sexta-feira, março 21, 2014

Mais SOBRAS INCOMPLETAS
[poemas que ficaram de fora do livro O Rei do Vento, minhas Obras (quase) Completas]


DEPOIS DO PESADELO

Acorda. Corre para o banheiro
para lavar seu rosto sujo de espanto,
escovar os dentes enegrecidos pelas trevas,
urinar o veneno do seu medo.

Olha o espelho e ainda não é ele
quem lá está se olhando.
É o Outro,
o que carrega em si como um estorvo,
o mesmo que sonhou o pesadelo,
aquele que mirou seu rosto em outro espelho,
o do pesadelo que ainda não acabou.

Só quando vai à varanda
e avista o mundo na manhã
chuvosa e bela,
enfim se reconhece,
refletido nela.



NUNCA OCULTEI MINHA ALEGRIA

Nunca ocultei minha alegria.
Não vejo porque, agora,
ocultar minha tristeza.

Aqui estou, como se Tanatos
houvesse vencido Eros
para sempre.

Sei que amanhã,
quando o sol nascer rubro
pros rumos de Botafogo (que vejo ardente ao  crepúsculo
desta janela carioca
que “dá excessivamente” para o Cristo),
talvez a voz de um  passarinho
ou uma canção de Jobim
possam trazer de volta a alegria perdida

Mas agora sou um homem para sempre triste,
olhando sem consolo
o crepúsculo ardente de Botafogo.




SONETO DA COLA-GUARANÁ JESUS

Sonhei com a cola-guaraná Jesus,
“o sonho cor de rosa de todas as crianças”,
como dizia a propaganda de quando eu era uma
e o meu coração estava cheio de esperanças.

Sonhei com a cola-guaraná Jesus.
Se não me engano estava em São Luís.
Sentia o seu sabor, sua cor, sua luz
e já não cabia em mim ser tão feliz.

Por isso acho que acordei como quem acorda
no crucial momento de um perigo,
o momento em que vai soltar-se a corda

ou que vai nos alcançar o inimigo.
Sonhei com a cola-guaraná Jesus
o sonho novo de um menino antigo.



SONETO ANTIGO

A chuva que cai lava o meu olho
de toda alegria vã, todo desejo.
De toda a água que cai eu só recolho
a gota essencial que só eu vejo:

uma lágrima ardente, a que desataria
o choro convulsivo e já guardado
desde um outro nebuloso triste dia
que trago dentro em mim aprisionado.


A chuva que cai lava o meu olho
e lava o chão lá fora, que não olho.
Ambos, olho e chão, serão regados.

Tenho a certeza: um dia ainda recolho
os frutos que plantei. Por isso, molho
com meu pranto, os campos devastados.


CASINHA BOA
                   
                              “A borboleta é uma flor que voa”
                                     José Paulo Paes



por sobre o teto da nossa casinha
a borboleta é uma flor que voa
é lá que o nosso amor se aninha
e o nosso amor por uma outra pessoa

no fundo da nossa casinha
uma montanha que nos abençoa
o rio  é um caminho que caminha
em direção a alguma coisa boa

cá dentro da nossa casinha
carinho, fé, amor, café com broa
a sala o quarto o banheiro a cozinha
em cada canto o nosso canto escoa

bem longe da nossa casinha
a voz do nosso filho ecoa
leva pra longe toda dor mesquinha
não deixa a vida ser vivida à toa



NOITE CHUVOSA DE VERÃO

Que raios de raios, ó Céus,
são esses na noite quente?
Sem o que fazer, será Deus
tirando foto da gente?

O que ele quer com os retratos
desses pobres filhos seus?
Será que sente saudade
dos que se tornaram ateus?

Será que a chuva que cai
são as lágrimas de Deus
rolando na noite triste?

Pra onde será que vai
sozinho, esta noite, Deus,
com tudo aquilo que existe?



LIVRO, FILHO, ÁRVORE

Escrevi três livros,
tive dois filhos,
devo ter plantado alguma árvore.
Mas por que seria eu um homem realizado
se apenas, sem querer,
deixei cair uma semente
na terra,
no ventre de uma mulher,
na página em branco do papel?



FILHOS

Me desculpe o Vinícius,
mas filhos, melhor é tê-los.
E não só para sabê-lo.
Filhos, melhor é tê-los
para serem reinícios
(os possíveis de nós mesmos)
e  para serem o que são.
De preferência bonitos,
inteligentes, corretos.
E, se possível, pra serem
também pais dos nossos netos.

sábado, março 15, 2014

O OUTRO

Aqui estou,
estamos,
eu e o outro,
o que carrego comigo
como um fardo pesado, um estorvo,
mala sem alça,
esse cara sem alma,
feito só de carne e osso,
humores, sangue, meleca de nariz.
Carrego ele comigo pelos dias e noites
e o desgraçado tem insônias,
dores despropositadas,
tosses fora de hora.
Não pára de fumar
e toda hora tem desejos estranhos
o infeliz.
Tão diferente de mim,
um sujeito equilibrado,
que trabalha duro
para sustentar os vícios dele.
Qualquer dia desses
o abandono
sem dó nem pena
e vou viver a vida sozinho
antes que a morte nos separe
ou nos una para sempre.



ORAÇÃO

Senhor, dai-me um Mercedes Benz
ou pelo menos um Honda, um Mitsubishi,
porque são belos e exatos
e eu só sei te encontrar
na beleza e na exatidão.
Dai-me, Senhor, algum dinheiro,
de preferência dólares,
para que meu amor por ti
não se desvalorize com a inflação.
Dai escola boa para meus filhos,
porque a ignorância é o maior pecado,
e casa confortável para morar
– são por acaso os templos espeluncas?
Senhor, dai-me alimento com fartura e qualidade
para que, ao jejuar em tua homenagem,
tenha mais valor o meu jejum.
Que eu possa sempre andar de avião
e viajar pelo mundo
para estar mais perto do céu
e conhecer muitas das tuas moradas.
E, se possível, Senhor, dai-me
uma casa de praia, com uma lancha bonita
atracada no pier
e uma fazendinha nas montanhas
onde eu possa sentir teu cheiro
no estrume do gado
perfumando o ar fresco das manhãs.
E, depois de tudo isso, Senhor,
se não for pedir demais,
fazei-me passar
montado sobre um camelo
pelo buraco da agulha.



DE CERTAS COISAS NUNCA SABEREMOS

De certas coisas nunca saberemos:
onde é que nascem os rios,
por que flutuam os navios
e onde foram parar os brinquedos
de quando éramos crianças.

Por certo nunca saberemos
como era mesmo o sonho que tivemos
na noite anterior
(e que o rumor do dia nos fez esquecer
para sempre).

Jamais será sabido
o que ia ser dito na frase incompleta
daquele papo banal
subitamente interrompido
pela chegada de um amigo.

(Certas coisas brilham seu mistério
à luz desta manhã:
meu canivete vermelho,
a minha cara no espelho
e essa esperança vã.)

Nunca saberemos para que servem
a música, a poesia, o trabalho,
o amor por uma mulher.
E no entanto somos feitos
dessas coisas de que nunca saberemos.
Por isso, não sabemos quem somos.
Porque não podemos mesmo saber tudo
no mundo misterioso e múltiplo
de que somos parte,
continente e conteúdo.