segunda-feira, julho 14, 2014

BELÉM BELÉM

                                                        [Foto de Luiz Braga]
BELÉM BELÉM

belém belém
arquitetura de sonhos
nas frágeis pedras do sono

belém belém
sinos sempre repicando
nas torres desta saudade

nos galhos inatingíveis
por sobre nossas cabeças
madura manga suspensa
chuva sempre desabando
no meio da tarde infinda

(ó cheiro negro da phebo
nas madrugadas da vida!)

belém belém
um carimbó batucando
por onde quer que eu siga
cidade submergida
nas enchentes da lembrança
dos rios embaixo do rio

belém belém, as tuas ruas
nunca tiveram saída

(ó verde manga caída
no asfalto duro da vida!

                                                       [Foto de Ana Paula Prado]


DOMINGOS MARREIROS, 463

Por oito anos me abrigaste
e entre tuas paredes
(que ainda guardam os sons, as sombras, os gestos
de uma tarde perdida no tempo)
construí, pedra por pedra,
parede por parede,
esta saudade.

Sob teu teto, meu corpo,
com suas pernas e braços,
percorreu quilômetros entre a cozinha e a sala
caminhando para o dia de hoje,
já longe da derradeira noite
passada no “Cubículo”.
Ali, no exíguo espaço onde o mundo inteiro cabia
na enciclopédia pousada sobre a estante,
viajei pelos cinco continentes
e pelos ventres molhados das mulheres que amei.
Onde estão a cama, a estante, a escrivaninha?
Como salvar do tempo, não os livros e os discos,
mas a inquietação das leituras
e a guitarra de Hendrix alvoroçando a alma,
incomodando todos os vizinhos?

Em círculos concêntricos, minha memória hoje te visita
e é lá (aqui), neste espaço de tão poucos metros,
que esta viagem se torna irredutível.
Em volta, os outros cômodos:
os quartos da mãe e dos irmãos, os seus limites,
o banheiro onde o cheiro da família recendia nas toalhas,
a conversa dos talheres na sala de jantar,
o arroz queimando na cozinha as nossas vidas
e o quintal, o quintal onde as roupas estendidas
secavam ao sol, vestindo o vento.

Domingos Marreiros, 463,
foste mais que abrigo e residência,
foste porto seguro
onde tantas vezes atraquei meus sonhos
e minha embriaguez, nas noites quentes de Belém
e suas ruas que sempre me levavam a ti
(como se leva no ombro um amigo ébrio)

Domingos Marreiros, 463,
há muito eu me mudei de ti,
mas é ainda aí meu endereço.

                                                      [Foto de Elza Lima]



POEMA POR CAUSA DE UM BEIJO ANDARILHO

Eu fui apenas uma figura a mais no seu caminho
percorrido sozinha e com o mundo
passando pelos seus dias
na mochila entre as Américas.
Eu, cicerone, lhe mostrei apenas que tudo é o mesmo
e que Belém tem para mim o mesmo mistério
de todas as cidades que não conheço.
Por isso, não lhe mostrei o Ver-O-Peso
nem a Praça da República e seus loucos
fugidos dos hospícios.
Fui com ela ao cinema e vi o seu sorriso austríaco
ao ouvir a música de Strauss no filme de Kubrick.
Eu estava me apaixonando por Margot Sluka,

o corpo bonito, a calça Lee desbotada,
um ano e um mês de Américas.
Em sua viagem pelo mundo,
Margot Sluka comia e bebia
pouco como um camelo e olhava muito as pessoas
como um gato. Entre seus mistérios e paradoxos
guardados na mochila e nela mesma,
a virgindade. I am as I am. Margot Sluka
não me deu um beijo sequer no dia anterior à
despedida, quando havia entre nós um caminho de
ausência a ausência. Nem lhe disse palavras
de amor, because my English is really very bad
e falo com sotaque turiense.
Porém, na quarta-feira passada,
em meio aos meus compromissos com o mundo,
eu recebi um beijo que ficou parado no ar
como num passe de mágica,
trazendo todas as cidades por onde andou,
um beijo em todas as mil línguas do mundo,
um beijo de despedida e chama deste
desesperadominical poema que ela não vai ler

no seu atemporal domingo das Guianas. 


                                                      [Foto de Walda Marques]


sexta-feira, julho 11, 2014

RELAÇÃO PARCIAL DO QUE FOI LEVADO PELO RIO

O rio levou a casa e suas lembranças
Todos os cadernos, todos os projetos

O rio levou os livros e a estante
A televisão, o forno e o aquecedor elétrico
O rio levou os pequenos objetos inúteis
A camisa no varal
Os papéis na gaveta
A escritura definitiva

O rio levou os desenhos que meu filho fez quando criança
As palavras  rabiscadas na lousa que penduramos na sala
As portas e janelas que um dia pintamos de azul

O rio levou a geladeira
A pimenta que ardia solitária dentro da geladeira
O rio levou as paredes da casa
E os planos de um dia reformar a casa

O rio levou a cama e o sono
O vento que batia no bambuzal
O barulho da chuva no telhado, o cheiro da terra molhada
O estrume do gado
E o aroma escandaloso do jasmim

O rio levou o frio
As primeiras luzes da aurora
O verde ensolarado da encosta do morro
O pau a pedra o fim do caminho

O rio levou a casa
A viagem de carro que nos levava até a casa
O rio levou o Carnaval, a Semana Santa, o Corpus Christi
A contemplação das estrelas, o medo da morte
E a esperança de tudo dar certo um dia

O rio levou as madrugadas insones, as viagens imaginárias
O pequeno bumba-meu-boi pendurado no telhado
O rio levou todo o telhado
O rio levou a Via Láctea
(O caminho entre a casa e o rio, sob as estrelas)

O rio levou a lua cheia

O rio levou o Pacífico e o Atlântico
E  os cinco continentes
No mapa-múndi na parede do quarto

O rio levou os nomes de todas as cidades no mapa
As cento e cinquenta mil palavras no dicionário
O ubi sunt, o carpe diem, o locus amoenus

O rio levou os caminhões que passeavam na estradinha carregados de realidade
Os aipins que floresciam vertiginosamente no interior da terra

O rio levou a montanha
O rio levou o céu
O rio levou a casa

O rio levou o rio, o rio, o rio