terça-feira, dezembro 22, 2015

NOVOS POEMAS

NOVOS POEMAS


O NASCIMENTO DO DIA

Já havia clarões dentro da noite,

embora a grande escuridão cobrisse a Terra

com sua negra manta,

tecida com as linhas do medo

e os retalhos da desesperança.

O trem do tempo corria lento, ao longe,

aproximava-se de nós

pelos trilhos da madrugada.

Já havia outros ruídos, poucos,

como o trinado de um curió,

o choro ao longe de uma criança

e os gemidos de dois amantes.

Foi quando o albor tornou-se aurora

e o sangue do dia

jorrou do horizonte.

Nascido, o dia chorou pela primeira vez.

Tinha bom peso e altura.

Foi batizado de Amanhã.



O VIAJANTE

Não passo.

Moro no caminho.



NOITE AMOROSA

O dia já nasceu.

Mas ainda estamos

noturnos.



OS CINCO SEGUNDOS

Por um breve instante

tudo ficou no seu lugar:

a luminária branca contra o teto branco,

o ventilador cumprindo o seu ofício de girar,

relógio, óculos, iPhone, carteira de documentos

sobre a mesa calma

e lá fora o dia nascendo

como uma máquina afinada

disparando seus sons, suas luzes,

fabricando o dia,

tela branca onde poderia pintar

todos os quadros,

escrever todos os livros,

reinventar o mundo.

Eu me balançava na cadeira de balanço

quando, por cinco segundos,

tudo ficou no seu lugar.

Até eu, que ando sempre fora do lugar,

integrei-me às coisas e ao mundo.

Mas foram apenas cinco segundos.

Logo, levantei- me, tomei um café,

acendi um cigarro e imergi

na restaurada confusão da casa

e do universo.

Lá fora, o sol nascia,

doloroso e belo,

reinaugurando a miséria da vida.




OS DIAS E SUAS NOITES

A segunda-feira reinaugura a semana

Os passarinhos reinauguram o dia

E cantam obstinados sua presença no mundo

Enquanto os homens prosseguem em seus equívocos

E em sua insensata esperança

 Estes dias passarão

Como passaram os da última semana

Carregando-nos em seus barcos velozes

Rumo ao inatingível horizonte

Maio se foi com com suas luzes

Antes que o fotografássemos

Que dele guardássemos uma lembrança

Para nos consolar na travessia

Dos meses tristes que virão

O rio de Heráclito prossegue

Em seu curso, indiferente

Ao nosso temor de que por ele

Jamais voltaremos a passar

À sua margem seguimos cabisbaixos

Com o andar cada vez mais pesado

Pelo fardo dos dias e suas noites

Os nossos mortos se acumulam

Como guimbas de cigarro num cinzeiro

Ou como a louça suja na cozinha

Os dias se acumulam

Em nossos próprios corpos

Trazendo rugas e saudades

Cabelos brancos e a certeza

De que deles não poderemos

Na pia ou na lixeira nos livrar

E embora haja luz e azul

Nesta bela manhã

Que o morto em nós

Ainda contempla

A segunda-feira nos dói

Como uma artrose aguda

Na cervical do tempo

domingo, setembro 06, 2015

NOVAS CRÔNICAS DA COLUNA DAS QUINTAS

SOBRE AS AREIAS MOLHADAS

Aylan Kurdi poderia ser meu neto ou bisneto. Nossos nomes são do mesmo idioma e têm o mesmo número de sílabas. Na sua idade, eu costumava ouvir os sons dessa língua estranha, a mesma que ele já começava a falar como sua língua materna.  Seus pais fugiram há pouco da mesma região do mundo de onde, um século antes, meus avós fugiram. Todos em busca de uma vida melhor. Meus avós encontraram a nova vida num país distante da América do Sul.  Os pais de Aylan encontraram a morte ainda próximo de onde partiram, nas tristes águas azuis do Mediterrâneo.  Agora, diante da tela do meu tablet, eu vejo seu corpo pequeno, de bruços, entre a água e a areia de uma praia turca. O mundo inteiro o vê. Aylan poderia ser o neto, o filho, o irmãozinho mais novo de muitos milhões de pessoas que o veem da forma mais dolorosa que se pode ver uma criança. Como tanta gente, eu também o vejo e quero correr para abraçá-lo, para o proteger. Aylan Kurdi poderia ser meu neto. Aylan Kurdi, cujo nome o mundo não deve esquecer, está deitado de bruços, com suas roupinhas coloridas, intactas, sobre as areias molhadas deste triste planeta azul. Aylan Kurdi está morto.
(04/09/15)




UM ISQUEIRO ZIPPO & UMA CARTA ESCRITA À MÃO

Hoje, um amigo dos tempos de Belém,  que não vejo há 40 (!) anos, me mandou, antecipado, dois belos presentes de aniversário, numa caixinha de papelão do Sedex: uma carta manuscrita e um isqueiro Zippo que ele já não usa, pois parou de fumar há três meses.

O Zippo está com o seu gostoso clique metálico bem afinado e a carta muito bem escrita e com ótima caligrafia, embora ele comente no final que já não sabe mais escrever à mão.

Quantos significados couberam dentro dessa caixinha! Nossa velha amizade é subitamente revivida nestes dias em que quase ninguém mais fuma e quase ninguém mais envia cartas manuscritas.

Ele fez 62 anos em abril e eu terei a mesma idade agora no dia 7. Ainda não parei de fumar. Mas fico feliz  por ele e lhe parabenizo por esse feito. Faço também uma promessa: em breve, o Zippo será apenas um clique metálico gostoso de ouvir. E para citar uma canção do nosso tempo, que fala de uma idade distante, à qual nunca imaginei chegar, farei isso antes de When I'm Sixty-Four.

Muito obrigado, Antonio Daniel Guimarães!

"May we stay forever young."




LINDO!

