falam
e dizem o meu amor


roubaram o teu perfume
tua maciez
e teu calor


roubei-as de um jardim
que não há,
plantado não na terra
mas no ar, sopro
que sai da minha boca
e signi-
fica na memória



AMANHEÇO

adormeço
e encontro no meu sonho o teu amor
amanheço
e o dia reinaugura minha dor
a dor meço
e mesmo do tamanho que ela for
recomeço
a plantar nesse jarro a mesma flor



A ROSA AMARELA

Como é o nome dela?
Qual é o nome da rosa?
Digo em verso e digo em prosa
Que ela é a rosa amarela.

Ela é a rosa que fala
Ao exalar o seu perfume
E que traz em cada pétala
Aceso o seu próprio lume

Ela é a rosa dos ventos
Que orienta o meu caminho
Dá sentido aos pensamentos

E não me deixa sozinho.
Essa é a rosa que invento
e te oferto com carinho.

QUATRO POEMAS DE AMIZADE

RUAS DAS GAIVOTAS, 12  (A CASA DE MAFI)

É uma casa toda branca
feita de pedra e de amor,
tijolo, telha, bom-gosto...
Vou levá-la pr’onde eu for!

No terreno da memória
ela estará sempre erguida.
E o vento que nela bate
vai refrescar minha vida

em qualquer outra cidade
por onde eu for passear.
Nos seus espaços abertos
para sempre vou morar.

Casa de Coca e Camila,
casa do primo MaFi,
onde mora a amizade
e bons momentos vivi.

É a casa de MaFi
na ilha de São Luís!
Casa que também é minha
porque nela fui feliz.

 


SONETO DOS QUARENTINHA

Para Marco Aurélio Estrela, com música de Bob Dylan


Com atraso de um dia,
te mando meu grande abraço.
Mas vai com a mesma alegria,
fora do tempo e do espaço.

Vai no tempo da saudade
e num espaço sem tamanho,
que é aquele da amizade,
que não sabe o que é tacanho.

Só sabe o que sempre dura,
que do fim sempre se isenta,
pois não tem carne nem sangue.

Primo-irmão, Grande Figura!
Mesmo na casa dos enta,
que sejas forever young.


ADÉLIA

Adélia da Tate
Adélia de Pati
Adélia da Denise
e até de mim

Adélia velha amiga
comigo até aqui
Adélia de Belém
Adélia de Pati

Amiga além do tempo
no Rio que sempre flui
igual e diferente
do que ela foi e fui

E aqui estamos nós
no encontro de agora
nos mesmos nós atados
por esta vida afora

Mas súbito aflora
a síntese que faz
de além de nós dois
nós sermos muito mais


ONDE ANDA EDILA MARTA?

Onde anda Edila Marta?
Em que São Paulo, em que Rio?
Parece que um pouco farta
dos tempos duros, sumiu

dos amigos que a amam
e dela sentem saudade.
Mas saiba: todos te chamam
de volta a esta cidade

que não tem prédio nem rua,
que é feita só de amizade.
Volta, Edila, que é tua
toda a felicidade

que a vida guarda pra ti.
Tempos de cão? Pode ser.
Mas o tempo passa, e aí
tudo pode acontecer!