SETE POEMAS
DE LAURA AMÉLIA DAMOUS
QUIROMANCIA
A mão do poema
é a que me cabe
inteira.
A outra,
eu a carrego,
pesada e alheia.
HERANÇA
Minha avó Amélia que
tinha as orelhas rasgadas
pelo peso do ouro
me deixou um tesouro:
não carregue mais
do que a frágil carne suporta.
NOTURNO
Tudo é tão simples
que poderia ser pedra.
TABUADA
Como ser par
se o mais que perfeito
é ímpar?
LIÇÃO
Mar de prata - ele falou
Desde então o mar
é de prata
Mardeprata
Mar de prata
O mar é de prata
PAPAGAIO
Trituro esta dor
socada em pilão
como tia Ana do grão
gerava o café
Trituro esta dor
e faço cerol
para untar a linha
que nos partirá
EVASÃO
irei para tão longe
onde minhas lembranças não me alcancem
e ensinarei aos meus ouvidos
a canção muda das pedras solitárias
irei para tão longe
onde os caminhos se apaguem
e cobrirei as minhas cicatrizes
como os velhos troncos
se cobrem de limo
irei para tão longe
onde imagens errantes
se percam nos atalhos da memória
e a paz esteja presente
como fruto maduro