Lindo! Linda! Lindos! Lindas! Esse adjetivo, em suas diferentes flexões, é campeão absoluto de ocorrências nos comentários do Facebook. Quase sempre seguidos de um ou vários pontos de exclamação. Façam uma pesquisa rápida: peguem um post em que alguma coisa bonita é dita ou mostrada e contem o número de 'lindos' . O que isso significa? Não sei. Mas fico curioso em constatar que ele detém o monopólio como comentário elogioso, em detrimento de tantos outros que, se usados, dariam mais matizes ao que se quer expressar. Já a campeã de ausências é a vírgula, em
especial a que separa o vocativo do resto da frase. Mais de uma vez, já achei que estavam me
chamando de lindo, quando na verdade queriam qualificar o conteúdo do post. "Lindo, Jamil!" é uma coisa, "Lindo Jamil!" é outra, bem diferente. Quando percebo esse erro tão comum sempre me decepciono.

sexta-feira, agosto 21, 2015

DOURO

Douro de

azul e ouro. 

Pequeno mar 
que flui
na direção 
do Porto. 


Água e vinho 
carregas

no teu líquido caminho. 


A cidade invicta

sempre te esperou
.
Mas passas sob as pontes,

rumo ao horizonte,

sem tempo de a olhar.

Gaivotas te saúdam
e logo dão-te adeus,

ao entrares no mar.


quinta-feira, agosto 13, 2015

NOITES BRANCAS (Relato de viagem)



NOITES BRANCAS

Por um desses mistérios insondáveis da aviação comercial, era mais barato ir do Rio para Berlim com conexão de mais de uma hora em Frankfurt do que ir para Frankfurt, que fica mais perto, num voo direto da Lufthansa. Pra mim e pra minha mulher, velha companheira de já tantas viagens, isso seria o desejável, pois nossa intenção era alugar um carro e já começar a viagem andando numa Autobahn sem limite de velocidade e dentro da lei. Além de conhecer uma cidade nova, apesar de Frankfurt não ser propriamente um destino turístico atraente, eu ficaria menos tempo sem dormir e sem fumar. Sim, não consigo dormir em avião, pois o comprimento das minhas pernas não combina com tarifas da classe econômica. Sim, ainda pertenço a essa classe em extinção, a dos fumantes. Mas, ao descobrir no Google que o aeroporto de Frankfurt é bem servido de fumódromos, e levando em conta a boa economia que faria com a absurda diferença de tarifas, optamos pela conexão. Só não contava com a maratona que teria que fazer entre o avião e o portão de embarque.

Berlim

Para um coroa fumante e já sem fôlego, pareceram quilômetros aquela distância. A "viagem" a pé só teve uma brevíssima parada para eu fumar um cigarro enquanto Zezé ia ao banheiro. Mesmo assim, chegamos ao nosso longínquo destino quando uma fila já estava formada para entrar no outro avião.

Chegamos a Berlim. Temia por outra maratona. Mas tive a surpresa agradável de a esteira de bagagens estar a poucos passos e, de lá, já avistar a saída para a rua. Me senti no antigo e aconchegante aeroporto do Tirirical, em São Luís.

Chuva e frio lá fora, às vésperas do verão. Adoro o frio moderado. Mas, como é sabido, a chuva é o pior inimigo do turista. Mesmo assim, foram agradáveis aqueles dois dias na ex-capital do Terceiro Reich. Em vez de ir dormir logo após o check-in no hotel modesto (mas com uma maravilhosa varandinha, onde eu poderia exercer meu abominável vício), Zezé e eu olhamos um para o outro e logo estávamos na rua, nos ajeitando debaixo do pequeno guarda-chuva que ela teve a sensatez de levar. A intenção era caminhar até a Kurfürstendamm, avenida coração da cidade a duas quadras do hotel, mas a chuva nos atacou mais forte, como  tanques panzer da Wehrmacht invadindo a Polônia. Nos abrigamos numa pequena cervejaria, onde um bando de puros arianos bebiam cerveja, comiam salsichões e fumavam (!) sentados à mesa. (Como se pode ver, a Alemanha é um país atrasado. Lá ainda existem essas coisas que o Brasil já extinguiu, como fumódromos em aeroporto e bares onde se pode fumar). De turistas, só a gente. Era o lugar com que sonhava. Que Kurfürstendamm que nada! Pedimos cervejas e salsichões.   Enfim, após aeroporto, subúrbios entrevistos da janela do táxi e hotel — coisas que existem em qualquer lugar do mundo — havíamos chegado à verdadeira Alemanha.

Se você acordar no seu primeiro e chuvoso dia numa cidade que ainda não conhece e onde só vai passar pouco tempo, uma boa decisão  é pegar um ônibus de turismo e fazer um city tour. Sentado, no conforto térmico e abrigado das águas, sem ter que pilotar um guarda-chuvas (acho que a gente perde tanto guarda-chuva por causa de um desejo inconsciente de se livrar daquele estorvo), você vai ter uma visão geral da cidade. E vai poder escolher com calma os lugares aonde voltar mais tarde. Foi o que fizemos. Eu, por exemplo fiquei com vontade de voltar à Ilha dos Museus, formada por dois braços do Spree, o rio que atravessa Berlim, onde há uma concentração de prédios antigos e bonitos, que sobraram ou foram recuperados mais tarde dos bombardeios aliados,  nos últimos dias da Segunda Guerra. Berlim é uma cidade bastante moderna para os padrões europeus. Para quem busca o antigo, não é dos lugares mais interessantes da Europa. Em compensação, podemos apreciar um show de arquitetura contemporânea, com os arrojados e criativos prédios que por todo lado se vê.

Ao voltar ao ponto de partida, na Kurfürstendamm (Kudamm, para os locais e os íntimos, mas que Zezé e eu apelidamos de Kufu), a chuva havia parado. Pudemos então zanzar por essa avenida que é o ponto mais muvucal de Berlim. Numa de suas extremidades fica a igreja Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche, aquela que tem a torre decepada por uma bomba, deixada para sempre assim, como forma de lembrar a destruição causada pela guerra.

Foram apenas dois dias na cidade. E eu não teria saudade de lá se não tivéssemos voltado nos últimos dias da nossa viagem. Foi quando Berlim mostrou suas faces ocultas, bem mais bonitas e alegres que as da primeira vez. Ser feliz em algum lugar não depende só do lugar. Depende também (ou até principalmente) do seu estado de espírito e da sorte. Como disse Nelson Rodrigues, sem sorte a gente não consegue nem chupar um Chica-Bom. Pode se engasgar com o palito ou ser atropelado pela carrocinha!

