DEUS E AS FORMIGAS
Todos já
dormiam quando saí para
ver o luar.
Era uma noite fria, dessas que
eu amo.
E havia um silêncio
mais alto
que o assobio
do vento, mais
alto que
o pio dos passarinhos,
desses de que não sei o nome.
Soltei um jato
de urina forte
e ruidoso sobre
a terra e aspirei no alívio
o cheiro da noite.
Jasmim e estrume
do gado.
Foi aí que vi as formigas, perigosamente próximas, vítimas
potenciais da hecatombe.
Mudei a direção do jato
cuidadosamente. Depois, agachei-me e
fiquei observando a fila indiana dupla,
a que ia e a que
vinha, só
uma delas carregando os luminosos
pedacinhos de folha, bandeiras verdes
de um exército
em marcha.
Havia ali uma determinação, um
propósito. Todas eram iguais
perante o meu
olhar. Até que me assomou
a possibilidade espantosa de cada uma ser um indivíduo. Para que estavam ali sob o luar de maio? Que sonho, que utopia, as
animava a ir em
frente? E elas
iam, numa disciplina
estrita, denodada.
Por um breve instante
a luz da lua
brilhou num pedacinho de folha e
refletiu, ali, a cara
de Deus.
E aquela procissão
de formigas não
era menor
que a caminhada
dos judeus do Egito para
Canaã, não era
menos épica
que a marcha
dos exércitos de Napoleão pelos campos
gelados da Rússia, nem menos memorável que o primeiro astronauta caminhando sobre
o chão da lua.
Havia um fim
naquilo tudo, mas
ele não
me foi revelado.Tudo
o que sei é que
só um
ser ali podia
deter aquele caminhada. E esse
ser era eu. Bastava uma pisada,
um jato
de mijo, um chute
na terra.
FLORENÇA E FLORENÇA
Eu nunca fui a
Florença.
Por isso é preciso fazer um poema para Florença.
Um poema com as pedras
arredondadas pelos sonhos
de ver Florença.
Esses que já me habitam.
Com essas pedras,
pavimentar as ruas
da cidade sonhada. Porque
a lua que irá
banhá-las é a mesma lua
que banha
este março
cruel e chuvoso
do Rio de Janeiro.
A mesma lua que banha os campos - também tão lindos - do meu
país destroçado.
Eu nunca fui a
Florença.
Por isso é preciso
sonhar Florença.
Sonho-a jóia de pedra, incrustada de idéias. Sonho-a a cidade
visível do meu
desejo de caminhá-la, concreta, no esplendor
de sua materialidade.
O Rio Arno corre
na veia da memória.
A Ponte Velha
desde sempre
esteve aqui, a ligar
a realidade e o sonho,
o velho e o novo,
Florença e Florença.
‘
Aqui estou, na praça de Miguel Ângelo. Diante
de mim, o vale
do Arno e a silhueta da cidade. A torre
do Palácio Velho
à esquerda e, à direita,
a igreja de Santa
Cruz. Ao centro,
a cúpula do Duomo. Bruneleschi apóia a mão direita em meu ombro e a outra
aponta para sua
obra. Numa esquina
insuspeitada, Galileu empunha uma luneta e descobre que
a Terra gira em torno do homem. Em frente ao restaurante,
Miguel Ângelo grita: "Parla!"
E as palavras são
esculturas feitas
de ar. (Esculturas
mais perfeitas que
o Moisés: não lhes
falta nem
falar.) Na praça
da Senhoria, Leonardo tenta se identificar ao porteiro do hotel,
enumerando seus feitos.
Donatello, Boticelli e Fra Angelico passeiam entre
os japoneses com suas
câmeras fotográficas. Ghiberti,
Ghirlandaio e Giotto se alinham em ordem alfabética na relação
dos hóspedes. No balcão,
Dante escreve num cartão
postal: "O homem
é a mais bela
criação de Deus".
É preciso observar Florença. Com olhar exato,
inocente e apaixonado. Saio pelas ruas e invento
a perspectiva e os primeiros
nus.
Aqui nada foi
roubado de outro lugar.
Obras de seus
próprios filhos,
os tesouros de arte
e arquitetura se perfilam íntegros ante meus olhos brasileiros. Penso
em Aleijadinho e Oscar, na utopia de meu país, no que
podia ter sido e não
foi. Sei que tudo
isso também
é meu. Cada
museu é minha
casa. Quem
ama o belo
já o possui na escritura
definitiva da memória.
Já tenho a fadiga generosa de percorrer
Florença. Agora a lua
cai sobre as pedras.
A lua de Florença, lua que nunca vi,
ilumina todo o mar
de Copacabana. ( É uma lua quase
cheia, feito
a felicidade. É uma lua
quase meia,
inteira em
sua metade.)
É preciso ver, ouvir,
cheirar, provar e tocar Florença.
Só então
poderei trazer de Florença o que ela tem de melhor:
artigos de couro,
finos tecidos,
a luz da lua sobre o Arno, os mais
belos quadros
dos Ofícios. E a saudade
que terei de Florença, quando for Florença que
já estiver, então,
a passear por
mim.
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