quinta-feira, fevereiro 03, 2011

terça-feira, fevereiro 01, 2011

UM TURISTA NO TURI

Preparamo-nos, eu e minha mulher, longamente para a aventura que sempre quis e para a qual achava que já não tinha saúde e estava velho demais. Voltar à terra natal, a cidade maranhense de Turiaçu, um município que já esteve entre os 10 mais pobres do Brasil, segundo o IBGE. A decisão da viagem foi tomada quando fiquei sabendo que finalmente agora uma estrada — asfaltada! — ligava Turiaçu ao mundo. E que lá havia uma pousada, com o belo nome de Borges (não, não é uma homenagem ao Jorge Luís). O fator decisivo mesmo foi que um quarto com ar condicionado podia ser reservado. Para resumir, e fazendo mais uma referência à literatura latinoamericana, a Turiaçu onde nasci e me criei até a adolescência, era a própria Macondo. Ali um dia vi o milagre da luz com a chegada da energia elétrica. Não havia água encanada, nenhum médico morava na cidade e só três veículos motorizados passeavam por suas poucas ruas: o caminhão da Prefeitura, o jipe da minha tia (uma espécie de “coronela” local) e a lambreta do padre. Todos transportados para lá a bordo de embarcações. Porque só por mar ou rio se chegava a Turiaçu, após viagens que podiam durar dias.

Se pusermos o nome de Turiaçu no Google, a orgia homossexual do prefeito Umbelino será a campeã de ocorrências (a vice será o ataque à cidade de morcegos assassinos). Aparecem ainda, entre outras poucas coisas, alguns versos que escrevi. Entre eles, não está o Tempo Turiense:

Turiaçu é onde o sol se põe

e, mais que isso, onde nasce

graúdo

sobre a cerca, no quintal.

Turiaçu é aqui,

onde quer que eu esteja.

Onde haverá sempre uma cerca e um quintal,

a lama do apicum povoada de caranguejos

e sonhos. E todo sonho é no

Turi. Seu palco e locação,

referência sempiterna.

Turiaçu é onde os pontos cardeais têm ponto certo:

o leste na ponta do nariz,

o norte, sul, oeste

e ser feliz

é antever o sol

no canto do galo e no cheiro das manhãs.

Turiaçu é quando, como, porquê.

É onde

está tudo, miniatura do mundo:

o prefeito, o padre, o padeiro

e Deus,

que é turiense,

senhor dos seus céus

que se estendem do Castanhal ao Canário,

do Alto de São Benedito ao outro lado do rio.

Turiaçu é o rio, o Rio

sem nome

fluindo

sem memória

as águas

e os dias

quente-úmidos

do tempo turiense.

A vida por aqui passa mais lenta.

A maior aventura é descer de bicicleta a Rua Nova e

seus perigos. Curvas e medos.

Ir pra missa, comer Cristo, o gosto puríssimo

e branco, luminoso.

Declinar todo pecado,

dormir em estado de graça,

alma limpa, corpo cristalino.

A vida por aqui passa mais lenta:

o velho relógio na parede é que ordena

a hora do almoço,

a mesa posta de cambéua gorda,

o gordo colo da tia

onde repouso uma infinita preguiça

de meio-dia.

Turiaçu é a casa da tia,

coisas antigas no mesmíssimo lugar

há muitos anos,

quartos escuros,

grandes varandas, onde redes

armadas ao vento

balançam

infantes fantasias.

Turiaçu é a vida subterrânea

pulsando outras vidas, fabricando seus sonhos:

o pai cavalgando meus dias atuais,

imenso e morto.

Turiaçu é mais que uma cidade perdida

em um ponto qualquer do litoral

norte do Brasil,

entre igarapés e lama,

sob chuva e sol,

o Equador.

Turiaçu é a cidade perdida

em um ponto qualquer desta memória

estendendo suas ruas e praças em meu corpo,

o rio nas veias,

a terra devorando

a carne do poeta.

Vinte anos depois,

à margem de outro rio, o sol se põe.

Anoitece no Turi,

dentro de mim.

A maioria das informações que eu tinha sobre a Turiaçu de hoje, inclusive a da pousada, me foi passada por Rogério, um rapaz que conheci há uns 10 anos na internet e me mandou longos e bem escritos e-mails. Num deles, que me comoveu em particular, terminava dizendo que “no mais, continua dando peixe, camarão e abacaxi”. Cheguei a planejar uma viagem anos atrás, mas a informação de que na época em que eu pretendia ir haveria uma micareta na cidade, o “Carnaturi”, me fez voltar atrás. Mas agora, todas as condições estavam reunidas.

