SONETO DA COLA-GUARANÁ JESUS
Sonhei com a cola-guaraná Jesus,
“o sonho cor de rosa de todas as crianças”,
como dizia a propaganda de quando eu era uma
e o meu coração estava cheio de esperanças.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus.
Se não me engano estava em São Luís.
Sentia o seu sabor, sua cor, sua luz
e já não cabia em mim ser tão feliz.
Por isso acho que acordei como quem acorda
no crucial momento de um perigo,
o momento em que vai soltar-se a corda
ou que vai nos alcançar o inimigo.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus
o sonho novo de um menino antigo.
RAMBLAS
Meu coração turiense bate
nas ramblas de Barcelona,
de onde vejo a cara múltipla do mundo.
Por sobre os plátanos e as bancas de jornais,
esplende o sol catalão,
enquanto caminho por entre estátuas vivas,
flores e passarinhos.
Que vim fazer aqui?
Que faço entre turistas?
Minhas pernas não respondem, caminham
rumo ao Passeig de Gràcia.
Meus olhos não respondem, miram
a grande rosa de pedra que Mirò
plantou no chão desta rua.
Sou apenas um turista a mais
na Plaça de Catalunya.
Mas o meu coração
T’estimo, Barcelona.
Fins aviat.
PANTANAL
A partir de um álbum de fotografias1
alcança o céu
e bica o azul
o bico longo
do tucano-açu
2
periscópio de si mesma
a distraída garça
troca um “a” por um “r”
e é pura graça
3
a siriema não voa
a sua leveza
não está no peso que tem
mas na beleza
4
de perfil, o casal
de mutum-pinima:
dois versos exatosSonhei com a cola-guaraná Jesus,
“o sonho cor de rosa de todas as crianças”,
como dizia a propaganda de quando eu era uma
e o meu coração estava cheio de esperanças.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus.
Se não me engano estava em São Luís.
Sentia o seu sabor, sua cor, sua luz
e já não cabia em mim ser tão feliz.
Por isso acho que acordei como quem acorda
no crucial momento de um perigo,
o momento em que vai soltar-se a corda
ou que vai nos alcançar o inimigo.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus
o sonho novo de um menino antigo.
RAMBLAS
Meu coração turiense bate
nas ramblas de Barcelona,
de onde vejo a cara múltipla do mundo.
Por sobre os plátanos e as bancas de jornais,
esplende o sol catalão,
enquanto caminho por entre estátuas vivas,
flores e passarinhos.
Que vim fazer aqui?
Que faço entre turistas?
Minhas pernas não respondem, caminham
rumo ao Passeig de Gràcia.
Meus olhos não respondem, miram
a grande rosa de pedra que Mirò
plantou no chão desta rua.
Sou apenas um turista a mais
na Plaça de Catalunya.
Mas o meu coração
que em turiense
ainda bate
já
ama em catalão.ainda bate
T’estimo, Barcelona.
Fins aviat.
PANTANAL
A partir de um álbum de fotografias1
alcança o céu
e bica o azul
o bico longo
do tucano-açu
2
periscópio de si mesma
a distraída garça
troca um “a” por um “r”
e é pura graça
3
a siriema não voa
a sua leveza
não está no peso que tem
mas na beleza
4
de perfil, o casal
de mutum-pinima:
de perfeita rima
5
a iguana se iguala
à natureza em volta
de verde, de silêncio
e de si mesma envolta