Helsinki

A Finlândia é o quinto país com mais qualidade de vida no mundo. O ranking foi elaborado pelo Numbeo, gigantesco centro de dados com conteúdo gerado pelos internautas. A Finlândia é campeã em educação e segurança.

(Entre os outros critérios avaliados, estão a assistência médica, a qualidade do ar, o poder de compra da população, o preço para o consumidor, a relação entre o tráfego e o tempo de viagem e  a relação entre o preço dos imóveis e a sua taxa de valorização.)

Por que escolhemos ir a Helsinki, capital da Finlândia, nessa viagem? Um casal de amigos que mora nos States moveu uma campanha para nos encontrarmos por lá, onde eles passariam alguns dias a trabalho. Além do encontro, era uma oportunidade de conhecer pelo menos um dos países da Escandinávia. Quando lembrei que agora não é mais preciso visto para a Rússia e descobri uma passagem baratinha para São Petersburgo, pronto, a decisão estava tomada. Íamos a um país escandinavo e, o melhor de tudo, realizaria em seguida meu velho sonho de conhecer a Rússia.

Helsinki não é uma cidade obviamente turística, mas vale a pena pesquisar em sites e blogs de viagem algumas de suas surpreendentes atrações, como o grande museu a céu aberto e o monumento ao compositor finlandês Sibelius. O que ficará para sempre na minha memória serão as suas noites de quase verão. Sentado numa deliciosa varanda de um bar, já passava de onze da noite quando me dei conta que o céu permanecia azul. Bati uma foto antes que escurecesse. Pura ignorância minha. Deu meia-noite e nada de escurecer. O céu continuava azul. E assim continuou, numa madrugada que parecia um fim de tarde de tão luminosa. Claro! Quanto maior a latitude no hemisfério norte, menos o sol se esconde nessa época do ano, da mesma forma que os dias são curtíssimos no inverno, quando o astro-rei dá as caras mais tarde e se despede mais cedo. Uma coisa é saber disso, outra é ver e viver. A noite azul de Helsinki nos emocionou.

Mas o melhor de Helsinki foi Tallinn, na Estônia.

Tallinn

No dia seguinte pegamos um ferry boat, como são  modestamente chamados os espetaculares navios que fazem a travessia do Golfo da Finlândia em duas horas. Lá dentro tem cassino, loja duty free, restaurantes, bares e outras coisas típicas de um navio de cruzeiro. As duas horas passaram rápido e travessia foi uma atração em si mesma.

Mas a atração maior estava por vir: a encantadora cidade de Tallinn. Pouco mais de 400 mil habitantes, é a mais antiga capital da Europa setentrional. Você sabia? Eu também não. Acabei de descobrir na Wikipédia. Tallinn é um desses destinos turísticos pouco usuais (não topamos com nenhum brasileiro por lá) com o qual, não sei bem por quê, sempre sonhei. E Tallinn não me decepcionou. Entre muralhas e torres medievais, o centro velho é lindo, acolhedor e... velho! No melhor sentido da palavra.

Procuramos o endereço do apê que alugamos pelo Airbnb, o site que aluga por temporada casas, apartamentos e quartos e que anda incomodando os hotéis com sua concorrência. A gincana que foi encontrar a chave — guardada dentro de uma caixinha sem cadeado, presa a um cano de água, acompanhada de um bilhete dizendo que o nosso apê ficava em outra rua — teve como prêmio uma espetacular hospedagem. O apartamento era maior que o nosso do Rio, ficava no térreo e dava fundos para um arborizado quintal, a duas quadras da praça central. Tudo isso pela metade do preço médio dos hotéis de baratos em que ficamos nas outras cidades.

O grande programa em Tallinn é ficar vagando por suas adoráveis ruas, parar num charmoso café para tomar um espresso nada expresso ("espresso" em italiano quer dizer "espremido, comprimido" e não "rápido"), tomar uma cerveja da qual você nunca ouviu falar o nome, apreciar as belas estonianas (ou estonianos, dependendo do gosto do turista) e a arquitetura. Na hora de comer, experimentar um urso. Sim, um urso. Ou um javali. Ou uma boa perdiz. Em vários restaurantes, é comum a carne de caça. Zezé pediu sopa de rena, aquela mesma que carrega o Papai Noel. Eu, que adoro caça, de todo tipo e já sou íntimo de javalis e perdizes, pedi urso. Tem gosto de quê? De urso, é claro!

São Petersburgo

A noite russa caía.  Mas apenas nos nossos relógios. Como em Helsinki,  o céu continuava azul e assim ficou madrugada adentro, sem dar nenhum sinal das horas. Lembrei do romance "Noites Brancas" de Dostoiévski, onde um personagem sem nome encontra uma mulher sobre uma ponte do rio Neva e ao longo de algumas noites de verão vai se apaixonar por ela. As noites brancas na verdade são azuis.

Estamos na cidade de São Petersburgo (simplesmente Petersburgo para os íntimos, ou Peter, para os mais íntimos ainda), a terceira maior da Europa, depois de Moscou e Londres. E a mais ao norte, dentre todas as cidades do planeta com mais de um milhão de habitantes. Mudou duas vezes de nome ao longo do século XX. Foi palco de três revoluções e a que mais perdeu habitantes durante a longa e heróica resistência ao ataque nazista. Chamava-se então Leningrado, depois de ter sido Petrogrado no começo do século. A cidade de Pedro, o Grande.  A cidade de Lênin.

