Mais SOBRAS INCOMPLETAS
[poemas que ficaram de fora do livro O Rei do Vento, minhas Obras (quase) Completas]
DEPOIS DO PESADELO
Acorda. Corre para o banheiro
para lavar seu rosto sujo de espanto,
escovar os dentes enegrecidos pelas trevas,
urinar o veneno do seu medo.
Olha o espelho e ainda não é ele
quem lá está se olhando.
É o Outro,
o que carrega em si como um estorvo,
o mesmo que sonhou o pesadelo,
aquele que mirou seu rosto em outro espelho,
o do pesadelo que ainda não acabou.
Só quando vai à varanda
e avista o mundo na manhã
chuvosa e bela,
enfim se reconhece,
refletido nela.
NUNCA OCULTEI MINHA ALEGRIA
Nunca ocultei minha alegria.
Não vejo porque, agora,
ocultar minha tristeza.
Aqui estou, como se Tanatos
houvesse vencido Eros
para sempre.
Sei que amanhã,
quando o sol nascer rubro
pros rumos de Botafogo (que vejo ardente ao crepúsculo
desta janela carioca
que “dá excessivamente” para o Cristo),
talvez a voz de um passarinho
ou uma canção de Jobim
possam trazer de volta a alegria perdida
Mas agora sou um homem para sempre triste,
olhando sem consolo
o crepúsculo ardente de Botafogo.
SONETO DA COLA-GUARANÁ JESUS
Sonhei com a cola-guaraná Jesus,
“o sonho cor de rosa de todas as crianças”,
como dizia a propaganda de quando eu era uma
e o meu coração estava cheio de esperanças.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus.
Se não me engano estava em São Luís.
Sentia o seu sabor, sua cor, sua luz
e já não cabia em mim ser tão feliz.
Por isso acho que acordei como quem acorda
no crucial momento de um perigo,
o momento em que vai soltar-se a corda
ou que vai nos alcançar o inimigo.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus
o sonho novo de um menino antigo.
SONETO ANTIGO
A chuva que cai lava o meu olho
de toda alegria vã, todo desejo.
De toda a água que cai eu só recolho
a gota essencial que só eu vejo:
uma lágrima ardente, a que desataria
o choro convulsivo e já guardado
desde um outro nebuloso triste dia
que trago dentro em mim aprisionado.
A chuva que cai lava o meu olho
e lava o chão lá fora, que não olho.
Ambos, olho e chão, serão regados.
Tenho a certeza: um dia ainda recolho
os frutos que plantei. Por isso, molho
com meu pranto, os campos devastados.
CASINHA BOA
“A borboleta é uma flor que voa”
José Paulo Paes
por sobre o teto da nossa casinha
a borboleta é uma flor que voa
é lá que o nosso amor se aninha
e o nosso amor por uma outra pessoa
no fundo da nossa casinha
uma montanha que nos abençoa
o rio é um caminho que caminha
em direção a alguma coisa boa
cá dentro da nossa casinha
carinho, fé, amor, café com broa
a sala o quarto o banheiro a cozinha
em cada canto o nosso canto escoa
bem longe da nossa casinha
a voz do nosso filho ecoa
leva pra longe toda dor mesquinha
não deixa a vida ser vivida à toa
NOITE CHUVOSA DE VERÃO
Que raios de raios, ó Céus,
são esses na noite quente?
Sem o que fazer, será Deus
tirando foto da gente?
O que ele quer com os retratos
desses pobres filhos seus?
Será que sente saudade
dos que se tornaram ateus?
Será que a chuva que cai
são as lágrimas de Deus
rolando na noite triste?
Pra onde será que vai
sozinho, esta noite, Deus,
com tudo aquilo que existe?
LIVRO, FILHO, ÁRVORE
Escrevi três livros,
tive dois filhos,
devo ter plantado alguma árvore.
Mas por que seria eu um homem realizado
se apenas, sem querer,
deixei cair uma semente
na terra,
no ventre de uma mulher,
na página em branco do papel?
FILHOS
Me desculpe o Vinícius,
mas filhos, melhor é tê-los.
E não só para sabê-lo.
Filhos, melhor é tê-los
para serem reinícios
(os possíveis de nós mesmos)
e para serem o que são.
De preferência bonitos,
inteligentes, corretos.
E, se possível, pra serem
também pais dos nossos netos.
