quarta-feira, novembro 30, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (5)




O CAFÉ DE SILVANIRA

Todos os procedimentos foram tomados para que o diabo daquele café ficasse mais quente que o enxofre  do inferno. Tudo seria feito rapidamente para que ele chegasse quase fervendo aos lábios de Silvanira. Maricota ficaria de prontidão com a bandeja na porta da cozinha para que não houvesse  tempo do líquido arrefecer um grauzinho sequer. A xícara seria fervida à parte. Em segundos, tudo iria do fogão para a bandeja, Maricota entraria o mais rápido que pudesse na sala e começaria servindo Silvanira. Minha avó, meu avô, mamãe, o velho agregado Adamastor – autor do diabólico plano – e todas as outras visitas esperariam um pouco antes de dar o primeiro gole. Tudo estava ensaiado. Dessa vez eles queriam ver se ela ia ter coragem de cantar o velho estribilho:

- O café está uma delícia, pena que esteja um pouquinho frio.

Todo fim de tarde o ritual se repetia. O cafezinho na casa de vovô já era uma tradição de há séculos e mais antiga ainda era a repetida reclamação de Silvanira. A solteirona podia até não dizer bom dia ao chegar, ou não comentar o clima abafado da tarde turiense, mas nunca falhava no reclamar da temperatura do café.

Mas agora ela ia ver. A vingança estava armada. Pode deixar, Silvanira, que tua batata, quer dizer, teu café, está esquentando.

E chegou a tarde em que todo mundo queria ver se ela tinha coragem de dizer que o café estava frio. Ela ia saber o que é um café quente de verdade.

Os preparativos correram como o previsto. Desde o escaldamento de todo e qualquer continente por onde aquele conteúdo líquido fervente houvesse de passar até a presteza com que Maricota carregaria a bandeja rumo aos lábios reclamões de Silvanira.

E Maricota entra na sala.

Silvanira deu o farto gole de meia xícara como era do seu jeito, e um silêncio se fez, todos de olhos fixos nela. Antes de Adamastor perguntar se aquele estava do seu gosto, pergunta que estava nos seus planos, ela mesma fez o comentário, o primeiro a vir incompleto, sem a  segunda parte,  em muitos anos.

 - O café está uma delícia.

Nenhuma reação, nenhum  músculo da sua face se moveu. Mas todos viram rolar do seu olho esquerdo uma lágrima discreta. Vovó retomou a conversa, alguma coisa sobre os preparativos da festa de inauguração da usina elétrica.

No dia seguinte, Silvanira não apareceu pro cafezinho do fim de tarde. Dizem que ela ficou em casa, cuidando da língua.



terça-feira, novembro 29, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (4)




CABACINHA DE LUZ


­ - O que eu mais gostei foi ver aquele paideguão de alumínio subindo naquele campão de cimento pro rumo de meu Deus...

Assim Dário Mandu descreveu sua emoção ao ver pela primeira vez, no Aeroporto do Tirirical, um avião de verdade, não esses teco-tecos que três vezes por semana pousavam no Campo do Canário.

Ele fora pela primeira vez a  São Luís, para  fazer compras e  ver de perto as maravilhas da capital. Percorreu a Rua Grande de cima a baixo. Tudo o que o Coronel Raimundo Estrela tinha, ele haveria de ter também. A começar pelas “cabacinhas de luz”, como chamava as lâmpadas elétricas que tanto o deslumbraram, acesas na grande casa da Praça da Igreja, com a inacreditável luz que não tremeluzia como a dos candeeiros e fazia milagrosamente a noite turiense virar dia claro.

Antes mesmo de a luz elétrica chegar a Turiaçu, com a inauguração da usina,  o coronel Raimundo Estrela comprou um gerador. Da horinha que escurecia até 10 da noite, as lâmpadas se acendiam e encantavam o povo do Turi.

Um mês depois, Dario Mandu pedia a uma atônita balconista uma dúzia de cabacinhas de luz. De volta a Turiaçu, mandou pendurá-las com barbante  por toda a casa. Chamou o pessoal da redondeza para, juntos, esperar o cair da noite e constatar que o Coronel não era o proprietário exclusivo da luz. A escuridão chegou e, para a suprema humilhação de Dario, as lâmpadas não se acenderam.

