quinta-feira, agosto 29, 2013

(S)OBRAS (IN)COMPLETAS - parte 2
[poemas do meu primeiro livro, Tempo Turiense e Outros Tempos Tempos (1978), que ficaram de fora das minhas Obras (quase) Completas]

PROTESTO

protesto contra  o estado de coisas
         contra                  as
                             coisas
                do estado
         contra  o 
protesto contra  o estado
         contra  o estado          em que se en-
         contra  o

protesto


PALAVRADOR
  lavra
       dor
palavra
  lavrador
palavra
       dor

TREM DOIDO
Em Minas,
trem
é uma palavra-carro
que viaja em qualquer
composição.

A NOITE EM SÃO PAULO
Por entre edifícios,
outdoors, bancários, descubro a
lua,
logomarca no céu paulistano.

CANÇÃO
 o que me faz feliz
o que me mantém vivo
não é a cor dos teus cabelos
teus desdéns ou teus apelos
o que me faz feliz
é um ser cativo
por detrás dessa imagem
à margem do que em ti me diz
eu te amo não te engano

o que me faz feliz
o que me mantém vivo
não é o tamanho do teu olho
não é o que colho
é o que planto todo dia em nós
e em tudo
à margem do que em ti me diz
sou a mesma não mudo

o que me faz feliz
o que me mantém vivo
é a esta festa estar presente
é dançar contigo a mesma dança
que é sempre viva
e não mente

NOSSO TEMPO

de manhã você fica tão bem ao meu lado
acendo no teu meu cigarro
e vamos olhar com os olhos abertos
o dia em azul

teu sorriso no espelho de um carro que passa
o teu tempo o teu medo e a graça
do teu velho jeito de andar

de manhã eu fico tão bem o teu lado
você acende no meu teu cigarro
e vamos olhar o dia vermelho
com os olhos azuis

meu sorriso no espelho do apartamento
o meu tempo o meu medo e o sentimento
ao saber que o dia passou
(pelo teu velho jeito de andar)

PROFECIA
 quando ela chegar
vai pintar uma estrela vermelha
no céu da boca da noite
um açoite no meu coração
quando ela chegar
de um planeta qualquer muito azul
invadir meu espaço
me tirar um pedaço
ou me recompor
me mostrar outro mundo
tendo ao fundo outro azul
outra vida outra morte
novo sul novo norte
para me apontar
outro chão pra pisar
todo feito de estrelas
de primeira grandeza
e me dar a certeza
de que existe a beleza
do outro lado da lua
do outro lado da rua
por onde ela chegar

SAUDADE EM DOIS TEMPOS
 I Significado-água
Da última flor explodem pétalas
do teu oculto e belo significado.
Bárbaras línguas não te sabem
o agridoce paladar-palavra.
Teu significado-água só flui entre o Tejo
e o Amazonas.
E a gente te pronuncia
no sotaque calado do peito
em fogo.

II Significado-água
Os dicionários não contêm inteira
tua inquietude, tua dor alegre,
sentimentos passeando ao largo
de todo pensamento lógico.
Porque, mais que palavra, é flor, perfume
penetrando em tudo,
jasmim gritando ao luar seu branco.
És também som, solo de flauta ao longe
inundando o ar de outros ares, fomes.
Acima de tudo, és fome.
Não a fome feia, violenta, agreste.
És fome encantada de noites insones.
Sobre teu significado-terra
plantamos a árvore de proibidos frutos
medrando na noite só desejo.

AMARANTA EM SEIS TEMPOS
 I Registro de nascimento
Amaranta Aldora da Cruz
da vida
ou da morte
se semente de outras vidas diferentes Damous.

II Inauguração
Amaranta boceja pro mundo,
abre os olhos pro mundo,
vai descobrindo as formas, sons & cores,
inaugurando as sensações.

III Aquarius
Projeto de ser assim,
cumprir seu signo, sua sina
de ser mulher bonita,
guerrilheira ou bailarina,
alguém entre alguns bilhões
de peças da engrenagem humana
a operar o mundo
e suas re-
voluções.

IV Geografia
O choro de Amaranta
ecoa além
deste apartamento em Copacabana,
se espalha pelas montanhas do Líbano,
por entre o Minho e o Douro,
vai deflorando as matas virgens da Amazônia.

V Primeira infância
Comer. Dormir.
Viver seu tempo de espera
feito de oceanos, nuvens altas,
alquimias.
Desabrochar sua flor,
que é a mais bonita flor
e espraiar o seu perfume
nos seres e por eles
ser sempre perfumada.

VI Cantiga de ninar
Amaranta,
teu pai não te fará mais poema
algum.
Te dirá apenas:
piquinina,
amaranta-cara-de-anta,
agum.

