sexta-feira, setembro 30, 2005
BRANCO SOBRE BRANCO
O silêncio se instala dentro da noite
e todas as coisas são brancas.
Branca é a própria noite,
o papel em que escreve o poeta,
brancos os desejos.
O poeta exilou-se no branco
país sem idioma, entre
seus habitantes mudos.
À margem de um rio que não corre,
sem verbo é sua tristeza.
O poeta fuma o cigarro branco
e expele da boca - pálida e calada -
brancas nuvens, que não passam.
O branco toma conta de tudo:
apagam-se as paredes, outrora verdes
e o rádio silencia na sala, agora campo
sem horizonte.
O café sabe a água, água
daquele rio imóvel.
O jasmim já não é sequer memória.
Os dedos não mais sentem as teclas
que deixam de imprimir palavras
porque só há o branco,o branco sobre o branco.
O silêncio se instala dentro da noite
e todas as coisas são brancas.
Branca é a própria noite,
o papel em que escreve o poeta,
brancos os desejos.
O poeta exilou-se no branco
país sem idioma, entre
seus habitantes mudos.
À margem de um rio que não corre,
sem verbo é sua tristeza.
O poeta fuma o cigarro branco
e expele da boca - pálida e calada -
brancas nuvens, que não passam.
O branco toma conta de tudo:
apagam-se as paredes, outrora verdes
e o rádio silencia na sala, agora campo
sem horizonte.
O café sabe a água, água
daquele rio imóvel.
O jasmim já não é sequer memória.
Os dedos não mais sentem as teclas
que deixam de imprimir palavras
porque só há o branco,o branco sobre o branco.
sábado, setembro 24, 2005
sexta-feira, setembro 23, 2005
PAI
Esse que teve o meu nome,
em que parte de mim habita?
Num gesto meu que o retome?
Na minha voz que o repita?
Esse que eu nem amei,
sob que forma ele vive?
No pouco que dele sei,
no que eu dele retive?
Esse que a mim se assemelha,
como o verei um dia?
Sob a luz de uma centelha
ou clara fotografia?
Esse que em mim deflagra
essa genética flor,
será que um dia me flagra
em sua mesmíssima dor?
Esse que eu não conheço
viverá dentro de mim?
Mesmo que eu responda não,
imporá ele o seu sim?
Esse que teve o meu nome,
em que parte de mim habita?
Num gesto meu que o retome?
Na minha voz que o repita?
Esse que eu nem amei,
sob que forma ele vive?
No pouco que dele sei,
no que eu dele retive?
Esse que a mim se assemelha,
como o verei um dia?
Sob a luz de uma centelha
ou clara fotografia?
Esse que em mim deflagra
essa genética flor,
será que um dia me flagra
em sua mesmíssima dor?
Esse que eu não conheço
viverá dentro de mim?
Mesmo que eu responda não,
imporá ele o seu sim?
A CAMISA NO VARAL
No varal,
uma camisa veste o vento
e seca ao sol
estendida no tempo.
Atravessou manhãs
imune ao dano
de que o dono
não ficou impune.
Se pui de outra maneira
e de outra forma desbota.
Em sua carne de pano
os dias traçam outra rota.
Agitam-se como bandeiras
os seus significados,
todos ocultos na cor
e no xadrez intrincado.
No bolso, o que se guarda?
Um bilhete suicida,
um inédito poema
ou o segredo da vida?
Na etiqueta, que palavra
seca ao sol o seu sentido?
Será uma simples marca
ou um signo perdido?
Como salvar do tempo
essa camisa só símbolo?
No varal da memória,
ela balança seu enigma.
No varal,
uma camisa veste o vento
e seca ao sol
estendida no tempo.
Atravessou manhãs
imune ao dano
de que o dono
não ficou impune.
Se pui de outra maneira
e de outra forma desbota.
Em sua carne de pano
os dias traçam outra rota.
Agitam-se como bandeiras
os seus significados,
todos ocultos na cor
e no xadrez intrincado.
No bolso, o que se guarda?
Um bilhete suicida,
um inédito poema
ou o segredo da vida?
Na etiqueta, que palavra
seca ao sol o seu sentido?
Será uma simples marca
ou um signo perdido?
Como salvar do tempo
essa camisa só símbolo?
No varal da memória,
ela balança seu enigma.
ANOTAÇÕES
Aqui, a vida se guarda
Em museu de formas cruas
E os desejos são rabiscos
Em busca de uma escritura.
Aqui se registram, impuros,
O pretérito imperfeito,
O presente inconsistente
E o improvável futuro.
Memória, fato e projeto.
A parte adivinha o todo,
O continente, o conteúdo.
Permanente metonímia,
Este caderno permite
Tanto o nada quanto o tudo.
Aqui, a vida se guarda
Em museu de formas cruas
E os desejos são rabiscos
Em busca de uma escritura.
Aqui se registram, impuros,
O pretérito imperfeito,
O presente inconsistente
E o improvável futuro.
Memória, fato e projeto.
A parte adivinha o todo,
O continente, o conteúdo.
Permanente metonímia,
Este caderno permite
Tanto o nada quanto o tudo.
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