Mas ele não se deu por vencido. Iria mostrar a todos outra maravilha do mundo moderno, o rádio, “falador que nem o do meu Compadre Raimundo”, como ele também exigira da moça da loja lá em São Luís. O pessoal se reuniu para ouvir o rádio falador pela primeira vez. O incrédulo Chico Mucura resmungou duvidar muito que aquela caixa preta falasse, que quem fala é gente, que esse negócio de coisa falar é arte do demo. O tempo passava e parecia dar razão a Chico, pois dali só saía o barulho das ondas hertzianas e nada do bicho falar. Com os sinais de impaciência e incredulidade, Dario resolve dar uma satisfação:
Pessoal, é que agora o meu Compadre Raimundo deve tá ouvindo o dele lá. Vamos esperar mais um pouquinho. Quando o dele lá se calar, vocês vão ver aqui o nosso bichinho falar que nem um papagaio!

Mas Dario Mandu ainda não estava satisfeito. Fez outra viagem à capital, desta vez para comprar um ventilador.

- Moça, eu também quero um ventilador percurador que nem o do meu compadre Raimundo.

- Como assim, percurador?

- Um desses­ que ficam percurando a gente.
E, para não restar dúvida, fez com as mãos o movimento lateral do ir e vir dos ventiladores giratórios.

segunda-feira, novembro 28, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (3)





A BURRA ELÉTICA

A palavra faiscava suas sílabas na boca de cada turiense. Soava nova, moderna, quase sensual: elétrica. Ou “elética”, como muitos diziam.

era quase década de 60 e só então chegava ao Turi a mais luminosa forma de progresso.

era quase noite, o sol quase se pondo do outro lado do rio, quando Zé Preá terminou os preparativos da parte que lhe cabia na festa.

Logo mais, quando o sol tivesse afundado de vez por detrás da ilha, quando a escuridão tivesse coberto a lama do apicum e os primeiros grilos viessem anunciar a hora da festa, o povo turiense veria pela primeira vez o milagre da luz.

O discurso pronto no bolso do prefeito Hermenegildo. Os salgadinhos, a cerveja gelando nas geladeiras a querosene.

Preá vestiu sua melhor roupa e aprisionou os pés no mais negro dos sapatos. Caboclo parrudo, fiel cumpridor dos seus deveres, homem sério e respeitador, ele era o braço direito do Coronel Raimundo Estrela, autoridade maior da cidade.

- Mas que camisa elética, Zé Preá!

Ele escutou a gozação da garotada no banco da praça em frente à igreja, mas não deu bola. Rumou para a velha estrebaria  onde os fogos de artifício estavam guardados. Era sua parte na festa. Responsável pelos fogos que deveriam estourar na hora exata em que o prefeito pronunciasse a última palavra do discurso, o momento maior do ato inaugurador. As luzes já acesas, os fogos brilhariam no céu turiense para fazer ainda maior a luz que chegava.

O discurso já ia alto, cheio de ênclises e mesóclises, quando deram por falta do Zé. Já era para ele estar a postos, com os fogos. Alguém gesticulou disfarçada e desesperadamente para o professor esticar o discurso. Nos bastidores do palanque, organizou-se uma comissão emergencial para ir em busca de Zé Preá. Chiquinho Preto, Fidélis e Caroço foram incumbidos da missão e não demoraram muito a decidir-se. Começariam  pela estrebaria.

Fidélis foi à frente com uma lanterna. Chiquinho e Caroço resmungavam atrás que não era possível que ele estivesse lá. Responsável como era, Zé Preá não era homem de falhar com seus compromissos. Alguma coisa séria devia ter acontecido com ele.

Ouviram ao longe o relincho da burra que era o xodó de Zé Preá. Estavam se aproximando da  estrebaria. E no meio do silêncio, entre um relincho e outro, ecoou na boca da noite turiense, a voz de Zé Preá, trêmula de gozo e júbilo:

- Ai, ai, ai. Ui, ui, ui. Uiiii! Ai, minha burra elética!

domingo, novembro 27, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (2)



BURACO

 - Respeitável público: Cumpade Chico fugiu e nós fiquemo sem assunto. Queredo!

