NOVOS POEMAS
O NASCIMENTO DO DIA
Já havia clarões dentro da noite,
embora a grande escuridão cobrisse a Terra
com sua negra manta,
tecida com as linhas do medo
e os retalhos da desesperança.
O trem do tempo corria lento, ao longe,
aproximava-se de nós
pelos trilhos da madrugada.
Já havia outros ruídos, poucos,
como o trinado de um curió,
o choro ao longe de uma criança
e os gemidos de dois amantes.
Foi quando o albor tornou-se aurora
e o sangue do dia
jorrou do horizonte.
Nascido, o dia chorou pela primeira vez.
Tinha bom peso e altura.
Foi batizado de Amanhã.
O VIAJANTE
Não passo.
Moro no caminho.
NOITE AMOROSA
O dia já nasceu.
Mas ainda estamos
noturnos.
OS CINCO SEGUNDOS
Por um breve instante
tudo ficou no seu lugar:
a luminária branca contra o teto branco,
o ventilador cumprindo o seu ofício de girar,
relógio, óculos, iPhone, carteira de documentos
sobre a mesa calma
e lá fora o dia nascendo
como uma máquina afinada
disparando seus sons, suas luzes,
fabricando o dia,
tela branca onde poderia pintar
todos os quadros,
escrever todos os livros,
reinventar o mundo.
Eu me balançava na cadeira de balanço
quando, por cinco segundos,
tudo ficou no seu lugar.
Até eu, que ando sempre fora do lugar,
integrei-me às coisas e ao mundo.
Mas foram apenas cinco segundos.
Logo, levantei- me, tomei um café,
acendi um cigarro e imergi
na restaurada confusão da casa
e do universo.
Lá fora, o sol nascia,
doloroso e belo,
reinaugurando a miséria da vida.
OS DIAS E SUAS NOITES
A segunda-feira reinaugura a semana
Os passarinhos reinauguram o dia
E cantam obstinados sua presença no mundo
Enquanto os homens prosseguem em seus equívocos
E em sua insensata esperança
Estes dias passarão
Como passaram os da última semana
Carregando-nos em seus barcos velozes
Rumo ao inatingível horizonte
Maio se foi com com suas luzes
Antes que o fotografássemos
Que dele guardássemos uma lembrança
Para nos consolar na travessia
Dos meses tristes que virão
O rio de Heráclito prossegue
Em seu curso, indiferente
Ao nosso temor de que por ele
Jamais voltaremos a passar
À sua margem seguimos cabisbaixos
Com o andar cada vez mais pesado
Pelo fardo dos dias e suas noites
Os nossos mortos se acumulam
Como guimbas de cigarro num cinzeiro
Ou como a louça suja na cozinha
Os dias se acumulam
Em nossos próprios corpos
Trazendo rugas e saudades
Cabelos brancos e a certeza
De que deles não poderemos
Na pia ou na lixeira nos livrar
E embora haja luz e azul
Nesta bela manhã
Que o morto em nós
Ainda contempla
A segunda-feira nos dói
Como uma artrose aguda
Na cervical do tempo
O NASCIMENTO DO DIA
Já havia clarões dentro da noite,
embora a grande escuridão cobrisse a Terra
com sua negra manta,
tecida com as linhas do medo
e os retalhos da desesperança.
O trem do tempo corria lento, ao longe,
aproximava-se de nós
pelos trilhos da madrugada.
Já havia outros ruídos, poucos,
como o trinado de um curió,
o choro ao longe de uma criança
e os gemidos de dois amantes.
Foi quando o albor tornou-se aurora
e o sangue do dia
jorrou do horizonte.
Nascido, o dia chorou pela primeira vez.
Tinha bom peso e altura.
Foi batizado de Amanhã.
O VIAJANTE
Não passo.
Moro no caminho.
NOITE AMOROSA
O dia já nasceu.
Mas ainda estamos
noturnos.
OS CINCO SEGUNDOS
Por um breve instante
tudo ficou no seu lugar:
a luminária branca contra o teto branco,
o ventilador cumprindo o seu ofício de girar,
relógio, óculos, iPhone, carteira de documentos
sobre a mesa calma
e lá fora o dia nascendo
como uma máquina afinada
disparando seus sons, suas luzes,
fabricando o dia,
tela branca onde poderia pintar
todos os quadros,
escrever todos os livros,
reinventar o mundo.
Eu me balançava na cadeira de balanço
quando, por cinco segundos,
tudo ficou no seu lugar.
Até eu, que ando sempre fora do lugar,
integrei-me às coisas e ao mundo.
Mas foram apenas cinco segundos.
Logo, levantei- me, tomei um café,
acendi um cigarro e imergi
na restaurada confusão da casa
e do universo.
Lá fora, o sol nascia,
doloroso e belo,
reinaugurando a miséria da vida.
OS DIAS E SUAS NOITES
A segunda-feira reinaugura a semana
Os passarinhos reinauguram o dia
E cantam obstinados sua presença no mundo
Enquanto os homens prosseguem em seus equívocos
E em sua insensata esperança
Estes dias passarão
Como passaram os da última semana
Carregando-nos em seus barcos velozes
Rumo ao inatingível horizonte
Maio se foi com com suas luzes
Antes que o fotografássemos
Que dele guardássemos uma lembrança
Para nos consolar na travessia
Dos meses tristes que virão
O rio de Heráclito prossegue
Em seu curso, indiferente
Ao nosso temor de que por ele
Jamais voltaremos a passar
À sua margem seguimos cabisbaixos
Com o andar cada vez mais pesado
Pelo fardo dos dias e suas noites
Os nossos mortos se acumulam
Como guimbas de cigarro num cinzeiro
Ou como a louça suja na cozinha
Os dias se acumulam
Em nossos próprios corpos
Trazendo rugas e saudades
Cabelos brancos e a certeza
De que deles não poderemos
Na pia ou na lixeira nos livrar
E embora haja luz e azul
Nesta bela manhã
Que o morto em nós
Ainda contempla
A segunda-feira nos dói
Como uma artrose aguda
Na cervical do tempo

