BURACO
- Respeitável
público: Cumpade Chico fugiu e nós fiquemo sem
assunto. Queredo!
A platéia
demorou um pouco
para entender o que Buraco - palhaço,
apresentador, trapezista,
mágico e agora
infeliz proprietário
do Gran Circo Simões – queria dizer na primeira e única frase
proferida no picadeiro
na noite do que
seria a grande estréia.
Diante da platéia ansiosa, que
esperara toda a semana
por aquele momento,
Buraco queria dizer
aquilo mesmo:
que Cumpade Chico, o macaco, fugira.
E que,
por isso,
não haveria espetáculo.
O macaco
era a estrela
maior do Gran Circo,
cujo elenco
se completava com Buraco
e sua esposa,
Semíramis. Esta acumulava as funções de bailarina, auxiliar dos números de mágica,
eficiente secretária
de Buraco e dedicada babá de Cumpade Chico.
Nunca mais se teve notícias do macaco.
Semíramis fugiu com um
pescador de Sababa. Buraco,
para sobreviver -
frustrado, corneado e duro – aceitou um trabalho indigno para um artista e foi
construir um
muro no quintal
do Coronel Raimundo Estrela.
Nunca na vida
havia trabalhado como pedreiro. Certa
tarde, o coronel
foi dar uma olhada no serviço.
Não se imaginaria por
ele que
Buraco nunca
tivesse posto a mão
na massa. O muro
saía aprumado e firme.
O coronel, nada
tendo a dizer a respeito
da obra, para
puxar assunto,
pergunta a Buraco
se ele está gostando no novo
trabalho. “Qual
nada, Coronel,
meu negócio
mesmo são
as artes!”
A partir
do dia em
que proferiu a célebre
frase, Buraco
começa a ficar
desmotivado com aquele
muro escuro
e calado. Tem saudades
das luzes da ribalta,
dos aplausos da platéia.
Mas precisa
sobreviver. E é ai que
começa a aplicar
pequenos golpes
em todo
mundo, pedindo dinheiro
emprestado.
Mas como nem só de pão vive o homem, ainda mais um verdadeiro
artista, Buraco
decide voltar à cena.
Como picadeiro
não há mais,
decide que toda
Turiaçu será o palco do maior número de
sua vida.
Vai atravessar a Praça
sobre um
cabo de aço,
estendido entre a torre
da Igreja e o alto
do sobrado. Na manhãzinha do sábado, Turiaçu ficou intrigada ao ver
aquele fio.
Mas tudo
foi logo esclarecido
por um
cartaz afixado no obelisco,
onde Buraco
prometia o feito monumental.
Embaixo do cartaz,
uma caixa de sapato
onde já
repousavam algumas poucas moedas.
A pequena
multidão murmura medos
e censuras. Como
Padre Bento
pudera ser tão irresponsável
e permitir o uso
da igreja para
aqueles fins?,
esbravejou Dona
Nicota. Expedita, a cozinheira
do Coronel, que já se engraçava por Buraco
desde quando
ele construiu o muro,
temia pela vida
do artista. Fidélis queria apostar com qualquer um que, na hora H,
Buraco ia “mijar
pra trás”
Chegada a hora
– às cinco em
ponto da tarde
– Buraco surge na torre
da igreja, com a única roupa circense que lhe restara.
- Respeitável
público. Como
vocês já
sabem, irei atravessar caminhando sobre este fio de aço, sem nenhuma proteção,
da Igreja até
os Correios, esta praça
de São Francisco Xavier. Que ele me proteja e guarde. Sim,
senhores e senhoras,
preciso da ajuda
de São Francisco, pois pelos meus próprios meios não serei capaz
de tal coisa.
Nunca, em
toda a minha
vida, fiz este
número. Mas
não sou homem
de voltar atrás
no prometido. Além disso, vivo uma situação
desesperadora. Neste momento, lá em Bragança,
seis crianças
estão morrendo de fome. São meus filhos e é por isso que eu vou arriscar minha vida. Por favor, contribuam com quanto
puderem, pois já
amanhã de manhã,
embarco no São Judas
Tadeu rumo ao Pará,
para salvar meus filhos.
Expedita foi a primeira a gritar, dizendo que não, que Buraco não
precisava arriscar a vida
daquela maneira, que
descesse dali. Que, mesmo
ele não
atravessando a praça, todos iriam ajudá-lo. As adesões
a Expedita logo
foram surgindo e aumentando e logo a praça inteira em coro gritava
para que Buraco desistisse do gesto
temerário.
Se alguém
tivesse apostado com Fidélis, teria
perdido dinheiro.
São meio obscuras as razões que
levaram à expulsão de Buraco da cidade.
Mas a versão
mais corrente,
ainda hoje,
é que alguém
teria espalhado o boato de que
logo após Buraco descer da torre, teria ouvido
o artista pedir
à cozinheira para anunciar, do alto da torre, que no domingo seguinte ia ter vesperal. O fato
é que, no dia
seguinte, ele
embarcou no São Judas
sob pedras
e vaias e por
pouco não
foi linchado.
Manezinho Setenta fazia parte
daquele distinto público,
do dia em
que Cumpade Chico
fugiu
e o circo
ficou sem assunto.
Era também
um dos mais
lesados por Buraco,
que sempre
recorria primeiro a ele
para pedir algum emprestado. Afinal,
diziam que Manezinho já estava mais rico que o Coronel
de tanto fazer
contrabando nas Guianas.
Anos depois, Manezinho
Setenta viaja a Paramaribo. Vai levar café e trazer uísque. Ao chegar lá, um contratempo
o impede de voltar logo
para Turiaçu. Sem
o que fazer,
resolve uma noite ir
se divertir num espetáculo
de mágicas, muito
falado na cidade.
Señor Búraco era o nome
do mágico.
Acompanhado de Marco Aurélio e
Mário Filho, seus
dois capangas,
Manezinho vai ao show. O mágico entra em
cena.
Todo proparoxítono e com carregado
sotaque espanhol,
Señor Búraco faz sua apresentação.
Manezinho atônito,
engasgado de tanta indignação,
não se contém. E ouve-se da platéia um brado, alto e retumbante, na mais
pura língua
portuguesa:
- Devolve o meu
dinheiro, Buraco
filho duma égua!
Num passe
de mágica, Buraco
sai de cena. Os dois
capangas sobem o palco
e entram pelos bastidores,
numa movimentação que
muita gente
deve ter pensado que
fazia parte do espetáculo.
As últimas notícias
dão conta de que
Buraco ainda
trabalha no circuito
Caiena/Georgetown/ Paramaribo, exercendo suas
artes nas cálidas noites
das Guianas, agora com
o nome artístico
de Mr. Hole.
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