(S)OBRAS (IN)COMPLETAS - parte 1
[poemas do meu primeiro livro, Tempo Turiense e Outros Tempos, que ficaram de fora das minhas Obras (quase) Completas]

PREFÁCIO

Tempo turiense é o tempo
em que se plantaram as formas definidas
definitivas
e instalaram-se as regras, diretrizes
de um viver aqui
ou em qualquer lugar.
Tempo turiense é o mesmo tempo Belém, Belém,
sempre verão, inferno e céu,
Escadinha, Bar do Parque.
Tempo turiense é o mesmo tempo Copacabana,
coca-cola, cloaca & cacos
de lembranças,

azulejos ao luar.


A CASA DE BIBIA

Silêncio e poeira habitam a casa de Bibia,
plantada na beira do rio,
mais antiga que o rio.
Poeira e silêncio cheirando a naftalina
nas antigas roupas dela e de Sabino.
A casa
guarda as suas vidas, velhas e mesmas,
que fizeram deles viúvos um do outro.
A casa de Bibia é atemporal,
museu de um mundo anterior
à geração mais nova da família.
o velho rádio invade pela casa o mundo novo,
as primeiras notas do rock´n roll
e faz Bibia consumir Melhoral,
que é melhor e não faz mal.
Mas quando, às dez horas, vai-se embora
a luz elétrica,
voltam as sombras a cobrir o baú
que o mito muito antigo na cidade
diz estar cheio de ouro e de dinheiro.
As sombras voltam a cobrir as cascas secas de laranja
enroladas no telhado,
o petisqueiro guardando os seus cristais.
as lembranças vivem na casa de Bibia.
Sabino foi palhaço de circo e fala inglês,
Bibia foi madame e rica em Paris
e hoje lava, no mesmíssimo dia da semana,
seus longos cabelos brancos
nas águas do tempo turiense.


AZULEJOS

Azulejos e desejos nas paredes da memória
Arabescos minha vida nas paredes uma história
(A lua e rua rimam com a minha infelicidade
Refletidas no azulejos das paredes da saudade)

Azulejo azul desejo na Fonte do Ribeirão
Meus pecados e meus vícios perdidos no Maranhão
(Emaranhado da vida)

Há muito mais que tudo isto esta noite
Noite antiga de menino aqui e agora
Silêncio violentado por um solo de viola
Em mês de fevereiro São Luís do Maranhão
(Tempo-espaço emaranhado dentro do meu coração)

A minha vida perdida na minha mão de criança
(Sei tão pouco dessa estrada como da palma da mão)

Essa ponte não é ponte
Esse mar de brincadeira
Essa ponte é uma ponte
Que não tem eira nem beira


KOHOUTEK

Sentamo-nos cada vez mais calados
nos novos bares que surgem na cidade.
Já nem dizemos mais:
“as palavras estão mortas”.
Calamo-nos.
Nas mãos, o osso deste tempo
duro de roer.
Estamos juntos nos bares,
no Bar do Parque, na
praça da República,
pública e notória
como peças de um museu.
Ruminamos com cerveja
maios que não explodiram
suas flores.
Estamos juntos no Bar
e esperamos
um mensageiro luminoso
que virá passar sobre nossa mudez
a cento e vinte mil
quilômetros por hora.

           
            A UM POETA DE OUTRO TEMPO E LUGAR

Estou contigo, poeta.
No vazio desta noite incolor,
inodora, indolor,
os teus versos chicoteiam
com o duro couro do teu verbo
o dorso do meu sentir-te.
Estou contigo, poeta,
nesta noite sem significados,
no grande transe de perceber-te
angustiado maior,
mártir de saber o caos,
artesão de códigos de dor.
Estou contigo, poeta.
Nesta noite insuportavelmente sóbria,
amasso as uvas do que dizes
para o vinho da magia
e brindo à poesia
que em meus sentidos todos
invade sua presença,
nesta suprema festa de te ler.
Estou contigo, poeta,
e sigo pela noite ébria
as palavras com que lavras
meu ser poeta e estar contigo
tantos anos depois de haveres dito
           o que está além do tempo e do espaço
           e adentra minha indigente noite brasileira.


PLENILÚNIO

As coisas são como são:
são como em sonho.
E isso é certo, perfeito
como a lua em plenilúnio.
A lua é o que dela sonho.
Ela é como ela é
dentro do sonho.


VICE-VERSA

vide o verso e o reverso
da medalha no meu peito
verse a vida
viva o verso
sem conversa rima efeito

faça a vida
viva o fato
viva o fato
faça a vida
infinito
vice-versa


PÉRIPLO

canto do caos
  o caos me encanta
    enquanto vida
      cais da partida
     
      canto o caos
    o caos me desencanta
  enquanto nada
cais da chegada
.