A língua russa sempre foi uma paixão minha, tanto que estudei por quase um ano num curso que ficava na Rua das Marrecas,no centro do Rio. Estar num lugar cercado de palavras em alfabeto cirílico foi como estar num parque de diversões. (Cada doido com sua mania!). Para a surpresa de Zezé e para a minha vaidade, eu lia "de carreirinha" tudo que via pela frente. Isso não é propriamente falar russo, mas ajuda um pouco. Não precisa, por exemplo, mostrar para o motorista que não fala uma palavra de inglês um papelzinho com o nome da rua. Pode falar o nome da rua. E descobrir coisas menos úteis, como ela ser uma homenagem ao general Jukov e quase fazer esquina com outra que traz o nome do grande poeta Maiakóvski. Foi lá que ficamos, num apropriadamente chamado mini-hotel. Ele só ocupava parte de um dos andares do prédio velho, com o hall de entrada detonado e soturno, paredes pichadas e elevador precário. Essa péssima primeira impressão foi logo desfeita quando fomos recebidos por Olga, uma senhora gorducha e simpática que fez de tudo para nos entender e ser entendida, usando com desenvoltura o tradutor da Google. O quarto era simples mas grande e limpo. Como na primeira noite em Berlim, nem tiramos as coisas da mala e já seguimos para a 'Muvúskaia', também conhecida como Nevski Prospekt ou Avenida Nevski. Uma quadra da rua de Maiakóvski e estávamos lá. Meu primeiro dia na Rússia tinha de ser comemorado com uma aguinha (ou vodka em russo, diminutivo de vodá, água). É isso que significa o nome dessa bebida tão apreciada por Zezé, por mim e pelo povo russo. Da culinária russa, não podia deixar de experimentar um prato bem típico. Pedi um que se tornou universal, o estrogonofe. Era diferente. O champignon, por exemplo, não vem misturado à carne e o creme de leite, mas ao arroz que acompanha o prato.

São Petersburgo é grande demais, em todos sentidos, e bela demais. Não cabe numa narrativa curta de um viajante que passou lá apenas duas de suas brancas noites. Assim, só cabe mencionar algumas das coisas que me chamaram a atenção:

*A vida pulsante. É enorme o número de estabelecimentos que ficam abertos 24 horas. E as pessoas não param de passar na Avenida Nevski, o coração da cidade.

*O Museu Hermitage. O antigo palácio de inverno dos czares é hoje um dos maiores e mais ricos museus do mundo.

*A Catedral de Santo Isaac e a Catedral do Sangue Derramado. Fantásticas obras-primas da arquitetura sacra.

*Uma notável ausência de imigrantes, o que não é nenhuma vantagem, mas um diferencial em relação a qualquer outra cidade em que estive na Europa. Os poucos que encontrei e com quem conversei eram invariavelmente de uma ex república soviética, como o Cazaquistão.

*Os grandes espaços abertos. Petersburgo é grande e grandiosa.

*A beleza das mulheres.

Nunca vi, em nenhum outro lugar, tanta mulher bonita. Na varanda de um bar, tomando meu café espresso (acho que se pode medir o grau de civilização de um lugar pela qualidade do café e pelo número de estabelecimentos que o vendem), fiquei-as apreciando passar, altas, brancas, elegantes, imponentes, pela calçada da Nevski. Um verdadeiro exército delas desfilava diante de mim, tendo como fundo, do outra lado da avenida, o belo prédio que, segundo a gravação do ônibus do city tour, era o café onde Dostoiévski se encontrava para beber com os amigos. Acho que hoje em dia ele ele não teria tempo nem concentração para escrever as numerosas páginas de  "Crime e Castigo".

De Peter, pegamos um avião, com conexão em Helsinki, para Berlim. Nem fomos à cidade. No aeroporto mesmo, alugamos um carro e já seguimos para Praga por uma Autobahn, uma dessas estradas alemãs em que o limite de velocidade é a consciência do motorista. Cheguei a 200, mas mantive em 180 km/h por algum tempo no piloto automático. Pela frente, nos esperavam, além de Praga, Dresden, as cidades checas de Cesky Krumlov e Karlovy Vary e, de novo, Berlim. Mas essa parte da viagem conto depois, que esta começou a ficar longa. Já estou em casa há alguns dias, mas a viagem continua. Como disse num poeminha que fiz após minha primeira e já longínqua viagem à Europa:

Esses lugares
de onde há pouco vim
já andam a todo instante
a passear por mim.

COLUNA DAS QUINTAS (Crônicas)

UMA VELHA FOTO RECORTADA DE UM JORNAL

A fotografia é mesmo uma magia e pode até ser um milagre. Hoje aconteceu um. Vi pela primeira vez, num velho recorte já esmaecido de jornal, de apenas uns quatro centímetros quadrados, o rosto sorridente de uma moça bonita, por quem me apaixonei perdidamente à primeira vista. Era apenas um pedacinho de papel. Fotografei-o com meu iPhone, editei a foto sem usar nenhum recurso além do recorte e agora o contemplo com um amor desmedido. Era apenas um pedacinho de papel com uma foto em preto e branco, mas dele saltava o sorriso de cores infinitas da juventude, que permanece na tela do tablet que meu olhar agora sobrevoa. De repente, sou jovem de novo e quero conquistar essa moça, namorar com ela, pedi-la em casamento, ficar ao seu lado pelo resto da vida. Mas isso não é possível, sou muito mais velho que ela, não terei chance alguma. Preciso sair desse sonho insensato. Mas aí acontece o milagre. Num corte veloz, o tempo passa sobre essa imagem e atravessa décadas. A moça está do meu lado, viva, com o mesmo sorriso, mas agora num rosto de mulher madura, não menos bela que a jovem por quem me apaixonei. Posso abraçá-la, beijá-la, falar com ela e ouvir sua voz. Descubro, orgulhoso, que a conquistei. Trinta, trinta anos se passaram. Eu sou seu marido. Ela é minha mulher.
(13/08/15)


FLUZÃO E PAPÃO: POR QUEM TORCER?

Sudestinos e sulistas só têm um time de coração. Nordestinos e nortistas torcem por dois: o modesto clube local, da segunda divisão pra baixo, e outro do eixo Rio-São Paulo, clube grande de expressão nacional, quase sempre atuando na primeira divisão. É assim, isso é cultural e não adianta esse papo de cariocas e paulistas de que só se torce por um time. Nós, da parte de cima do mapa, torcemos por dois. E pela vida inteira, mesmo que tenhamos imigrado há muito tempo para o "Sul Maravilha" (bota aspas nisso!),  continuamos com o nosso amor intacto pelo esquadrão conterrâneo.