Zezé e eu fomos para São Luís, alugamos um carro e começamos a viagem com a travessia de balsa da Baía de São Marcos, saindo da Ponta do Porto da Espera para Cujupe, no município de Alcântara. Era a época dos “ventos gerais”. A balsa balançava tanto, que vários carros dispararam seus alarmes, numa sinfonia de buzinas.

Pegamos a estrada e uma hora depois uma profusão de placas indicava que havíamos chegado a Pinheiro. O sobrenome Sarney onipresente, batizando logradouros e órgãos públicos. Uma delas, a Biblioteca “Poeta” Evandro Sarney, assim mesmo, com involuntárias mas adequadas aspas. Pinheiro, para quem não sabe, é a terra natal do autor de Marimbondos de Fogo. Enquanto esperávamos ao almoço num ventilado e simpático restaurante na pracinha chamada Parque do Babaçu, nos demos conta de que só chegaríamos ao Turi com o sol já posto. Após o apressado almoço, retomamos a estrada rumo a Santa Helena. Atravessamos o Rio Turiaçu. Sem pressa, ele também viajava em direção à minha cidade.

Centenas de buracos depois, mais uma placa com sinal gráfico intruso: a saída para “Turiaçú”. O asfalto era bom, ou pelo menos parecia bom — espero que não do tipo que não resiste a duas eleições seguidas — e a estrada reta. Mas pequenos aclives podiam tirar da visão um boi, um cavalo, um jegue ou até um bípede voltando da lida. Haviam me alertado para o perigo. E de fato cruzamos com alguns. Minha mulher dirigia e, em frente e cada aclive, eu repetia o mantra preventivo: Olha o boi! E ela reduzia a velocidade. Tentei adivinhar cada placa que viria pela frente. Errei com “Colônia Amélia”, que não apareceu, e me surpreendi com um nunca ouvido “Povoado do Dança Bem”. Mas adivinhei Canarinho, Cafezal e Canário. Aqui, onde no meu tempo era o distante Canário e ficava o campo de aviação, o aviso que já estávamos em “perímetro urbano”. A emoção da chegada me impediu de reconhecer a Ladeira de Tomezinho. Sucediam-se casas, lojas, um posto de gasolina e até uma boate. E as motos começaram a dar o ar de sua ruidosa graça. Logo passamos pelo cemitério e acho que vi o túmulo dos meus avós, o mais alto. Logo fazíamos a curva onde um dia houve a Usina. Agora sim, estávamos no antigo perímetro urbano. Em vez de virar à esquerda para pegar a Rua Nova — mais tarde fiquei sabendo já não ter esse nome — e seguir para o Castanhal, onde ficava a pousada, seguimos em frente até a Praça da Igreja. O primeiro choque: a casa do avô sumira e no seu lugar um feio caixote de cimento. Mas a Igreja de São Francisco Xavier, padroeiro da cidade, estava lá. Olhei para sua torre reconstruída depois que um raio a decepou quando eu tinha 10 anos, espalhando pedras sobre nossos assustados telhados. O carro seguiu pela Rua da Igreja, e eu já sabia que logo depois, virando à esquerda, eu não iria ver a casa de Tia Olga, a casa da minha infância. Não vê-la me deu a dimensão do quanto a cidade mudara e não me causou nenhuma dor, apenas um vazio igual ao terreno onde ela se erguia e parecia eterna.

A Pousada Borges ficava atrás do Empire State turiense, um imponente prédio de 5 andares, mais alto que o Sobrado e o prédio dos Correios e quase tão alto quanto a Igreja, os únicos com mais de um andar (dois!) no meu tempo. Mal estacionamos o carro (sim, havia um estacionamento) e nos alojamos no quarto, saímos para as ruas. As motos zumbiam como moscas. A primeira parada foi na casa de Norberto, avô de Rogério (que infelizmente não estava na cidade) na velha Rua Nova, cujo quintal dava para o quintal da casa dos meus pais e onde morava Sebastião e Altiva Lages, minha parteira. (Sua família era a única de protestantes na cidade. Brincava com seus filhos e, quando brigávamos, eles eram do lado do Diabo e eu e meus irmãos do lado de Deus. )