A platéia demorou um pouco para entender o que Buraco  - palhaço, apresentador, trapezista, mágico e agora infeliz proprietário do Gran Circo Simões – queria dizer na primeira e única frase proferida  no picadeiro na noite do que seria a grande estréia.

Diante da platéia ansiosa, que esperara toda a semana por aquele  momento, Buraco queria dizer aquilo mesmo: que Cumpade Chico, o macaco, fugira.
E que, por isso, não haveria espetáculo.

O macaco era a estrela maior do Gran Circo, cujo elenco se completava com Buraco e sua esposa, Semíramis. Esta acumulava as funções de bailarina, auxiliar dos números de mágica, eficiente secretária de Buraco e dedicada babá de Cumpade Chico.

Nunca mais se teve notícias do macaco. Semíramis fugiu com um pescador de Sababa. Buraco, para sobreviver - frustrado, corneado e duro – aceitou um trabalho indigno para um artista e foi construir um muro no quintal do Coronel Raimundo Estrela. Nunca na vida havia trabalhado como pedreiro. Certa tarde, o coronel foi dar uma olhada no serviço. Não se imaginaria por ele que Buraco nunca tivesse posto a mão na massa. O muro saía aprumado e firme. O coronel, nada tendo a dizer a respeito da obra, para puxar assunto, pergunta a Buraco se ele está gostando no novo trabalho. “Qual nada, Coronel, meu negócio mesmo são as artes!” 

A partir do dia em que proferiu a célebre frase, Buraco começa a ficar desmotivado com aquele muro escuro e calado. Tem saudades das luzes da ribalta, dos aplausos da platéia. Mas precisa sobreviver. E é ai que começa a aplicar pequenos golpes em todo mundo, pedindo dinheiro emprestado.

Mas como nem só de pão vive o homem, ainda mais um verdadeiro artista, Buraco decide voltar à cena. Como picadeiro não há mais, decide que toda Turiaçu será o palco do maior número de sua vida. Vai atravessar a Praça sobre um cabo de aço, estendido entre a torre da Igreja e o alto do sobrado. Na manhãzinha do sábado, Turiaçu ficou intrigada ao ver aquele fio. Mas tudo foi logo esclarecido por um cartaz afixado no obelisco, onde Buraco prometia o feito monumental. Embaixo do cartaz, uma caixa de sapato onde já repousavam algumas poucas moedas.

A pequena multidão murmura medos e censuras. Como Padre Bento pudera ser tão irresponsável e permitir o uso da igreja para aqueles fins?, esbravejou  Dona Nicota. Expedita, a cozinheira do Coronel,  que já se engraçava por  Buraco desde quando ele construiu o muro, temia pela vida do artista. Fidélis queria apostar com qualquer um que, na hora H, Buraco ia “mijar pra trás” Chegada a hora – às cinco em ponto da tarde – Buraco surge na torre da igreja,  com a única roupa circense que lhe restara.

- Respeitável público. Como vocês já sabem, irei atravessar caminhando sobre este fio de aço, sem nenhuma proteção, da Igreja até os Correios, esta  praça de São Francisco Xavier. Que ele me proteja e guarde. Sim, senhores e senhoras, preciso da ajuda de São Francisco,  pois pelos meus próprios meios não serei capaz de tal coisa. Nunca, em toda a minha vida, fiz este número. Mas não sou homem de voltar atrás no prometido. Além disso, vivo uma situação desesperadora. Neste momento, lá em Bragança, seis crianças estão morrendo de fome. São meus filhos e é por isso que eu vou arriscar minha vida. Por favor, contribuam com quanto puderem, pois já amanhã de manhã, embarco no São Judas Tadeu rumo ao Pará, para salvar meus filhos.

Expedita foi a primeira a gritar, dizendo que não, que Buraco não precisava arriscar a vida daquela maneira, que descesse dali. Que, mesmo ele não atravessando a praça, todos iriam ajudá-lo. As adesões a Expedita logo foram surgindo e aumentando e logo a praça inteira em coro gritava para que Buraco desistisse do gesto temerário.