[poemas que ficaram de fora do livro O Rei do Vento, minhas Obras (quase) Completas]
DEPOIS DO PESADELO
Acorda. Corre para o banheiro
para lavar seu rosto sujo de espanto,
escovar os dentes enegrecidos pelas trevas,
urinar o veneno do seu medo.
Olha o espelho e ainda não é ele
quem lá está se olhando.
É o Outro,
o que carrega em si como um estorvo,
o mesmo que sonhou o pesadelo,
aquele que mirou seu rosto em outro espelho,
o do pesadelo que ainda não acabou.
Só quando vai à varanda
e avista o mundo na manhã
chuvosa e bela,
enfim se reconhece,
refletido nela.
NUNCA OCULTEI MINHA ALEGRIA
Nunca ocultei minha alegria.
Não vejo porque, agora,
ocultar minha tristeza.
Aqui estou, como se Tanatos
houvesse vencido Eros
para sempre.
Sei que amanhã,
quando o sol nascer rubro
pros rumos de Botafogo (que vejo ardente ao crepúsculo
desta janela carioca
que “dá excessivamente” para o Cristo),
talvez a voz de um passarinho
ou uma canção de Jobim
possam trazer de volta a alegria perdida
Mas agora sou um homem para sempre triste,
olhando sem consolo
o crepúsculo ardente de Botafogo.
SONETO DA COLA-GUARANÁ JESUS
Sonhei com a cola-guaraná Jesus,
“o sonho cor de rosa de todas as crianças”,
como dizia a propaganda de quando eu era uma
e o meu coração estava cheio de esperanças.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus.
Se não me engano estava em São Luís.
Sentia o seu sabor, sua cor, sua luz
e já não cabia em mim ser tão feliz.
Por isso acho que acordei como quem acorda
no crucial momento de um perigo,
o momento em que vai soltar-se a corda
ou que vai nos alcançar o inimigo.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus
o sonho novo de um menino antigo.
SONETO ANTIGO
A chuva que cai lava o meu olho
de toda alegria vã, todo desejo.
De toda a água que cai eu só recolho
a gota essencial que só eu vejo:
uma lágrima ardente, a que desataria
o choro convulsivo e já guardado
desde um outro nebuloso triste dia
que trago dentro em mim aprisionado.
A chuva que cai lava o meu olho
e lava o chão lá fora, que não olho.
Ambos, olho e chão, serão regados.
Tenho a certeza: um dia ainda recolho
os frutos que plantei. Por isso, molho
com meu pranto, os campos devastados.
CASINHA BOA
“A borboleta é uma flor que voa”
José Paulo Paes
por sobre o teto da nossa casinha
a borboleta é uma flor que voa
é lá que o nosso amor se aninha
e o nosso amor por uma outra pessoa
no fundo da nossa casinha
uma montanha que nos abençoa
o rio é um caminho que caminha
em direção a alguma coisa boa
cá dentro da nossa casinha
carinho, fé, amor, café com broa
a sala o quarto o banheiro a cozinha
em cada canto o nosso canto escoa
bem longe da nossa casinha
a voz do nosso filho ecoa
leva pra longe toda dor mesquinha
não deixa a vida ser vivida à toa
NOITE CHUVOSA DE VERÃO
Que raios de raios, ó Céus,
são esses na noite quente?
Sem o que fazer, será Deus
tirando foto da gente?
O que ele quer com os retratos
desses pobres filhos seus?
Será que sente saudade
dos que se tornaram ateus?
Será que a chuva que cai
são as lágrimas de Deus
rolando na noite triste?
Pra onde será que vai
sozinho, esta noite, Deus,
com tudo aquilo que existe?
LIVRO, FILHO, ÁRVORE
Escrevi três livros,
tive dois filhos,
devo ter plantado alguma árvore.
Mas por que seria eu um homem realizado
se apenas, sem querer,
deixei cair uma semente
na terra,
no ventre de uma mulher,
na página em branco do papel?
FILHOS
Me desculpe o Vinícius,
mas filhos, melhor é tê-los.
E não só para sabê-lo.
Filhos, melhor é tê-los
para serem reinícios
(os possíveis de nós mesmos)
e para serem o que são.
De preferência bonitos,
inteligentes, corretos.
E, se possível, pra serem
também pais dos nossos netos.