UM BICHO NAS RUAS
Para Darcy Ribeiro
“O bicho, meu Deus, era um homem”
Manuel Bandeira
eu nunca vi um cavalo
galinha cabrito gado
ou qualquer outro animal
nesta rua abandonado
no entanto aí vem um bicho
andando entre os automóveis
sem que ninguém o olhe
nos grandes olhos imóveis
ninguém lhe dá de comer
nem o leva a passear
ninguém lhe lava os pêlos
ninguém o quer afagar
como se afaga um cão
ou se joga milho aos pombos
tem dois olhos duas mãos
e às vezes no peito um rombo
tem dois olhos duas mãos
pode escrever a ilíada
pode sentir saudade
pode ganhar olimpíada
pode morrer na cruz
pode até pisar na lua
dentro dele mora a luz
igual à minha e à tua
é mais que um mico-leão
bem maior que uma baleia
nele habitam o sim e o não
nele uma luz se ateia
luz humana que incendeia
não que ilumina seu sonho
súbito em mim se alteia
um sentimento medonho
sentimento que clareia
seus grandes olhos imóveis
terrível dor que passeia
na noite entre os automóveis
Para Darcy Ribeiro
“O bicho, meu Deus, era um homem”
Manuel Bandeira
eu nunca vi um cavalo
galinha cabrito gado
ou qualquer outro animal
nesta rua abandonado
no entanto aí vem um bicho
andando entre os automóveis
sem que ninguém o olhe
nos grandes olhos imóveis
ninguém lhe dá de comer
nem o leva a passear
ninguém lhe lava os pêlos
ninguém o quer afagar
como se afaga um cão
ou se joga milho aos pombos
tem dois olhos duas mãos
e às vezes no peito um rombo
tem dois olhos duas mãos
pode escrever a ilíada
pode sentir saudade
pode ganhar olimpíada
pode morrer na cruz
pode até pisar na lua
dentro dele mora a luz
igual à minha e à tua
é mais que um mico-leão
bem maior que uma baleia
nele habitam o sim e o não
nele uma luz se ateia
luz humana que incendeia
não que ilumina seu sonho
súbito em mim se alteia
um sentimento medonho
sentimento que clareia
seus grandes olhos imóveis
terrível dor que passeia
na noite entre os automóveis