CANÇÕES COMENTADAS
Em outubro do ano passado, postei 6 letras de música da minha autoria, com pequenos comentários
sobre cada canção, tentando refletir sobre elas, contar como foram criadas, iluminar possíveis pontos obscuros. Como o número de comments foi 0 (zero), posto agora mais 5 tendo só a mim mesmo como público-alvo. Uma forma de guardá-las, relembrá-las, como quem canta baixinho, sozinho, deitado no escuro.
EMARANHADO
Chico Saldanha - Jamil Damous
lantejoulas miçangas e vidrilhos
no veludo do lombo do meu boi
tudo é brilho cerol caco de vidro
azulejos daquilo que já foi
um batuque rebumba no meu peito
a cidade a saudade a solidão
é mentira é flamingo é mexerico
é enredo é novelo é maranhão
boitempo esquecer pra lembrar menino antigo
ô me diga onde está pra onde é que foi
pedro guará anastácio catarino
bumba-boi-boi-bumbá-bumba-meu-boi
pedro guará anastácio catarino
ê maranhão
emaranhado coração
Essa letra teve várias formas antes de ser musicada por Chico Saldanha. Sempre quis entrelaçar as palavras “Maranhão” a “emaranhado” e o fiz em alguns textos que permanecem inéditos. Aqui, o entrelace se dá em meio a um emaranhado de citações que devem soar enigmáticas para quem ouve. Fui ao Aurélio e descobri inimagináveis acepções para a palavra “maranhão”: intriga caluniosa, mexerico, fofoca, mentira e... flamingo! É também sinônimo de maranhense, acepção em desuso. Boitempo, Esquecer para Lembrar e Menino Antigo são os títulos dos livros de Carlos Drummond de Andrade que compõem a trilogia Boitempo, com as suas memórias poéticas. Pedro Guará, Anastácio e Catarino são pessoas, aqui personagens, de Turiaçu. Chico Saldanha acrescentou o verso “Reúne, reúne, sob o comando de China”, citação a uma toada muito popular de bumba-meu-boi, tornando tudo ainda mais enigmático e emaranhado.
Essa minha primeira parceria com o autor da belíssima “Itamirim”, teve duas gravações: dele, no disco que tem o nome da canção, com participação de Zeca Baleiro, que ainda fez o arranjo, e de Rosa Reis, também maranhense.
GÓ
Nilson Chaves – Jamil Damous
luz do sol
ar que respiro
si bemol
que exato retiro
do violão
o mistério da vida é ainda
seres tão linda
e o tempo não passar
eu te amo eu te amo
e é só
golpe de caratê
gol de pelé
gó
pura flor
arco-íris íris
o amor
resiste à dor da solidão
o mistério da vida é ainda
seres tão linda
e o tempo não passar
eu te amo eu te amo
e é só
alguém feliz
a voz de elis
gó
Uma enumeração de coisas belas e exatas, metáforas para a musa, cujo apelido é Gó. Foi desclassificada num festival da Globo. Anos depois, um jurado me disse que a razão foi a de que já havia uma outra canção sobre Elis Regina. O que de forma alguma é o caso desta. “Elis”, aqui, é claro, se refere à cantora, à sua voz, mas apenas como símbolo de coisa bela e exata, como um gol de Pelé, um golpe de karatê e... alguém feliz!
PASSARINHO E HOMEM
Nilson Chaves – Jamil Damous
ó passarinho que eu não sei o nome
por favor me conta tudo o que não sei
me ensina o segredo da beleza
a ciência da leveza
e da gravidade a lei
ó passarinho que eu não sei o nome
vem cá e canta a tua canção
mata um pouco a minha fome
que eu sou só um homem
em sua solidão
sacia um pouco a minha sede
vem e cai na rede
do meu coração
ó passarinho tu vens de onde ?
de uma terra que já sonhei ?
será que um sonho bem lá se esconde
como se esconde esse que já sonhei ?
ó passarinho eu nem sei teu nome
mas tu não sabes o meu também
somos apenas passarinho e homem
desalentados diante do além
Começa com um erro de português ( o certo seria “ó passarinho de que não sei o nome”), que optei por deixar por causa do metro, embora haja soluções boas, como “passarinho” virar “passarim”, por exemplo. Foi indicada em duas categorias para o Prêmio Sharp, inclusive Melhor Canção Regional. Perdeu para uma do grande Dominguinhos. Ganhou Melhor Arranjo, que é do Jacques Morelembaum. Só o cello dele e o violão do Nilson. É uma canção tristíssima, com o velho tema do homem desamparado diante da natureza indiferente à sua dor e à sua solidão.