Se alguém tivesse apostado com Fidélis, teria perdido dinheiro.

São meio obscuras as razões que levaram à expulsão de Buraco da cidade. Mas a versão mais corrente, ainda hoje, é que alguém teria espalhado o boato de que logo após Buraco descer da torre, teria ouvido o artista pedir à cozinheira para  anunciar, do alto da torre, que no domingo seguinte ia ter vesperal. O fato é que, no dia seguinte, ele embarcou no São Judas sob pedras e vaias e por pouco não foi linchado.


Manezinho Setenta  fazia parte daquele distinto público, do dia em que Cumpade Chico fugiu
e o circo ficou sem assunto. Era também um dos mais lesados por Buraco, que sempre recorria primeiro a ele para pedir algum emprestado. Afinal, diziam que Manezinho já  estava mais rico que o Coronel de tanto fazer contrabando nas Guianas.

Anos depois, Manezinho Setenta viaja a Paramaribo. Vai  levar café e trazer uísque. Ao chegar lá, um contratempo o impede de voltar logo para Turiaçu. Sem o que fazer, resolve uma noite ir se divertir num espetáculo de mágicas, muito falado na cidade. Señor Búraco era o nome do mágico.

Acompanhado de Marco Aurélio e Mário Filho, seus dois capangas, Manezinho vai ao show. O mágico entra em cena.

Todo proparoxítono e com carregado sotaque espanhol, Señor Búraco faz sua apresentação.

Manezinho atônito, engasgado de tanta indignação, não se contém. E ouve-se da platéia um brado, alto e retumbante, na mais pura língua portuguesa:

- Devolve o meu dinheiro, Buraco filho duma égua!

Num passe de mágica, Buraco sai de cena. Os dois capangas sobem o palco e entram pelos bastidores, numa movimentação que muita gente deve ter pensado que fazia parte do espetáculo.

As últimas notícias dão conta de que Buraco ainda trabalha no circuito Caiena/Georgetown/ Paramaribo, exercendo suas artes nas cálidas  noites das Guianas, agora com o nome artístico de Mr. Hole.




sábado, novembro 26, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (1)




ELZARAÚJO

Elzaraújo, desde que me entendo por gente, nunca foi nome de gente. No dicionário da família, era um verbete fácil, conhecido e usado por todos. Não lembro de nenhuma definição (Elzaraújo. Adj. Diz-se da pessoa que...), mas das abonações abundantes que dávamos a algum estrangeiro quando este estranhava a palavra.

Na verdade, Elza Araújo existiu, ou pelo menos mamãe jurava que sim, mas isso não fazia a menor diferença. Para a gente, já estava inscrito no mundo mitológico da família apenas como a origem remota de “elzaraújo”, substantivo comum.

Uma história – mamãe jurava que verdadeira – ajudava a explicar o significado. E foi repetida pela milésima vez depois que uma visita nos disse estar muito preocupada com a hora em que teríamos de levá-la ao aeroporto, a nós que sequer cogitáramos de outra possibilidade que não a de ela pegar um táxi.

“Tremenda elzaraújo essa aí!”. E mamãe contou mais uma vez daquela tarde remota em que Elza Araújo lavou os pratos do almoço.

Estava hospedada na casa dos meus avós, lá em Turiaçu. Convidara a si mesma para passar as férias. Estavam todos atarefados com os preparativos para o noivado de mamãe. Todo mundo fazendo alguma coisa, ela não foi exceção:  resolveu dar uma mãozinha na lavagem dos pratos. Ao seu lado, minha avó, com quem ela comenta:  “Dona Laura, tomara que a Dolores não me veja aqui lavando esses pratos, senão ela vai brigar comigo...” Mamãe passava de um lado para o outro e nada de brigar com ela.

Teve também o famoso lembrete: “Dolores, sei que tu te preocupas muito com a minha sobremesa, mas para tu não ires te preocupando, te lembro que basta comprares aquela goiabada que eu adoro. Olha, aqui está anotada a marca...”

No aeroporto – não houve escapatória – a visita pediu a minha irmã que não chorasse, pois não havia motivo para isso, ano que vem ela voltava. A minha irmã enxugava os olhos úmidos de gripe.

