segunda-feira, setembro 24, 2012



A PRIMAVERA DE 1980

Não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?”

João Cabral de Melo Neto

Na primavera de 1980,
um homem se reinventa
e tenta o adiado salto.
Um homem pensa alto
na primavera de 80:
não se contenta com o tempo
que massacrou as flores
de outras primaveras.

Não se contenta com os maios
que não explodiram suas flores.
Busca um setembro liberto
reaberto aos odores
que novos ventos trarão:
de chão molhado de chuva,
de ar puro das montanhas,
de vagina e de jasmim.

Na primavera de 80
um homem olha para si,
para o seu corpo que é belo
à luz concisa do dia
e vai descobrindo as formas
que se mantinham escondidas
sob as vestes do inverno:
o sexo, o olho, a barriga,
as mãos que desenham um gesto,
os pés que percorrem a vida.

Na primavera de 80
um homem se reinventa
e tenta o preterido ato,
avesso de um salto
num trajeto suicida:
fabricar um novo tempo,
mudar o rumo do vento,
saltar pra dentro da vida.