Meu filho carioca, tricolor roxo que acha inconcebível torcer por outro time que não o Flu, me lançou a pergunta terrível: por quem eu iria torcer no próximo dia 19, quando,  em pleno Maracanã, confrontar-se-ão o Paysandu Sport Club e o Fluminense Football Club, nas oitavas de final da Copa Brasil?

Antes de lhe dar a resposta, fiz a mim mesmo algumas perguntas.  O que nos leva a eleger um time, e não outro, para torcer? Que acontecimento em nossa trajetória fez com que nos tornássemos tricolores e não vascaínos, botafoguenses e não flamenguistas? Por que a filiação a um time, no que tem de entusiasmo fiel, guarda parentesco com a posição política, com a fé religiosa (ou sua ausência) e com as opções e  predileções em geral?

Me tornei Papão logo ao chegar a Belém, aos 15 anos, idade a partir da qual comecei a gostar de futebol. Foi também quando, depois de intensa religiosidade (queria ser padre) , me tornei ateu e comunista fervoroso. Talvez haja relação entre essas coisas, pois o Paysandu tinha uma torcida de gente mais humilde, enquanto o Remo era mais elitista. Mas certamente houve influência dos novos  amigos, todos mais velhos. Gente da pesada como o poeta Ruy Barata, com quem fui pela primeira vez ao estádio da Curuzu, ver um Re-Pa, o clássico da Amazônia. Um lindo gol de Quarentinha nos deu a vitória.

Mas antes disso tudo, já era Fluminense de coração, por influência de um primo mais velho de São Luís. Nunca esqueço de suas lágrimas, enxugadas com a camisa bonita que ele usava, por causa do que o rádio anunciava impiedoso. Com uma derrota, quem diria, nascia um novo tricolor.

Tentei dar respostas espirituosas ao meu filho, quando me perguntou por quem vou torcer no dia 19.  Coisas como "para o Flu no primeiro e para o Paysandu no segundo tempo". Mas não é nada disso. Quando o juiz apitar e a bola começar a rolar no gramado, duas das três cores vão se apagar lentamente no meu coração, só restando o branco. E a ele virá se juntar um azul celeste celestial.
(06/08/15)


QWERTYUIOP

Depois de piano e violão, o curso que mais gostaria de ter feito na vida é o de datilografia. Bater rápido, sem olhar pro teclado, usar o dedo mindinho pra teclar o A... Que maravilha!
Ao contrário do de piano e do de  violão, o de datilografia teria sido rápido e fácil. E jamais ficaria obsoleta essa habilidade: o teclado do computador é igual. Mas sigo catando milho, mais rápido, é verdade, do que quando entrei numa redação de jornal aos 18 anos e era sacaneado pelos mais velhos.

Mal passei da condição de foca, me bandeei para a publicidade. (Não por vocação, mas porque dava mais dinheiro.) Os textos curtos da publicidade não ajudaram muito a exercitar uma escrita mais rápida e sem erros. Continuei catando milho. Uso quatro dedos, mais os dedões pra espacejar. Sei de gente boa que só usa os indicativos e, no entanto, batuca nas teclas com espantosa velocidade. Parece que o Nelson Rodrigues era assim. Mas eu não sou o Nelson Rodrigues, ai de mim!

Em penas de ganso, cisne e pato, durante dois milênios, muita gente boa escreveu coisas como A Divina Comédia, Os Lusíadas e Dom Quixote, Hamlet e um colossal etc. Penosamente, tinham que levar a pena ao tinteiro o tempo todo, sob a precária luz de velas.
"Foutre ton encrier!" - aconselhava Flaubert aos escritores. Como no Facebook é aconselhável usar o linguajar que se usa na sala de uma casa de família, sugiro consulta a um dicionário de francês. A frase expressa bem o corpo a corpo entre escriba e seus instrumentos de trabalho antes da invenção da máquina de escrever. E pensar que não concebemos mais escrever qualquer coisa que não seja no computador.


Entre as muitas histórias pitorescas de Adolpho Bloch, há uma exemplar. Cobrou de um fotógrafo melhores fotos  e ele respondeu que sua máquina era velha e antiquada. E o velho jornalista empresário mandou na bucha: “Quer dizer que se eu lhe der uma caneta Parker de ouro você vai escrever melhor do que o Machado de Assis?”

Hoje a minha máquina de escrever Olivetti Lettera 22 cor de abacate mora num depósito de coisas velhas num pequeno cômodo da minha casinha nas montanhas. Não escrevi nada que chegue aos pés das Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas foi com ela e o ardor da juventude que fabriquei meus melhores textos.



PARA ONDE VÃO AS COISAS QUE PERDEMOS?

Só hoje, perdi meus óculos escuros, uma caneta que acendia uma luzinha na ponta, presente de um amigo, um isqueiro que tinha acabado de comprar e, por fim, a esperança de encontrá-los.

Ultimamente, além de estarem se passando muitos anos, as coisas deram pra se perder com uma desenvoltura nunca vista. Tudo bem, certas coisas trazem em si a vocação para o sumiço. É da natureza delas. Isqueiros, chaves, canetas, documentos, guarda-chuvas, lembranças, tempo. Não lembro mais quem disse, mas este último é único inimigo que ataca fugindo.

Ultimamente, até coisas que não costumavam me abandonar, já que fazem parte de mim, como os óculos ( acho que nasci de óculos — eu sempre fui assim),
vão para longe  dos meus olhos, que vagueiam míopes e em vão em busca deles pela casa.

Os guarda-chuvas, por exemplo, já trazem em sua própria anatomia o desejo de fugir. O abrir e fechar de suas negras asas ( nem todo guarda-chuva é negro, mas os desta cor são os mais fujões) lembram asas de pássaros prestes a voar para bem longe. Sua migração ocorre preferencialmente em dias chuvosos.

E as canetas? Para onde vão as canetas? Quando não saem à francesa, ficam nuas na festa, despidas de suas tampas, se tampas têm. Estas vão embora sozinhas, quando não são as canetas inteiras que se mandam para escrever sua própria história em outra freguesia, cansadas de serem apenas instrumentos nas mãos do dono. (Alguém na vida já viu uma caneta Bic totalmente usada, zerada de tinta?)