O casal nos serviu um licor de abacaxi, doce como todo licor, e do abacaxi mais doce da Terra. Nossa conversa curta foi repleta de referências a pessoas, que iam se cruzando numa teia vasta que cobria quase toda população da cidade que eu conhecia. Atordoado com tanta informação (por uma eu não esperava: Antonio Pinto Pinto estava vivo, aos 101 anos) e tantas lembranças, me despedi antes talvez do que devesse. Caminhamos rumo à Rampa. Entre ela e o trapiche da Goiabeira, havia agora uma rua aterrada e povoada por uma gente ruidosa, a maioria da qual ainda não tinha nascido quando saí de lá.

Uma dezena de quiosques de madeira sobre palafitas se espremia lado a lado, com mesinhas voltadas para a feia rua e de costas para o lindo rio. Em cada uma delas, tocava uma música diferente no mais alto volume possível saindo das potentes caixas de som. Uma trilha sonora para o inferno. Passamos ao largo de tal cenário e nos dirigimos à velha rampa. Lá estavam as embarcações, tão bonitas como sempre, e em número muito maior. Para a surpresa de um velho barqueiro, desacostumado com turistas, ofereci-lhe um dinheiro para que déssemos uma volta pelo rio. Pedi a ele que tomasse o rumo contrário da baía. Pouco a pouco os ruídos da rampa foram ficando para trás e ia crescendo no céu uma lua entre estrelas nítidas, e prateavam as águas noturnas e a temperatura era agradável e ele nos ofereceu um camarão seco graúdo e saboroso e após um tempo em silêncio começamos a conversar e ele disse muito naturalmente que se lembrava de mim, o sobrinho de Dona Olga, e perguntou se gente já queria voltar e eu disse que sim, como que acordando de um sonho.

Era preciso jantar, mas longe do burburinho. Perto da pousada havia uma, mas era praticamente dentro de uma igrejinha evangélica, dessas que acham que Deus é surdo. Saudades da família Lages! No bairro do Rabelão, um aterrador aterro que cometeram sobre o apicum, na Rua Umbelino Ribeiro (homenagem ao pai do prefeito chegado a orgias), encontramos o curioso Baltazar, misto de lanchonete modernosa e farmácia (!). Ali bebemos uma cerveja geladíssima — isto é uma tradição e uma questão de honra para qualquer estabelecimento que venda cerveja na cidade.

E chegou à mesa o velho e bom camarão nativo, que certamente nadara vivíssimo nas águas turienses ainda na madrugada anterior. Sua casca cumpria a missão de preservar o sabor inigualável e se integrava macia e mastigável à carne do crustáceo. Acompanhava-o arroz soltinho, adorável e crocante farofa de farinha d’água, honesto molho vinagrete e, surpresa das surpresas, uma batata frita como eu só havia provado tão boa certa vez em Bruxelas. Preço do soberbo repasto: 14 reais!

Voltamos à Borges. Ao contrário do que temia, adormeci com facilidade e dormi bem, como há muito não fazia. Tanto que acordamos bem cedo e, às 10 horas, quando voltei ao hotel para tomar meus remédios, vi que amanhã rendera e tínhamos feito tanta coisa, que já podíamos tomar a estrada de volta.

Nessa manhã, encontramos Alexandre. Enquanto eu mostrava a Zezé o apicum, agora Rabelão, e lamentava a vista do rio que se perdera, um rapaz magro e de óculos interferiu na conversa, apoiando com veemência o meu protesto. Na conversa que se seguiu, logo fiquei sabendo que ele era filho de Nivaldo e uma nova teia de nomes veio à tona. Perguntei se ele queria nos acompanhar na visita que faríamos de carro ao Castanhal. Ele de pronto aceitou e nos foi muito útil no cumprimento da agenda que tínhamos pela frente: fazer uma doação de uma caixa cheia de livros à biblioteca (pedido da minha irmã de São Luís), fotografar a Rua Jamil Damous (nome oficial da Rua da Goiabeira, que homenageia meu pai, de quem tenho o mesmo nome), comprar peixe e camarão. Enquanto ele batia fotos minhas e da Zezé em frente à placa (não ia perder essa, mesmo pagando o mico da vaidade), apareceu uma moça amiga dele que era também a bibliotecária. Duas tarefas cumpridas, partimos para o Castanhal, via o Alto de São Benedito. Foi quando avistei a horrenda estátua tapando a vista da igrejinha que fica no topo do Alto. Toda negra, parecia um gorila raivoso, prestes a atacar, não o simpático São Benedito das imagens que eu conhecia. São Benedito é uma espécie de co-padroeiro da cidade, ao lado de São Francisco Xavier. Mais um crime de um prefeito insano. Todos na cidade achavam a estátua horrorosa, mas calavam-se, talvez pelo medo de serem acusadas de racistas. Racista era a estátua!

