sábado, novembro 26, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (1)




ELZARAÚJO

Elzaraújo, desde que me entendo por gente, nunca foi nome de gente. No dicionário da família, era um verbete fácil, conhecido e usado por todos. Não lembro de nenhuma definição (Elzaraújo. Adj. Diz-se da pessoa que...), mas das abonações abundantes que dávamos a algum estrangeiro quando este estranhava a palavra.

Na verdade, Elza Araújo existiu, ou pelo menos mamãe jurava que sim, mas isso não fazia a menor diferença. Para a gente, já estava inscrito no mundo mitológico da família apenas como a origem remota de “elzaraújo”, substantivo comum.

Uma história – mamãe jurava que verdadeira – ajudava a explicar o significado. E foi repetida pela milésima vez depois que uma visita nos disse estar muito preocupada com a hora em que teríamos de levá-la ao aeroporto, a nós que sequer cogitáramos de outra possibilidade que não a de ela pegar um táxi.

“Tremenda elzaraújo essa aí!”. E mamãe contou mais uma vez daquela tarde remota em que Elza Araújo lavou os pratos do almoço.

Estava hospedada na casa dos meus avós, lá em Turiaçu. Convidara a si mesma para passar as férias. Estavam todos atarefados com os preparativos para o noivado de mamãe. Todo mundo fazendo alguma coisa, ela não foi exceção:  resolveu dar uma mãozinha na lavagem dos pratos. Ao seu lado, minha avó, com quem ela comenta:  “Dona Laura, tomara que a Dolores não me veja aqui lavando esses pratos, senão ela vai brigar comigo...” Mamãe passava de um lado para o outro e nada de brigar com ela.

Teve também o famoso lembrete: “Dolores, sei que tu te preocupas muito com a minha sobremesa, mas para tu não ires te preocupando, te lembro que basta comprares aquela goiabada que eu adoro. Olha, aqui está anotada a marca...”

No aeroporto – não houve escapatória – a visita pediu a minha irmã que não chorasse, pois não havia motivo para isso, ano que vem ela voltava. A minha irmã enxugava os olhos úmidos de gripe.

“Elzaraújo”!!! , gritamos em uníssono, para nos fazermos ouvir em meio ao barulho do avião taxiando na pista do aeroporto do Tirirical.

Sempre foi assim. Diante de uma forma muito especial de pretensão, a gente não perdoava: elzaraújo! A expressão logo extrapolou o ambiente familiar e era comum, e ainda é, ouvirmos amigos, vizinhos, colegas, usando-a com desenvoltura. Mas Elza Araújo mesma teria existido de carne e osso? Claro, morava no Sul há mais de 20 anos, mamãe garantia.

Vinte anos se passaram  ( eu não tinha nem nascido ainda, é claro, nos tempos heróicos do noivado) quando numa tarde morna, normal – já morávamos em Belém – bateram à porta da minha casa. Fui atender e uma senhora risonha e gorducha, falando baixinho, me perguntou se não era ali a casa de Dolores. Disse que sim, que ela estava lá dentro, quem gostaria... Perguntou-me então se eu era filho de Dodô e se apresentou em seguida. “Você já deve muito ter ouvido falar de mim. Sou a Elza”. Dispensava o sobrenome, a cretina. E ainda mais baixinho, sussurrante: “Vá dizer a sua mãe que estou aqui. Mas, muito cuidado. Fale com jeitinho, não vá logo dizendo de supetão, que ela pode se emocionar muito e passar mal...”

Era ela!

E agora, caro leitor, sei que vais ficar inconsolável, mas tenho que pôr um ponto final nesta história.

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