TEMPO
TURIENSE
Turiaçu é onde o sol se
põe
e, mais que isso, onde
nasce
graúdo
sobre a cerca , no quintal.
Turiaçu é aqui,
onde quer que eu esteja.
Onde
haverá sempre uma cerca
e um quintal,
a lama do apicum
povoada de caranguejos
e sonhos. E todo sonho é no
Turi. Seu palco e locação,
referência
sempiterna.
Turiaçu é onde os pontos cardeais têm ponto certo:
o leste na ponta
do nariz,
o norte,
sul, oeste
e ser
feliz
é antever
o sol
no canto do galo e no cheiro das manhãs.
Turiaçu é quando, como, porquê.
É onde
está tudo, miniatura
do mundo:
o prefeito, o padre,
o padeiro
e Deus,
que é
turiense,
senhor dos seus
céus
que se
estendem do Castanhal ao Canário,
do Alto de São
Benedito ao outro lado
do rio.
Turiaçu é o rio, o Rio
sem nome
fluindo
sem memória
as águas
e os dias
quente-úmidos
do tempo turiense.
A vida por aqui passa mais lenta.
A maior aventura
é descer de bicicleta a Rua Nova e
seus perigos. Curvas
e medos.
Ir pra
missa, comer Cristo, o gosto
puríssimo
e branco, luminoso.
Declinar todo pecado,
dormir em estado de graça,
alma limpa, corpo cristalino.
A vida por aqui passa mais lenta:
o velho relógio
na parede é que
ordena
a hora do almoço,
a mesa posta de
cambéua gorda,
o gordo colo da tia
onde repouso uma infinita
preguiça
de meio-dia.
Turiaçu é a casa da tia,
coisas
antigas no mesmíssimo lugar
há muitos anos,
quartos escuros,
grandes varandas, onde redes
armadas
ao vento
balançam
infantes
fantasias.
Turiaçu é a vida subterrânea
pulsando outras vidas,
fabricando seus sonhos:
o pai cavalgando meus
dias atuais,
imenso e
morto.
Turiaçu é mais que uma cidade perdida
em um ponto qualquer do litoral
norte do Brasil,
entre igarapés e lama,
sob chuva e sol,
o Equador.
Turiaçu é a cidade perdida
em um ponto qualquer desta memória
estendendo suas ruas e praças em meu corpo,
o rio
nas veias,
a terra
devorando
a carne do poeta.
Vinte anos depois,
à margem de outro
rio, o sol se
põe.
Anoitece no Turi,
dentro
de mim.
URUBU
Na ociosa tarde
turiense,
olhos
espreitam a cerca, o quintal,
os urubus.
Os urubus, dizem, têm vida
longa.
Longa, portanto, será a brincadeira.
O anzol, isca de carne podre, fio de quitanda.
tudo o que é preciso.
A negra constelação
se espalha pela cerca.
alguns
cercam o anzol.
O mais negro, o mais feio, o mais urubu
é escolhido.
Olhos no
alvo negro,
negro, semovente.
Firmes
na mão
os instrumentos: o fio
e a maldade.
E puxa-se o barbante.
No instante fatal,
isca mordida,
os infernais infantes gritam em
coro
sua conquista.
Começa a
procissão: o urubu
passeia
pelas ruas sua desgraça.
Prossegue a procissão: os pequeninos
e sua presa
passam pela praça, pela igreja, pela casa
dos padres, pecadores.
Pedradas,
pauladas, pontapés.
O ritual culmina:
estopa
no rabo,
fogo na estopa.
E o urubu sobe aos céus
em labaredas.
GALILEU
GALILEI
A terra
gira gira
gira
gira em torno do sol.
Astro-rei-ressurreição-Galilei.
A verdade
gira
com o tempo
como o tempo.
A leve pedra cai.
A pesada pedra
cai
rumo à verdade.
As pedras caem. Razão.
Galileu
negou
porque
queria comer ganso,
tinha medo da dor física
e sabia
que a verdade gira,
que a verdade é feita
do tempo.
POEMA POR CAUSA DE UM BEIJO ANDARILHO
Eu fui apenas uma figura
a mais no seu
caminho
percorrido sozinha e com o
mundo
passando pelos seus dias
na mochila entre
as Américas.
Eu, cicerone, lhe
mostrei apenas que
tudo é o mesmo
e que Belém tem para mim o mesmo mistério
de todas as cidades que não conheço.
Por isso, não lhe mostrei o Ver-O-Peso
nem a Praça da República
e seus loucos
fugidos dos hospícios.
Fui com ela ao cinema e vi o seu
sorriso austríaco
ao ouvir
a música de Strauss no filme de Kubrick.
Eu
estava me apaixonando por Margot Sluka,
o corpo bonito, a
calça Lee desbotada,
um ano e um mês de Américas.
