domingo, novembro 27, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (2)



BURACO

 - Respeitável público: Cumpade Chico fugiu e nós fiquemo sem assunto. Queredo!

A platéia demorou um pouco para entender o que Buraco  - palhaço, apresentador, trapezista, mágico e agora infeliz proprietário do Gran Circo Simões – queria dizer na primeira e única frase proferida  no picadeiro na noite do que seria a grande estréia.

Diante da platéia ansiosa, que esperara toda a semana por aquele  momento, Buraco queria dizer aquilo mesmo: que Cumpade Chico, o macaco, fugira.
E que, por isso, não haveria espetáculo.

O macaco era a estrela maior do Gran Circo, cujo elenco se completava com Buraco e sua esposa, Semíramis. Esta acumulava as funções de bailarina, auxiliar dos números de mágica, eficiente secretária de Buraco e dedicada babá de Cumpade Chico.

Nunca mais se teve notícias do macaco. Semíramis fugiu com um pescador de Sababa. Buraco, para sobreviver - frustrado, corneado e duro – aceitou um trabalho indigno para um artista e foi construir um muro no quintal do Coronel Raimundo Estrela. Nunca na vida havia trabalhado como pedreiro. Certa tarde, o coronel foi dar uma olhada no serviço. Não se imaginaria por ele que Buraco nunca tivesse posto a mão na massa. O muro saía aprumado e firme. O coronel, nada tendo a dizer a respeito da obra, para puxar assunto, pergunta a Buraco se ele está gostando no novo trabalho. “Qual nada, Coronel, meu negócio mesmo são as artes!” 

A partir do dia em que proferiu a célebre frase, Buraco começa a ficar desmotivado com aquele muro escuro e calado. Tem saudades das luzes da ribalta, dos aplausos da platéia. Mas precisa sobreviver. E é ai que começa a aplicar pequenos golpes em todo mundo, pedindo dinheiro emprestado.

Mas como nem só de pão vive o homem, ainda mais um verdadeiro artista, Buraco decide voltar à cena. Como picadeiro não há mais, decide que toda Turiaçu será o palco do maior número de sua vida. Vai atravessar a Praça sobre um cabo de aço, estendido entre a torre da Igreja e o alto do sobrado. Na manhãzinha do sábado, Turiaçu ficou intrigada ao ver aquele fio. Mas tudo foi logo esclarecido por um cartaz afixado no obelisco, onde Buraco prometia o feito monumental. Embaixo do cartaz, uma caixa de sapato onde já repousavam algumas poucas moedas.

A pequena multidão murmura medos e censuras. Como Padre Bento pudera ser tão irresponsável e permitir o uso da igreja para aqueles fins?, esbravejou  Dona Nicota. Expedita, a cozinheira do Coronel,  que já se engraçava por  Buraco desde quando ele construiu o muro, temia pela vida do artista. Fidélis queria apostar com qualquer um que, na hora H, Buraco ia “mijar pra trás” Chegada a hora – às cinco em ponto da tarde – Buraco surge na torre da igreja,  com a única roupa circense que lhe restara.

- Respeitável público. Como vocês já sabem, irei atravessar caminhando sobre este fio de aço, sem nenhuma proteção, da Igreja até os Correios, esta  praça de São Francisco Xavier. Que ele me proteja e guarde. Sim, senhores e senhoras, preciso da ajuda de São Francisco,  pois pelos meus próprios meios não serei capaz de tal coisa. Nunca, em toda a minha vida, fiz este número. Mas não sou homem de voltar atrás no prometido. Além disso, vivo uma situação desesperadora. Neste momento, lá em Bragança, seis crianças estão morrendo de fome. São meus filhos e é por isso que eu vou arriscar minha vida. Por favor, contribuam com quanto puderem, pois já amanhã de manhã, embarco no São Judas Tadeu rumo ao Pará, para salvar meus filhos.

Expedita foi a primeira a gritar, dizendo que não, que Buraco não precisava arriscar a vida daquela maneira, que descesse dali. Que, mesmo ele não atravessando a praça, todos iriam ajudá-lo. As adesões a Expedita logo foram surgindo e aumentando e logo a praça inteira em coro gritava para que Buraco desistisse do gesto temerário.

Se alguém tivesse apostado com Fidélis, teria perdido dinheiro.

São meio obscuras as razões que levaram à expulsão de Buraco da cidade. Mas a versão mais corrente, ainda hoje, é que alguém teria espalhado o boato de que logo após Buraco descer da torre, teria ouvido o artista pedir à cozinheira para  anunciar, do alto da torre, que no domingo seguinte ia ter vesperal. O fato é que, no dia seguinte, ele embarcou no São Judas sob pedras e vaias e por pouco não foi linchado.


Manezinho Setenta  fazia parte daquele distinto público, do dia em que Cumpade Chico fugiu
e o circo ficou sem assunto. Era também um dos mais lesados por Buraco, que sempre recorria primeiro a ele para pedir algum emprestado. Afinal, diziam que Manezinho já  estava mais rico que o Coronel de tanto fazer contrabando nas Guianas.

Anos depois, Manezinho Setenta viaja a Paramaribo. Vai  levar café e trazer uísque. Ao chegar lá, um contratempo o impede de voltar logo para Turiaçu. Sem o que fazer, resolve uma noite ir se divertir num espetáculo de mágicas, muito falado na cidade. Señor Búraco era o nome do mágico.

Acompanhado de Marco Aurélio e Mário Filho, seus dois capangas, Manezinho vai ao show. O mágico entra em cena.

Todo proparoxítono e com carregado sotaque espanhol, Señor Búraco faz sua apresentação.

Manezinho atônito, engasgado de tanta indignação, não se contém. E ouve-se da platéia um brado, alto e retumbante, na mais pura língua portuguesa:

- Devolve o meu dinheiro, Buraco filho duma égua!

Num passe de mágica, Buraco sai de cena. Os dois capangas sobem o palco e entram pelos bastidores, numa movimentação que muita gente deve ter pensado que fazia parte do espetáculo.

As últimas notícias dão conta de que Buraco ainda trabalha no circuito Caiena/Georgetown/ Paramaribo, exercendo suas artes nas cálidas  noites das Guianas, agora com o nome artístico de Mr. Hole.




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