O longínquo Castanhal, aonde íamos em longa caminhada, chegou em menos de 5 minutos. Ali estava o campo de futebol esburacado, as casas humildes, pouco mudara. Tinha que ir ao igarapé, que ficava mais longe ainda. Ele estava mais bonito que na minha lembrança. Havia um barco típico em construção ali do lado. Dois meninos brincavam, à margem do igarapé. Um deles trazia um caranguejo amarrado num barbante, puxando- o como se fosse um bichinho de estimação. Alexandre chegou perto dele e teve uma conversa “politicamente correta”, incitando-o a soltar o caranguejinho, “assim ele vai crescer e um dia alimentar sua barriguinha”. O menino não se mostrou muito tocado por essas palavras edificantes, queria mais era continuar brincando com seu prisioneiro.

Alexandre demonstrou uma legítima preocupação com questões políticas e ecológicas, além de conhecimento dos problemas locais. Fiquei feliz em saber que ele depositava confiança no novo prefeito. (Os prefeitos parecem ter sido para a cidade um flagelo maior que os morcegos.)

Lastimo não ter feito mais perguntas a ele. Como se chamava, por exemplo, aquele tipo de barco em construção. Até agora sinto vergonha em não sabê-lo. Em determinado momento, em vez de perguntar e ouvir, e sem saber muito o que falar, pus-me do nada (ou diante de tudo, de todos os sentimentos que a visita despertava, em especial da imagem do garoto com o caranguejo amarrado no barbante) a declamar meu velho poema Urubu:

Na ociosa tarde turiense,

olhos espreitam a cerca, o quintal,

os urubus.

Os urubus, dizem, têm vida longa.

Longa, portanto, será a brincadeira.

O anzol, isca de carne podre, fio de quitanda.

tudo o que é preciso.

A negra constelação se espalha pela cerca.

alguns cercam o anzol.

O mais negro, o mais feio, o mais urubu

é escolhido.

Olhos no alvo negro, negro, semovente.

Firmes na mão

os instrumentos: o fio

e a maldade.

E puxa-se o barbante.

No instante fatal, isca mordida,

os infernais infantes gritam em coro

sua conquista.

Começa a procissão: o urubu passeia

pelas ruas sua desgraça.

Prossegue a procissão: os pequeninos e sua presa

passam pela praça, pela igreja, pela casa

dos padres, pecadores.

Pedradas, pauladas, pontapés.

O ritual culmina:

estopa no rabo,

fogo na estopa.

E o urubu sobe aos céus

em labaredas.

Ainda deu tempo para comprar peixe e camarão na Rampa. (O abacaxi já estava na “soca”, o final da colheita, quando já não é tão bom). Na esquina da Rua Jamil Damous, nos fundos do antigo armazém do meu avô, a peixaria. Procurei por cambéua e gurijuba, mas só havia pescada amarela. Pedi que cortassem e limpassem uma de 7 quilos, resplandecente peixe de ouro. Não sabia se conversava com o dono da peixaria ou assistia ao espetáculo que era o corte e a limpeza do peixe, de uma habilidade artística que só os turienses têm. O dono perguntou de onde eu era. Quando respondi, me disse o quanto seu pai era amigo do meu. Garramo na conversa. Perguntou meu nome. Apontei o dedo para a placa do outro lado da rua. Zezé me lançou um olhar de censura pelo gesto de vaidade infantil.

Em menos de 18 horas dentro do município, uma sucessão de surpresas, lembranças boas, decepções, entulhos da memória, cujos símbolos vivos eram as vigas empilhadas e o pó do que outrora foram as paredes da casa da minha tia. Vi — com mais alívio que dor — que agora a casa mais importante da minha vida, assim como toda a cidade, estava intacta, firmemente edificada no terreno perene da memória, que é onde deve permanecer.