sábado, agosto 27, 2011


SETE POEMAS

DE LAURA AMÉLIA DAMOUS




QUIROMANCIA

A mão do poema

é a que me cabe

inteira.

A outra,

eu a carrego,

pesada e alheia.




HERANÇA

Minha avó Amélia que

tinha as orelhas rasgadas

pelo peso do ouro

me deixou um tesouro:

não carregue mais

do que a frágil carne suporta.



NOTURNO

Tudo é tão simples

que poderia ser pedra.



TABUADA

Como ser par

se o mais que perfeito

é ímpar?



LIÇÃO

Mar de prata - ele falou

Desde então o mar

é de prata

Mardeprata

Mar de prata

O mar é de prata




PAPAGAIO

Trituro esta dor

socada em pilão

como tia Ana do grão

gerava o café

Trituro esta dor

e faço cerol

para untar a linha

que nos partirá




EVASÃO


irei para tão longe

onde minhas lembranças não me alcancem

e ensinarei aos meus ouvidos

a canção muda das pedras solitárias

irei para tão longe

onde os caminhos se apaguem

e cobrirei as minhas cicatrizes

como os velhos troncos

se cobrem de limo

irei para tão longe

onde imagens errantes

se percam nos atalhos da memória

e a paz esteja presente

como fruto maduro


http://www.youtube.com/watch?v=OdqpvvT9bEo

http://www.youtube.com/watch?v=bCoDRC7q0vc

http://bonequinhadepanooespetaculo.blogspot.com/

Links para a Bonequinha de Pano, de Ziraldo. Espetáculo para crianças, protagonizado e produzido por Zezé Fassina, que (estou pesquisando) pode entrar para o Livro dos Records. Aproxima-se a milésima sessão!


quinta-feira, agosto 25, 2011

REGISTRO

Todas as noites viajo a Turiaçu

para fazer meu inventário de perdas.

Vou ao cartório do velho Teixeira

e ali enumero,

entre um soluço e uma lágrima,

os nomes dos peixes

e os meus brinquedos, inclusive a bicicleta,

veloz e brilhante como a luz do meio-dia

incidindo sobre nossos telhados.

Recito quintais (com seus banheiros

distantes da casa) e a constelação

das coisas miúdas habitantes do chão.

Formigas, grãos de milho esquecidos pelas galinhas,

pedaços coloridos de matéria plástica,

estrelas refletidas nas poças d' água

da chuva breve e abundante

da tarde ensolarada.

O velho tabelião discute comigo

a necessidade dessa inútil cantilena.

Mas exijo dele o registro de tudo

nas folhas exatas de papel almaço.

Quero tudo anotado com sua letra caprichada,

de perfeita caligrafia:

a voz de meu pai

me chamando bem cedinho na manhã

para irmos colher o pão ainda quente

na padaria que ele montou só para isso

e nunca lhe deu lucro algum.

A caixinha de música da minha mãe

- onde dançava a bailarina -

que só saía da gaveta da cômoda

em momentos muito especiais.

Reitero meu pedido em registrar o ir e vir das marés

e o velho Teixeira ri da impossibilidade de tal pedido.

Depois, estou nas ruas querendo fotografar tudo,

mas tudo se perdeu.

Volto da viagem carregando a lista imensa.

E nas noites vazias deste tempo

é ela que me orienta.

UMA ARTE
de Elizabeth Bishop
(Trad. de Jamil Damous, com rimas toantes)

A arte deperder é muito fácil.
Tantas coisas querem ser perdidas
que perdê-las não é nenhum desastre.

Perca algo todo dia. Aceite a chave
extraviada e a hora ida.
A arte de perder é muito fácil.

Treine depois perder mais, perder mais rápido
lugares, nomes e aonde queria
ir. Nada disso será um desastre.

Perdi um relógio de mamãe e mais três casas
que eu amava tanto e onde vivia.
A arte de perder é muito fácil.

Perdi duas cidades lindas, tão amadas,
alguns reinos, um continente, dois rios.
Sinto sua falta. Mas nada é um desastre.

Mesmo perder você ( a voz que ria, o amado
gesto)... Não vou mentir: ainda digo
que a arte de perder é muito fácil.
Embora pareça... (Vai, escreve!) muito fácil.

domingo, agosto 21, 2011

RELAÇÃO PARCIAL DO QUE FOI LEVADO PELO RIO

O rio levou a casa e suas lembranças

Todos os cadernos, todos os projetos

O rio levou os livros e a estante

A televisão, o forno e o aquecedor elétrico

O rio levou os pequenos objetos inúteis

A camisa no varal

Os papéis na gaveta

A escritura definitiva

O rio levou os desenhos que meu filho fez quando criança

As palavras rabiscadas na lousa que penduramos na sala

As portas e janelas que um dia pintamos de azul

O rio levou a geladeira

A pimenta que ardia solitária dentro da geladeira

O rio levou as paredes da casa

E os planos de um dia reformar a casa

O rio levou a cama e o sono

O vento que batia no bambuzal

O barulho da chuva no telhado, o cheiro da terra molhada

O estrume do gado

E o aroma escandaloso do jasmim

O rio levou o frio

As primeiras luzes da aurora

O verde ensolarado da encosta do morro

O pau a pedra o fim do caminho

O rio levou a casa

A viagem de carro que nos levava até a casa

O rio levou o Carnaval, a Semana Santa, o Corpus Christi

A contemplação das estrelas, o medo da morte

E a esperança de tudo dar certo um dia

O rio levou as madrugadas insones, as viagens imaginárias

O pequeno bumba-meu-boi pendurado no telhado

O rio levou todo o telhado

O rio levou a Via Láctea

(O caminho entre a casa e o rio, sob as estrelas)

O rio levou a lua cheia

O rio levou o Pacífico e o Atlântico

E os cinco continentes

No mapa-múndi na parede do quarto

O rio levou os nomes de todas as cidades no mapa As cento e cinquenta mil palavras no dicionário

O ubi sunt, o carpe diem, o locus amoenus

O rio levou os caminhões que passeavam na estradinha carregados de realidade

Os aipins que floresciam vertiginosamente no interior da terra

O rio levou a montanha

O rio levou o céu

O rio levou a casa

O rio levou o rio, o rio, o rio

segunda-feira, agosto 15, 2011

UMA ARTE

Elizabeth Bishop


(Trad. de Jamil Damous)


A arte de perder não é tão difícil assim;

tantas coisas querem ser perdidas

que perdê-las não é algo tão ruim.

Perca algo a cada dia. Aceite, sim,

a hora extraviada, a hora perdida.

A arte de perder não é tão difícil assim.

Depois perca mais rápido, vá ao confim

da perda de lugares, nomes, da partida

que não aconteceu. Não é tão ruim.

Perdi o relógio de mamãe e agora vim

de perder três casas tão queridas.

A arte de perder não é tão difícil assim.

Perdi duas cidades lindas. Foram-se de mim

um império, dois rios e um continente pela vida.

Sinto sua falta. Mas nada tão ruim.

Mesmo perder teus gestos e tua voz, pra mim

não muda nada, pois, querida,

a arte de perder não é tão difícil assim,

embora pareça... (Vai, escreve!) ...tão ruim.

ONE ART

Elizabeth Bishop

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.