“Elzaraújo”!!! , gritamos em uníssono, para nos fazermos ouvir em meio ao barulho do avião taxiando na pista do aeroporto do Tirirical.

Sempre foi assim. Diante de uma forma muito especial de pretensão, a gente não perdoava: elzaraújo! A expressão logo extrapolou o ambiente familiar e era comum, e ainda é, ouvirmos amigos, vizinhos, colegas, usando-a com desenvoltura. Mas Elza Araújo mesma teria existido de carne e osso? Claro, morava no Sul há mais de 20 anos, mamãe garantia.

Vinte anos se passaram  ( eu não tinha nem nascido ainda, é claro, nos tempos heróicos do noivado) quando numa tarde morna, normal – já morávamos em Belém – bateram à porta da minha casa. Fui atender e uma senhora risonha e gorducha, falando baixinho, me perguntou se não era ali a casa de Dolores. Disse que sim, que ela estava lá dentro, quem gostaria... Perguntou-me então se eu era filho de Dodô e se apresentou em seguida. “Você já deve muito ter ouvido falar de mim. Sou a Elza”. Dispensava o sobrenome, a cretina. E ainda mais baixinho, sussurrante: “Vá dizer a sua mãe que estou aqui. Mas, muito cuidado. Fale com jeitinho, não vá logo dizendo de supetão, que ela pode se emocionar muito e passar mal...”

Era ela!

E agora, caro leitor, sei que vais ficar inconsolável, mas tenho que pôr um ponto final nesta história.

quinta-feira, novembro 24, 2011

PRAÇA GONÇALVES DIAS









NA PRAÇA GONÇALVES DIAS

Três e trinta da manhã.
Na praça Gonçalves Dias,
contempla a casa das tias
que dormem profundamente
sem saber que um turista
de si mesmo ali espia
as janelas fechadas.

A criança que foi
é quem olha a casa estática,
enquanto o  tempo flui
na madrugada silenciosa.

Sobre a palmeira de pedra
o poeta o observa
e o vento antigo da ilha
bate e refresca seu rosto.

Tudo foi exílio em sua vida.

Mas naquele instante,
três e trinta da manhã
na praça Gonçalves Dias,
está de volta à casa
onde um dia o mesmo vento
bateu naquele rosto sem rugas
e sem desesperança.

Contempla por um tempo
os azulejos, que refletem
as lâmpadas elétricas da praça
na noite sem estrelas.

E logo desce a escadaria da praça
de volta ao bar ainda aberto,
de volta ao tempo presente
e aos barulhos do mundo.



SONETO DA PRAÇA GONÇALVES DIAS

Como o poeta de pedra nesta praça,
o exilado que é mira o poente.
Os seus olhos atentos saem à caça
dos telhados e torres à sua frente.

Ali ainda estão. Mas, à direita
do sol que se afunda na baía,
uma cidade feia e estrangeira
se ergue onde antes nada havia.

As torres, os mirantes, os telhados,
intactos ao tempo e ao destino
olham o poeta, longe, indiferentes.

Será que reconhecem o menino
nesse velho  que mira o seu passado
com os olhos fatigados do presente?

sábado, novembro 19, 2011

5 POEMAS DE "NOVOS POEMAS" (1993/95)




O PERFUME DA POSSIBILIDADE

Amanhece, é novembro
e não há nada
que faça deter
a enxurrada da vida.
O sol brilha lá fora
e um pouco aqui dentro.
Acendo um verso
e um cigarro.
Logo mais estaremos na estrada.



SIM À VIDA II

Relâmpago verde,
o olho dela me ilumina.
Por um breve instante,
sou pura luz.
Na praia do Arpoador,
entre o crepúsculo e as pedras,
pairamos sobre o mar.
No ser incorpóreo,
não habitam os males do homem.
Por um breve instante,
vírus algum
trabalha em meu corpo
o seu não




PRIMEIRO DE ABRIL DE 1994

Será que Deus vai chamar
pelo meu nome: "Jamil,
eu só queria brincar,
foi um primeiro de abril!"?