Os isqueiros, muito antes de acabar seu fluido, usam o que resta para se lançarem como um foguete rumo ao espaço sideral.

O poeta Mario Quintana (lembrei!) disse nuns versos ter descoberto de que são formados os anéis de Saturno. Eles são  formados por esses objetos que perdemos no dia a dia!

Mas tenho a impressão que estão reunidos em algum lugar bem escondido, só nos observando de lá, se divertindo, rindo da nossa cara.


APOSENTADO

Este é o meu primeiro feriadão como aposentado. E pela primeira vez na vida, o feriadão inverte o seu significado: ao invés de ser um período para se fazer uma pequena viagem  e (pretensamente) ir descansar numa praia ou num recanto da serra, agora é o momento ideal para se ficar na cidade e, de preferência,  não sair de casa.

Estradas engarrafadas? Filas mais longas nos cinemas e restaurantes? Falta de vagas nas pousadas? Muvuca e multidões nos pontos turísticos?

Seus problemas acabaram!

Aposente-se e se livre dessas coisas desagradáveis. Agora você pode ficar em casa, sem aquela aflitiva sensação de que está desperdiçando uma oportunidade de se divertir pra valer. Agora, cinema só no meio da semana, sem filas e com ingressos mais baratos. Agora, as estradas estarão mais livres à frente do seu carro. As pousadas terão desconto de segunda a quinta. Os restaurantes terão sempre uma mesa disponível e o garçom estará menos estressado para lhe atender melhor.

Com aposentadoria, muitas outras coisas vão mudar pra melhor. Você vai poder assistir à sessão da tarde sem aquele sentimento de culpa e ouvir a musiquinha do Fantástico sem aquela aflitiva sensação de que a segunda- feira se aproxima como um trem carregado de pepinos e de  abacaxis pra você descascar.

Descubra muitas outras vantagens para usufruir adquirindo a sua própria aposentadoria. Você vai descobrir que lhe aguardam coisas bem melhores que jogar dominó na pracinha com os outros coroas desocupados.

Como fazer para ter tudo isso? É muito fácil. Trabalhe ininterruptamente, todos os santos dias úteis da semana, oito horas por dia (é apenas a metade da sua vida acordada!)  por pelo menos 35 anos, com carteira assinada e pagando todo mês o INSS. Ah! Só mais uma coisinha: se vire pra sobrar um dinheiro pra pagar todo mês, em todos esses anos, uma previdência privada ou, se preferir, fazer aplicações financeiras. (Ou você acha que vai conseguir viver com a merreca do INSS?!)

Garanta o seu direito de um dia poder passar a madrugada jogando no computador e acordar mais tarde na quarta-feira. Aposente-se.


segunda-feira, maio 11, 2015

POEMAS EM PROSA

 FLORENÇA E FLORENÇA


    Eu nunca fui a Florença.
    Por isso é preciso fazer um poema para  Florença.
    Um poema com as pedras arredondadas pelos sonhos de ver Florença.
    Esses que me habitam.
   Com essas pedras, pavimentar as ruas da cidade sonhada. Porque a lua que irá banhá-las é a mesma lua que banha este março cruel e chuvoso do Rio de Janeiro. A mesma lua que banha os campos  - também tão lindos - do meu país destroçado.
    Eu nunca fui a Florença.
    Por isso  é preciso sonhar Florença.
   A sonho joia de pedra, incrustada de ideias. A sonho a cidade visível do meu desejo de caminhá-la,  concreta,  no esplendor de sua
materialidade.
   O Rio Arno corre na veia da memória. A Ponte Velha desde sempre esteve aqui, a ligar a realidade e o sonho, o velho e o novo, Florença e Florença.

   Aqui estou,  na praça de Miguel Ângelo. Diante de mim, o vale do Arno e a silhueta da cidade. A torre do Palácio Velho à esquerda e, à direita, a igreja de Santa Cruz. Ao centro, a cúpula do Duomo. Bruneleschi apóia a mão direita em meu ombro e a outra aponta para sua obra. Numa esquina insuspeitada, Galileu empunha uma luneta e descobre que a Terra gira em torno do homem. Em frente ao restaurante, Miguel Ângelo grita: "Parla!" E as palavras são esculturas feitas de ar. (Esculturas mais perfeitas que o Moisés: não lhes falta nem falar.) Na praça da Senhoria, Leonardo tenta se identificar ao porteiro do hotel, enumerando seus feitos. Donatello, Boticelli e Fra Angelico passeiam entre os japoneses com suas câmeras fotográficas. Ghiberti, Ghirlandaio e Giotto se alinham  em ordem alfabética na relação dos hóspedes. No balcão, Dante escreve  num cartão postal: "O homem é a mais bela criação de Deus".
   É preciso observar Florença. Com olhar exato, inocente e apaixonado. Saio pelas ruas e invento a perspectiva e os primeiros nus.
  
   Aqui nada foi roubado de outro lugar. Obras de seus próprios filhos, os tesouros de arte e arquitetura se perfilam íntegros ante meus olhos brasileiros. Penso em Aleijadinho e Oscar, na utopia de meu país, no que podia ter sido e não foi. Sei que tudo isso também é meu. Cada museu é minha casa. Quem ama o belo o possui na escritura definitiva da memória.
   tenho a fadiga generosa de percorrer Florença. Agora a lua cai sobre as pedras. A lua de Florença, lua que nunca vi, ilumina todo o mar de Copacabana. (É uma lua quase cheia, feito a felicidade. É uma lua quase meia, inteira em sua metade.)

   É preciso ver, ouvir, cheirar, provar e tocar Florença.

   então poderei trazer de Florença  o

que ela tem de melhor: artigos de couro, finos tecidos, a luz da lua sobre o Arno, os mais belos quadros dos Ofícios. E a saudade que terei de Florença, quando for Florença que estiver, então, a passear por mim.