Em sua viagem pelo mundo,
Margot Sluka comia e bebia
pouco como um camelo e olhava muito
as pessoas
como um gato. Entre seus mistérios e paradoxos
guardados na mochila e nela mesma,
a virgindade. I am as I am. Margot Sluka
não me deu um beijo sequer no
dia anterior
à
despedida,
quando havia entre
nós um
caminho de
ausência
a ausência. Nem
lhe disse palavras
de amor,
because my English is really very bad
e falo com sotaque turiense.
Porém,
na quarta-feira passada,
em meio aos meus compromissos com
o mundo,
eu
recebi um beijo
que ficou parado no ar
como num
passe de mágica,
trazendo todas as cidades por onde andou,
um beijo em todas
as mil línguas
do mundo,
um beijo de despedida
e chama deste
desesperadominical poema que ela não vai ler
no seu atemporal domingo das Guianas.
DIA DE
FINADOS
Hoje,
não
visitarei meus mortos.
Os mortos não
habitam cemitérios.
Às vezes,
em dias claros como hoje,
eles é que vêm nos visitar.
E habitar
em nós
suas sombras,
perguntas
sem respostas,
enigmas
e medos.
E nos fazer revisitar
o olvidado corpo, instrumento
de tocar
a vida,
máquina
de viver.
Às vezes, em dias claros como hoje,
eles vêm
visitar em nós,
eternos companheiros da condição
humana,
o outro lado sem luz
da lua
de existir
e seus mistérios.
INSPIRAÇÃO
Preencher com nada o vazio
e expirar
o ar
modelando em som
o invisível
que
signi-
fica na memória.
Processar-se a magia da criação:
Jeová sopra vida em Adão.
E a palavra,
anjo alado,
comunica,
desangustia.
PALAVRADOR
pá
lavra
dor
palavra
lavrador
palavra
dor
A BARRIGA DO POETA
Esta barriga
que se me
dependura
por certo não é de nascença
e nem pode ser coisa
que dura
a vida toda, assim imensa.
Aliás,
esta barriga, não
a reconheço
como tal.
É mais um apêndice esquisito,
corpo estranho,
que a cada dia mais me tem
pesado.
Não a
reconhecerei como barriga.
De agora em diante, fica nomeado:
é coisa
de outro mundo,
objeto não identificado.
INVENTÁRIO
DOS OBJETOS ENCONTRADOS NA BOLSA DO POETA
Uma caneta Bic escrita
fina azul.
Uma maço de cigarros
marca Albany
contendo l9 cigarros.
Uma caixa
de fósforos marca
Olho.
Uma carteira de identidade
emitida pela SEGUP-PA,
de número que o poeta nunca conseguiu
decorar.
Uma carteira de trabalho
com a assinatura de um
emprego
do qual o poeta foi demitido
no último dia
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e onde exercia a função
de redator de publicidade.
Uma carteira do CPF cujo
número
o poeta
nunca irá decorar.
Uma folha de papel tamanho ofício
contendo uma tabela
de preços de peças
publicitárias para free-lancers.
Duas folhas de papel tamanho ofício
contendo o poema Tempo
Turiense.
Uma pequena agenda azul com endereços e telefones,
onde não constam telefone ou endereço
de quem poderia vir em seu socorro,
neste momento de profunda
solidão.
Uma fita cassete onde está gravada
uma canção
escrita pelo poeta, contendo uma infinita esperança
de tudo dar certo um dia.
PRAÇA
DOS TRÊS PODERES
Brasília,
no dia em que meus olhos
te
visitaram pela primeira
vez
o projeto concreto
à luz do sol do planalto,
meu coração repartiu-se
entre o projeto
e a cidade viva
em movimento.
Diante
de meus olhos,
fez-se a alvorada
de formas exatas.
Meus olhos viram,
empoeirado,
o sonho alto de
Oscar,
a arquitetura nova
(funcional pois bela)
de futuras formas de viver.
Mas meu coração viu
a triste arquitetura
de vidas desfuncionais e feias
(ofendidas e
humilhadas
nos bancos da Rodoviária)
sem qualquer poder
em frente à Praça.
CASA DOS TRINTA
Para Aldora Cruz
Quando o
mês de junho
chega
por uma
das muitas portas
que o tempo te vai
abrindo
- sem que tal favor lhe peças -
vais entrando em casas novas
que só a custo se
habitam.
São casas que a cada ano
mudam de cores, fachadas.
Há as estreitas,
escuras,
outras por muitos, diversos,
luas e
sóis clareadas.
Mas só de dez em dez anos
habitam-se casas grandes
que,
assombradas ou não,
há que vivê-las em
largo,
como em teus trinta,
mansão.
1 comentários:
Tempo Turiense, Dia de Finados, Praça dos Três Poderes. É sempre um desafio destacar algum poema entre os teus, mas estes estão entre os que eu mais gosto.
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