HISTÓRIAS DO TURI (1)
ELZARAÚJO
Elzaraújo, desde
que me
entendo por gente,
nunca foi nome
de gente. No dicionário
da família, era
um verbete
fácil, conhecido
e usado por todos.
Não lembro de nenhuma definição (Elzaraújo. Adj. Diz-se da pessoa
que...), mas
das abonações abundantes que dávamos a algum estrangeiro
quando este
estranhava a palavra.
Na verdade,
Elza Araújo existiu, ou pelo
menos mamãe
jurava que sim,
mas isso
não fazia a menor
diferença. Para
a gente, já
estava inscrito no mundo mitológico da família
apenas como
a origem remota
de “elzaraújo”, substantivo comum.
Uma história
– mamãe jurava que
verdadeira – ajudava a explicar o significado. E foi repetida pela
milésima vez
depois que
uma visita nos
disse estar muito preocupada com a hora em que teríamos
de levá-la ao aeroporto, a nós que sequer cogitáramos de outra
possibilidade que não
a de ela pegar
um táxi.
“Tremenda
elzaraújo essa aí!”. E mamãe contou mais
uma vez daquela tarde
remota em
que Elza Araújo lavou
os pratos do almoço.
Estava hospedada na casa dos meus
avós, lá em
Turiaçu. Convidara a si mesma para passar
as férias. Estavam todos
atarefados com os preparativos
para o noivado
de mamãe. Todo
mundo fazendo alguma coisa,
ela não
foi exceção: resolveu dar uma
mãozinha na lavagem dos pratos.
Ao seu lado,
minha avó, com
quem ela
comenta: “Dona
Laura, tomara
que a Dolores não
me veja aqui
lavando esses pratos,
senão ela
vai brigar comigo...”
Mamãe passava de um
lado para o outro e nada de
brigar com ela.
Teve também
o famoso lembrete:
“Dolores, sei que tu
te preocupas muito
com a minha
sobremesa, mas
para tu não ires te preocupando, te
lembro que basta
comprares aquela goiabada
que eu
adoro. Olha, aqui
está anotada a marca...”
No aeroporto
– não houve escapatória
– a visita pediu a minha
irmã que não
chorasse, pois não
havia motivo para
isso, ano
que vem ela
voltava. A minha irmã enxugava os olhos úmidos de
gripe.
“Elzaraújo”!!! , gritamos em uníssono, para
nos fazermos ouvir
em meio
ao barulho do avião
taxiando na pista do aeroporto do Tirirical.
Sempre foi assim. Diante de uma forma muito especial
de pretensão, a gente
não perdoava: elzaraújo! A expressão logo
extrapolou o ambiente familiar e era comum, e ainda
é, ouvirmos amigos, vizinhos,
colegas, usando-a com
desenvoltura. Mas
Elza Araújo mesma teria existido de carne e osso? Claro, morava no Sul há mais de 20 anos,
mamãe garantia.
Vinte anos
se passaram ( eu
não tinha
nem nascido ainda,
é claro, nos
tempos heróicos
do noivado) quando
numa tarde morna,
normal – já
morávamos em Belém – bateram à porta da minha casa. Fui atender e uma senhora risonha e gorducha, falando baixinho, me
perguntou se não era
ali a casa
de Dolores. Disse que sim, que ela estava lá dentro, quem
gostaria... Perguntou-me então se eu era filho de Dodô e se apresentou em
seguida. “Você
já deve muito
ter ouvido falar de mim. Sou a
Elza”. Dispensava o sobrenome, a cretina. E ainda
mais baixinho, sussurrante: “Vá dizer a sua mãe que estou aqui. Mas, muito cuidado.
Fale com jeitinho, não
vá logo dizendo de supetão,
que ela
pode se emocionar muito
e passar mal...”
Era ela!
E agora,
caro leitor,
sei que vais ficar
inconsolável, mas
tenho que pôr
um ponto final nesta história.
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