DEUS E AS FORMIGAS
  
    Todos dormiam quando saí para ver o luar.
   Era uma noite fria, dessas que eu amo. E havia um silêncio mais alto que o assobio do vento, mais alto que o pio dos passarinhos, desses que eu não sei o nome. Soltei um jato de urina forte e ruidoso sobre a terra e aspirei no alívio o cheiro da noite. Jasmim e estrume do gado.
   Foi que vi as formigas, perigosamente próximas, vítimas potenciais da hecatombe. Mudei a direção do jato cuidadosamente. Depois, agachei-me e fiquei observando a fila indiana dupla, a que ia e a que vinha, uma delas carregando os luminosos pedacinhos de folha, bandeiras verdes de um exército em marcha.
   Havia ali uma determinação, um propósito. Todas eram iguais perante o meu olhar. Até que me assomou a possibilidade espantosa de cada uma ser um indivíduo. Para que estavam ali sob o luar de maio? Que sonho, que utopia, as animava a ir em frente? E elas iam,  numa disciplina estrita, denodada.
   Por um breve instante a luz da lua brilhou num pedacinho de folha e refletiu, ali, a cara de Deus.
   E  aquela procissão de formigas não era menor que a caminhada dos judeus do Egito para Canaã, não era menos épica que a marcha dos exércitos de Napoleão pelos campos gelados da Rússia, nem menos memorável que o primeiro astronauta caminhando sobre o chão da lua.
   Havia um fim naquilo tudo, mas ele não me foi revelado.Tudo o que sei é que um ser ali podia deter aquele caminhada. E esse ser era eu. Bastava uma pisada, um jato de mijo, um chute na terra.


O CANIVETE SUÍÇO

   És um objeto belo e contraditório. Como a vida e a poesia. Símbolo do útil e do funcional, é na beleza e na comovente inutilidade que reside a tua força. Grávido de possibilidades, repousas sobre a mesa. Amigável ao tato e à vista, ao ouvido e ao olfato — teus cliques metálicos, teu cheiro metálico —, estás sempre disponível, tuas peças múltiplas fechadas, como a asas da águia que paradas repousam antes do voo. Como uma flor que a qualquer momento pode abrir suas pétalas de aço.

   Em teu vermelho metálico conciso, és mesmo uma flor de aço, as pétalas multiformes, no jardim da mesa de trabalho. Flor imarcescível, a sempre-viva, a que sobreviverá a mim, à minha frágil carne, aquela que,  num acidente banal, uma de tuas lâminas pode cortar e fazer jorrar o sangue que se confundirá, mimético, com tua cor. Pacientemente, poderia contigo construir pequenos artefatos, reparar arestas, recortar figuras, dar um sentido a tudo e ordenar o caos. Ou poderia, num corte súbito no pulso...

   Como da minha vida, sou teu dono. Mas não sei o que fazer contigo, como não sei o que fazer com ela. Sobre a mesa de trabalho, no esplendor de tua materialidade, me contemplas.

segunda-feira, março 30, 2015

POÇO FUNDO (3)

AZUL DEL-REY

As coisas são múltiplas demais
para que nelas possa pousar tranquilo o meu olhar.
E são também demasiado belas e reais.
O que o  meu olhar busca já não sabe.
Por isso erra pelas superfícies das coisas
sem encontrar abrigo, sobrevoa-as
e elas quase nunca estão ao seu alcance
mesmo que estejam ao alcance das mãos.
As coisas são muitas, demais,
Os livros empilhados na estante,
o rosto de minha mulher ( que é uma coisa também,
das mais amadas),
o azul Del-Rey com que um dia pintamos esta porta
ou o sol lá fora incendiando o chão e os passarinhos,
tudo isso é demais
para meus olhos míopes,
esse par de coisas arredondadas
que o espelho da sala,
num relance,
espia.




A CAVEIRA

A caveira de cavalo
(com seus dentes mordendo
o ar desta manhã)
ainda cavalga
na árvore seca.
Meu filho a pendurou ali quando criança.
Do cavalo vivo que ela foi um dia,
ainda ouço os ruídos dos cascos,
o relinchar na noite proclamando
a finitude de tudo.



POÇO FUNDO
(Musicado por Nilson Chaves)

lugar da paz 
lugar de mim
lugar que faz 
do meio um fim
lugar do bom
lugar do frio
lugar do som
do tom do rio
passar
aqui
do passarim
chuchu caqui
sabiá jobim

poço fundo
posso ir fundo
até o fim
do fim do mundo
sem sair daqui

poço fundo
posso ir fundo 
e viajar
até o fim
do fim do mundo
sem sair do lugar


águas de março
em pleno abril
a mata a flor
tudo no cio 
o meu amor 
e sempre o rio
o rio o rio



RELAÇÃO PARCIAL DO QUE FOI LEVADO PELO RIO

O rio levou a casa e suas lembranças
Todos os cadernos, todos os projetos

O rio levou os livros e a estante
A televisão, o forno e o aquecedor elétrico
O rio levou os pequenos objetos inúteis
A camisa no varal
Os papéis na gaveta
A escritura definitiva

O rio levou os desenhos que meu filho fez quando criança
As palavras  rabiscadas na lousa que penduramos na sala
As portas e janelas que um dia pintamos de azul

O rio levou a geladeira
A pimenta que ardia solitária dentro da geladeira
O rio levou as paredes da casa
E os planos de um dia reformar a casa

O rio levou a cama e o sono
O vento que batia no bambuzal
O barulho da chuva no telhado, o cheiro da terra molhada
O estrume do gado
E o aroma escandaloso do jasmim

O rio levou o frio
As primeiras luzes da aurora
O verde ensolarado da encosta do morro
O pau a pedra o fim do caminho

O rio levou a casa
A viagem de carro que nos levava até a casa
O rio levou o Carnaval, a Semana Santa, o Corpus Christi
A contemplação das estrelas, o medo da morte
E a esperança de tudo dar certo um dia

O rio levou as madrugadas insones, as viagens imaginárias
O pequeno bumba-meu-boi pendurado no telhado
O rio levou todo o telhado
O rio levou a Via Láctea
(O caminho entre a casa e o rio, sob as estrelas)

O rio levou a lua cheia

O rio levou o Pacífico e o Atlântico
E  os cinco continentes
No mapa-múndi na parede do quarto

O rio levou os nomes de todas as cidades no mapa
As cento e cinquenta mil palavras no dicionário
O ubi sunt, o carpe diem, o locus amoenus

O rio levou os caminhões que passeavam na estradinha carregados de realidade
Os aipins que floresciam vertiginosamente no interior da terra