UM SAMBINHA
Jamil Damous
ando tão só
com a alma no umbigo
sozinho comigo
às vezes com dó
de mim
às vezes feliz assim
como agora estou
ando tão só
ser só pode ser tão bom
melhor mesmo é só estar
com você
porque
se você fosse minha
estar seria ser
e eu te daria
o meu amor
em vez deste sambinha
O Chico Saldanha, meu cunhado, gravou esta bossa-nova. Por incrível que pareça, fiz também a melodia. Costumo brincar dizendo que baixou o espírito do Tom Jobim (nesse dia ele não tava muito inspirado)e me ditou a música. O Saldanha me pediu que registrasse numa fita cassete pra ele tirar no violão e depois passar pro arranjador. Este, ao ouvir, ficou indignado e ligou pro Saldanha perguntando que porra de gravação era aquela, com um sujeito bêbado e desafinado. Saldanha pediu que ele ouvisse com boa vontade. Insistiu em que, apesar da gravação, a melodia era boa. No dia seguinte, o cara liga dizendo que ele tinha razão, que a música era ótima. No dia seguinte, ligou de novo dizendo que a música era excelente, que ele já estava fazendo o arranjo, com um puta solo de sax, etc.
BUMBA MEU BOI
Jamil Damous
bumba meu boi
já era já foi o tempo
bumba meu boi
não contento em mim meu coração
bumba meu boi
pras bandas do maranhão
vou bumbando por aí
por dentro do meu coração
meu coração não contém
o mar do maranhão
o barco onde velejo
o bar onde onde bebo
onde vejo lá fora
na rua da ladeira
tudo bumbá
na rua da ladeira
tudo bumbá
guenta o tempo firma o boi
anastácio da paixão
firma o boi aguenta o tempo
deixa bumbá meu coração
Minha primeiríssima canção, composta aos 16 anos, durante uma aula chata. Ao final da aula, estava pronta, letra e música nascidas juntas e memorizadas. Quando conheci o Nilson Chaves, ele tirou no violão e deu voz a ela. Pouco mais tarde, o Paulo André Barata fez o mesmo. Gostou do baião (apesar do nome, é um baião) a ponto de incluir no seu show Todo Dia é dia D, do qual participava uma jovem cantora chamada Fafá Moura Palha Figueiredo, que mais tarde faria sucesso nacional com o nome de Fafá de Belém. Ela também cantou a música, no espetáculo teatral “Tem Muita Goma no meu Tacacá”, do Grupo Experiência, de Belém, dirigido por Geraldo Sales. Muitos amigos meus a sabem de cor e é a que mais faz “sucesso” entre eles. Curiosamente, no entanto, nunca foi gravada por ninguém. Tenho duas gravações précárias em fitas k7, uma do Nilson, outra do Paulo André. Lastimo muito não ter a da Fafá, pois além do registro em sua bela voz, teria também o arranjo do grande Guilherme Coutinho. É uma honra tê-lo como parceiro em outra canção daquele espetáculo, “Foicerá”, também nunca gravada.
Em outubro do ano passado, postei 6 letras de música da minha autoria, com pequenos comentários
sobre cada canção, tentando refletir sobre elas, contar como foram criadas, iluminar possíveis pontos obscuros. Como o número de comments foi 0 (zero), posto agora mais 5 tendo só a mim mesmo como público-alvo. Uma forma de guardá-las, relembrá-las, como quem canta baixinho, sozinho, deitado no escuro.
EMARANHADO
Chico Saldanha - Jamil Damous
lantejoulas miçangas e vidrilhos
no veludo do lombo do meu boi
tudo é brilho cerol caco de vidro
azulejos daquilo que já foi
um batuque rebumba no meu peito
a cidade a saudade a solidão
é mentira é flamingo é mexerico
é enredo é novelo é maranhão
boitempo esquecer pra lembrar menino antigo
ô me diga onde está pra onde é que foi
pedro guará anastácio catarino
bumba-boi-boi-bumbá-bumba-meu-boi
pedro guará anastácio catarino
ê maranhão
emaranhado coração
Essa letra teve várias formas antes de ser musicada por Chico Saldanha. Sempre quis entrelaçar as palavras “Maranhão” a “emaranhado” e o fiz em alguns textos que permanecem inéditos. Aqui, o entrelace se dá em meio a um emaranhado de citações que devem soar enigmáticas para quem ouve. Fui ao Aurélio e descobri inimagináveis acepções para a palavra “maranhão”: intriga caluniosa, mexerico, fofoca, mentira e... flamingo! É também sinônimo de maranhense, acepção em desuso. Boitempo, Esquecer para Lembrar e Menino Antigo são os títulos dos livros de Carlos Drummond de Andrade que compõem a trilogia Boitempo, com as suas memórias poéticas. Pedro Guará, Anastácio e Catarino são pessoas, aqui personagens, de Turiaçu. Chico Saldanha acrescentou o verso “Reúne, reúne, sob o comando de China”, citação a uma toada muito popular de bumba-meu-boi, tornando tudo ainda mais enigmático e emaranhado.
Essa minha primeira parceria com o autor da belíssima “Itamirim”, teve duas gravações: dele, no disco que tem o nome da canção, com participação de Zeca Baleiro, que ainda fez o arranjo, e de Rosa Reis, também maranhense.