O PORTADOR

O portador porta o vírus
e algumas coisas claras:
uma camisa amarela,
um canivete suíço,
um par d'óculos na cara.
O portador porta o vírus
e outras coisas obscuras:
poemas que ninguém leu,
canções que ninguém ouviu
e uma esperança danada!
Como moeda em seu bolso,
o portador porta a vida
e a morte, seu outro lado.
Cara ou coroa? Que importa?
conhece essa jogada.
Sabe que isso que porta
não lhe serve para nada
se com isso não fizer
aquilo que está na cara:
do medo da morte, a vida,
do vírus, uma virada.



IRMÃ

És apenas um retrato.
No entanto,
aqui estás,
viva
como um caranguejo, um coelho,
um beija-flor.
Antes e depois
desse momento eternizado,
a vida seguia, seguiu
seu curso,
avançando como o câncer
que já te consumia.
A vida seguiu seu curso
no apartamento em Salvador
na tarde ensolarada em l980
até aqui.
E agora, na foto,
sã, intacta,
cara a cara comigo,
tu lanças teu sorriso.







domingo, novembro 06, 2011

DOIS POEMAS EM PROSA



DEUS E AS FORMIGAS
  
    Todos já dormiam quando saí para ver o luar.
   Era uma noite fria, dessas que eu amo. E havia um silêncio mais alto que o assobio do vento, mais alto que o pio dos passarinhos, desses de que não sei o nome. Soltei um jato de urina forte e ruidoso sobre a terra e aspirei no alívio o cheiro da noite. Jasmim e estrume do gado.
   Foi aí que vi as formigas, perigosamente próximas, vítimas potenciais da hecatombe. Mudei a direção do jato cuidadosamente. Depois, agachei-me e fiquei observando a fila indiana dupla, a que ia e a que vinha, só uma delas carregando os luminosos pedacinhos de folha, bandeiras verdes de um exército em marcha.
   Havia ali uma determinação, um propósito. Todas eram iguais perante o meu olhar. Até que me assomou a possibilidade espantosa de cada uma ser um indivíduo. Para que estavam ali sob o luar de maio? Que sonho, que utopia, as animava a ir em frente? E elas iam,  numa disciplina estrita, denodada.
   Por um breve instante a luz da lua brilhou num pedacinho de folha e refletiu, ali, a cara de Deus.
   E  aquela procissão de formigas não era menor que a caminhada dos judeus do Egito para Canaã, não era menos épica que a marcha dos exércitos de Napoleão pelos campos gelados da Rússia, nem menos memorável que o primeiro astronauta caminhando sobre o chão da lua.
   Havia um fim naquilo tudo, mas ele não me foi revelado.Tudo o que sei é que só um ser ali podia deter aquele caminhada. E esse ser era eu. Bastava uma pisada, um jato de mijo, um chute na terra.






 FLORENÇA E FLORENÇA


    Eu nunca fui a Florença.
    Por isso é preciso fazer um poema para  Florença.
   Um poema com as pedras arredondadas pelos sonhos de ver Florença.
    Esses que já me habitam.
  Com essas pedras, pavimentar as ruas da cidade sonhada. Porque a lua que irá banhá-las é a mesma lua que banha este março cruel e chuvoso do Rio de Janeiro. A mesma lua que banha os campos  - também tão lindos - do meu país destroçado.
    Eu nunca fui a Florença.
    Por isso  é preciso sonhar Florença.
    Sonho-a  jóia de pedra, incrustada de idéias. Sonho-a a cidade visível do meu desejo de caminhá-la,  concreta,  no esplendor de sua materialidade.
    O Rio Arno corre na veia da memória. A Ponte Velha desde sempre esteve aqui, a ligar a realidade e o sonho, o velho e o novo, Florença e Florença.
   Aqui estou,  na praça de Miguel Ângelo. Diante de mim, o vale do Arno e a silhueta da cidade. A torre do Palácio Velho à esquerda e, à direita, a igreja de Santa Cruz. Ao centro, a cúpula do Duomo. Bruneleschi apóia a mão direita em meu ombro e a outra aponta para sua obra. Numa esquina insuspeitada, Galileu empunha uma luneta e descobre que a Terra gira em torno do homem. Em frente ao restaurante, Miguel Ângelo grita: "Parla!" E as palavras são esculturas feitas de ar. (Esculturas mais perfeitas que o Moisés: não lhes falta nem falar.) Na praça da Senhoria, Leonardo tenta se identificar ao porteiro do hotel, enumerando seus feitos. Donatello, Boticelli e Fra Angelico passeiam entre os japoneses com suas câmeras fotográficas. Ghiberti, Ghirlandaio e Giotto se alinham  em ordem alfabética na relação dos hóspedes. No balcão, Dante escreve  num cartão postal: "O homem é a mais bela criação de Deus".
   É preciso observar Florença. Com olhar exato, inocente e apaixonado. Saio pelas ruas e invento a perspectiva e os primeiros nus.
  