O rio levou a montanha
O rio levou o céu
O rio levou a casa

O rio levou o rio, o rio, o rio



POÇO FUNDO (2)



NA VARANDA, EM POÇO FUNDO
                                                                                           
"E a paz esteja presente como fruto maduro"
Laura Amélia Damous

A rede armada ao vento, na varanda
A montanha semeada de bois
Os livros plantados no chão de cimento
O canivete, o binóculo, o maço de cigarros
Todos os amados objetos pessoais
ao meu alcance

Não irei para tão longe
para Pasárgada ou para onde
a paz esteja presente como fruto maduro 

Sempre caro me fu quest’ermo cole

Aqui a paz é sólida e palpável

Aqui a paz é de se pegar
como fruta no pé


BALADA DE POÇO FUNDO

A quaresmeira já está em flor.
E hoje à noite a lua,
que já se aproxima velozmente do Morro do Presépio,
brilha pela metade
porque você não está aqui.
Se eu fosse um gigante,
arrancaria do solo essa árvore por inteiro
e ia te oferecer como um buquê.
Mas sou apenas 
um homem triste e sozinho
que não sabe bem o que fazer com seu amor
porque você não está aqui.
Eu tomaria essa lua
— que, súbito, em minha mão
se tornaria plena e esplêndida —
e te levaria por sobre as montanhas da Serra dos Órgãos
para bem longe,
“para além dos espantosos rochedos da Serra das Araras”
e a pousaria num planalto paulista
onde, a essa hora, dorme uma mulher,
silenciosamente, dentro da noite
e do meu coração.

POÇO FUNDO (1)

POÇO FUNDO

Os aipins florescem vertiginosamente
no interior da terra.
Um beija-flor exerce a plenitude do seu nome.
Na estradinha de terra
um caminhão passeia
carregado de realidade.

Você ainda dorme
na casinha pequenina
onde nosso amor
cresceu.


O CACHO DE BANANAS

O cacho de bananas repousa agora
no cimento do pátio.
Ontem à noite o resgatamos
da bananeira que pendia
        perigosamente 
 para o abismo. 

Pousa agora sobre ele (sobre nós)
a primeira luz da manhã.
As bananas são ogivas verdes
apontando para nossa fome de vê-las.
Estamos salvos, por enquanto
(enquanto o tempo permitir) 
livres de toda podridão.



 DEUS E AS FORMIGAS

Todos já dormiam quando saí para ver o luar. Era uma noite fria, dessas que eu amo. E havia um silêncio mais alto que o assobio do vento, mais alto que o pio dos passarinhos, desses que eu não sei o nome. Soltei um jato de urina forte e ruidoso sobre a terra e aspirei no alívio o cheiro da noite. Jasmim e estrume do gado. Foi aí que vi as formigas, perigosamente próximas, vítimas potenciais da hecatombe. Mudei a direção do jato cuidadosamente. Depois, agachei-me e fiquei observando a fila indiana dupla, a que ia e a que vinha, só uma delas carregando os luminosos pedacinhos de folha, bandeiras verdes de um exército em marcha. Havia ali uma determinação, um propósito. Todas eram iguais perante o meu olhar. Até que me assomou a possibilidade espantosa de cada uma ser um indivíduo. Para que estavam ali sob o luar de maio? Que sonho, que utopia, as animava a ir em frente? E elas iam, numa disciplina estrita, denodada. Por um breve instante a luz da lua brilhou num pedacinho de folha e refletiu, ali, a cara de Deus. E aquela procissão de formigas não era menor que a caminhada dos judeus do Egito para Canaã, não era menos épica que a marcha dos exércitos de Napoleão pelos campos gelados da Rússia, nem menos memorável que o primeiro astronauta caminhando sobre o chão da lua. Havia um fim naquilo tudo, mas ele não me foi revelado.Tudo o que sei é que só um ser ali podia deter aquele caminhada. E esse ser era eu. Bastava uma pisada, um jato de mijo, um chute na terra.



DE TARDINHA, EM POÇO FUNDO

Os urubus sobrevoam o morro.
O que farejam?
Um boi morto ou o cadáver do dia?



MOMENTO EM POÇO FUNDO

Pra realçar ainda mais o seu gritante azul,
o céu se tinge de repente do preto de um urubu.
Nesse instante, o poeta olha para o céu.
E tinge de preto o branco do papel.

domingo, março 29, 2015

15 'HAICAIS LOCAIS' INÉDITOS.

15 'HAICAIS LOCAIS' INÉDITOS 




AULA DIÁRIA
desde a juventude
o sol poente me ensina
a finitude


FESCENINA
Punheta:
na mão um pau,
na cabeça uma buceta.


A LÂMPADA
Sol encapsulado:
a lâmpada do quarto
mantém o dia adiado.

APELO
Lua cheia e cheiro de jasmim
me gritam na noite quente.
O que querem de mim?

ROMÂNTICO INVETERADO
Sou viciado em bolero.
A hora de parar
fumando espero.


CIDADEZINHA ALEMÃ, 1944
Na cidade sitiada,
a alta torre esguia
espia a madrugada..


O CAVALO DE PEDRA
Estátua equestre:
não há quem a
adestre.

CHOCANDO
No ninho, ainda um ovo.
Que aninho vai nascer
do Ano Novo?


HAICAI DE SÃO JOÃO
haicai, balão,
haicai, balão,
aqui na minha mão


FORA DA FESTA
Longe da algazarra,
em silêncio, o meu cigarro
namora com a cigarra.  


APELO
Lua cheia e cheiro de jasmim
me gritam na noite quente.
O que querem de mim?

CARÍCIAS VIRTUAIS
Na madrugada insone
os namorados se tocam
nas teclas do iPhone.

DENTRO DA NOITE LENTA
Pesado, lento e ruidoso bicho,
tritura o silêncio da noite
o caminhão de lixo.

AO VOLANTE
Ouve uma voz ruidosa:
Drummond, Drummond, Drummond
na estrada de Minas, pedregosa.


EVASÃO
Já deu a largada:
vai para a Minas que não há mais.
Ou talvez para Pasárgada.
.