GÓ
Nilson Chaves – Jamil Damous
luz do sol
ar que respiro
si bemol
que exato retiro
do violão
o mistério da vida é ainda
seres tão linda
e o tempo não passar
eu te amo eu te amo
e é só
golpe de caratê
gol de pelé
gó
pura flor
arco-íris íris
o amor
resiste à dor da solidão
o mistério da vida é ainda
seres tão linda
e o tempo não passar
eu te amo eu te amo
e é só
alguém feliz
a voz de elis
gó
Uma enumeração de coisas belas e exatas, metáforas para a musa, cujo apelido é Gó. Foi desclassificada num festival da Globo. Anos depois, um jurado me disse que a razão foi a de que já havia uma outra canção sobre Elis Regina. O que de forma alguma é o caso desta. “Elis”, aqui, é claro, se refere à cantora, à sua voz, mas apenas como símbolo de coisa bela e exata, como um gol de Pelé, um golpe de karatê e... alguém feliz!
PASSARINHO E HOMEM
Nilson Chaves – Jamil Damous
ó passarinho que eu não sei o nome
por favor me conta tudo o que não sei
me ensina o segredo da beleza
a ciência da leveza
e da gravidade a lei
ó passarinho que eu não sei o nome
vem cá e canta a tua canção
mata um pouco a minha fome
que eu sou só um homem
em sua solidão
sacia um pouco a minha sede
vem e cai na rede
do meu coração
ó passarinho tu vens de onde ?
de uma terra que já sonhei ?
será que um sonho bem lá se esconde
como se esconde esse que já sonhei ?
ó passarinho eu nem sei teu nome
mas tu não sabes o meu também
somos apenas passarinho e homem
desalentados diante do além
Começa com um erro de português ( o certo seria “ó passarinho de que não sei o nome”), que optei por deixar por causa do metro, embora haja soluções boas, como “passarinho” virar “passarim”, por exemplo. Foi indicada em duas categorias para o Prêmio Sharp, inclusive Melhor Canção Regional. Perdeu para uma do grande Dominguinhos. Ganhou Melhor Arranjo, que é do Jacques Morelembaum. Só o cello dele e o violão do Nilson. É uma canção tristíssima, com o velho tema do homem desamparado diante da natureza indiferente à sua dor e à sua solidão.
UM SAMBINHA
Jamil Damous
ando tão só
com a alma no umbigo
sozinho comigo
às vezes com dó
de mim
às vezes feliz assim
como agora estou
ando tão só
ser só pode ser tão bom
melhor mesmo é só estar
com você
porque
se você fosse minha
estar seria ser
e eu te daria
o meu amor
em vez deste sambinha
O Chico Saldanha, meu cunhado, gravou esta bossa-nova. Por incrível que pareça, fiz também a melodia. Costumo brincar dizendo que baixou o espírito do Tom Jobim (nesse dia ele não tava muito inspirado)e me ditou a música. O Saldanha me pediu que registrasse numa fita cassete pra ele tirar no violão e depois passar pro arranjador. Este, ao ouvir, ficou indignado e ligou pro Saldanha perguntando que porra de gravação era aquela, com um sujeito bêbado e desafinado. Saldanha pediu que ele ouvisse com boa vontade. Insistiu em que, apesar da gravação, a melodia era boa. No dia seguinte, o cara liga dizendo que ele tinha razão, que a música era ótima. No dia seguinte, ligou de novo dizendo que a música era excelente, que ele já estava fazendo o arranjo, com um puta solo de sax, etc.
BUMBA MEU BOI
Jamil Damous
bumba meu boi
já era já foi o tempo
bumba meu boi
não contento em mim meu coração
bumba meu boi
pras bandas do maranhão
vou bumbando por aí
por dentro do meu coração
meu coração não contém
o mar do maranhão
o barco onde velejo
o bar onde onde bebo
onde vejo lá fora
na rua da ladeira
tudo bumbá
na rua da ladeira
tudo bumbá
guenta o tempo firma o boi
anastácio da paixão
firma o boi aguenta o tempo
deixa bumbá meu coração
Minha primeiríssima canção, composta aos 16 anos, durante uma aula chata. Ao final da aula, estava pronta, letra e música nascidas juntas e memorizadas. Quando conheci o Nilson Chaves, ele tirou no violão e deu voz a ela. Pouco mais tarde, o Paulo André Barata fez o mesmo. Gostou do baião (apesar do nome, é um baião) a ponto de incluir no seu show Todo Dia é dia D, do qual participava uma jovem cantora chamada Fafá Moura Palha Figueiredo, que mais tarde faria sucesso nacional com o nome de Fafá de Belém. Ela também cantou a música, no espetáculo teatral “Tem Muita Goma no meu Tacacá”, do Grupo Experiência, de Belém, dirigido por Geraldo Sales. Muitos amigos meus a sabem de cor e é a que mais faz “sucesso” entre eles. Curiosamente, no entanto, nunca foi gravada por ninguém. Tenho duas gravações précárias em fitas k7, uma do Nilson, outra do Paulo André. Lastimo muito não ter a da Fafá, pois além do registro em sua bela voz, teria também o arranjo do grande Guilherme Coutinho. É uma honra tê-lo como parceiro em outra canção daquele espetáculo, “Foicerá”, também nunca gravada.