   Aqui nada foi roubado de outro lugar. Obras de seus próprios filhos, os tesouros de arte e arquitetura se perfilam íntegros ante meus olhos brasileiros. Penso em Aleijadinho e Oscar, na utopia de meu país, no que podia ter sido e não foi. Sei que tudo isso também é meu. Cada museu é minha casa. Quem ama o belo já o possui na escritura definitiva da memória.
   Já tenho a fadiga generosa de percorrer Florença. Agora a lua cai sobre as pedras. A lua de Florença, lua que nunca vi, ilumina todo o mar de Copacabana. ( É uma lua quase cheia, feito a felicidade. É uma lua quase meia, inteira em sua metade.)

   É preciso ver, ouvir, cheirar, provar e tocar Florença.
   Só então poderei trazer de Florença  o que ela tem de melhor: artigos de couro, finos tecidos, a luz da lua sobre o Arno, os mais belos quadros dos Ofícios. E a saudade que terei de Florença, quando for Florença que já estiver, então, a passear por mim.






terça-feira, novembro 01, 2011

MAIS TRÊS POEMAS DA DÉCADA DE 70




A BARRIGA DO POETA

Esta barriga que se me dependura

por certo não é de nascença

e nem pode ser coisa que dura

a vida toda, assim imensa.

Aliás, esta barriga, não a reconheço

como tal.

É mais um apêndice esquisito,

corpo estranho,

que a cada dia mais me tem pesado.

Não a reconhecerei como barriga.

De agora em diante, fica nomeado:

é coisa de outro mundo,

objeto não identificado.



INVENTÁRIO DOS OBJETOS ENCONTRADOS NA BOLSA DO POETA

Uma caneta Bic escrita fina azul.

Uma maço de cigarros marca Albany

contendo l9 cigarros.

Uma caixa de fósforos marca Olho.

Uma carteira de identidade emitida pela SEGUP-PA,

de número que o poeta nunca conseguiu decorar.

Uma carteira de trabalho

com a assinatura de um emprego

do qual o poeta foi demitido no último dia 26

e onde exercia a função de redator de publicidade.

Uma carteira do CPF cujo número

o poeta nunca irá decorar.

Uma folha de papel tamanho ofício contendo uma tabela

de preços de peças publicitárias para free-lancers.

Duas folhas de papel tamanho ofício contendo o poema Tempo Turiense.

Uma pequena agenda azul com endereços e telefones,

onde não constam telefone ou endereço

de quem poderia vir em seu socorro,

neste momento de profunda solidão.

Uma fita cassete onde está gravada uma canção

escrita pelo poeta, contendo uma infinita esperança

de tudo dar certo um dia.


PRAÇA DOS TRÊS PODERES

Brasília,

no dia em que meus olhos

te visitaram pela primeira vez

o projeto concreto

à luz do sol do planalto,

meu coração repartiu-se

entre o projeto

e a cidade viva

em movimento.

Diante de meus olhos,

fez-se a alvorada

de formas exatas.

Meus olhos viram,

empoeirado,

o sonho alto de Oscar,

a arquitetura nova

(funcional pois bela)

de futuras formas de viver.

Mas meu coração viu

a triste arquitetura

de vidas desfuncionais e feias

(ofendidas e humilhadas

nos bancos da Rodoviária)

sem qualquer poder

em frente à Praça.