sexta-feira, novembro 29, 2013

Dois poemas em prosa:


 FLORENÇA E FLORENÇA


    Eu nunca fui a Florença.
    Por isso é preciso fazer um poema para  Florença.
   Um poema com as pedras arredondadas pelos sonhos de ver Florença.
    Esses que já me habitam.
  Com essas pedras, pavimentar as ruas da cidade sonhada. Porque a lua que irá banhá-las é a mesma lua que banha este março cruel e chuvoso do Rio de Janeiro. A mesma lua que banha os campos  - também tão lindos - do meu país destroçado.
    Eu nunca fui a Florença.
    Por isso  é preciso sonhar Florença.
    A sonho jóia de pedra, incrustada de idéias. A sonho a cidade visível do meu desejo de caminhá-la,  concreta,  no esplendor de sua materialidade.
    O Rio Arno corre na veia da memória. A Ponte Velha desde sempre esteve aqui, a ligar a realidade e o sonho, o velho e o novo, Florença e Florença.

   Aqui estou,  na praça de Miguel Ângelo. Diante de mim, o vale do Arno e a silhueta da cidade. A torre do Palácio Velho à esquerda e, à direita, a igreja de Santa Cruz. Ao centro, a cúpula do Duomo. Bruneleschi apóia a mão direita em meu ombro e a outra aponta para sua obra. Numa esquina insuspeitada, Galileu empunha uma luneta e descobre que a Terra gira em torno do homem. Em frente ao restaurante, Miguel Ângelo grita: "Parla!" E as palavras são esculturas feitas de ar. (Esculturas mais perfeitas que o Moisés: não lhes falta nem falar.) Na praça da Senhoria, Leonardo tenta se identificar ao porteiro do hotel, enumerando seus feitos. Donatello, Boticelli e Fra Angelico passeiam entre os japoneses com suas câmeras fotográficas. Ghiberti, Ghirlandaio e Giotto se alinham  em ordem alfabética na relação dos hóspedes. No balcão, Dante escreve  num cartão postal: "O homem é a mais bela criação de Deus".
   É preciso observar Florença. Com olhar exato, inocente e apaixonado. Saio pelas ruas e invento a perspectiva e os primeiros nus.
 
   Aqui nada foi roubado de outro lugar. Obras de seus próprios filhos, os tesouros de arte e arquitetura se perfilam íntegros ante meus olhos brasileiros. Penso em Aleijadinho e Oscar, na utopia de meu país, no que podia ter sido e não foi. Sei que tudo isso também é meu. Cada museu é minha casa. Quem ama o belo já o possui na escritura definitiva da memória.
   Já tenho a fadiga generosa de percorrer Florença. Agora a lua cai sobre as pedras. A lua de Florença, lua que nunca vi, ilumina todo o mar de Copacabana. ( É uma lua quase cheia, feito a felicidade. É uma lua quase meia, inteira em sua metade.)

   É preciso ver, ouvir, cheirar, provar e tocar Florença.
   Só então poderei trazer de Florença  o que ela tem de melhor: artigos de couro, finos tecidos, a luz da lua sobre o Arno, os mais belos quadros dos Ofícios. E a saudade que terei de Florença, quando for Florença que já estiver, então, a passear por mim.


DEUS E AS FORMIGAS
   
    Todos já dormiam quando saí para ver o luar.
   Era uma noite fria, dessas que eu amo. E havia um silêncio mais alto que o assobio do vento, mais alto que o pio dos passarinhos, desses que eu não sei o nome. Soltei um jato de urina forte e ruidoso sobre a terra e aspirei no alívio o cheiro da noite. Jasmim e estrume do gado.
   Foi aí que vi as formigas, perigosamente próximas, vítimas potenciais da hecatombe. Mudei a direção do jato cuidadosamente. Depois, agachei-me e fiquei observando a fila indiana dupla, a que ia e a que vinha, só uma delas carregando os luminosos pedacinhos de folha, bandeiras verdes de um exército em marcha.
   Havia ali uma determinação, um propósito. Todas eram iguais perante o meu olhar. Até que me assomou a possibilidade espantosa de cada uma ser um indivíduo. Para que estavam ali sob o luar de maio? Que sonho, que utopia, as animava a ir em frente? E elas iam,  numa disciplina estrita, denodada.
   Por um breve instante a luz da lua brilhou num pedacinho de folha e refletiu, ali, a cara de Deus.
   E  aquela procissão de formigas não era menor que a caminhada dos judeus do Egito para Canaã, não era menos épica que a marcha dos exércitos de Napoleão pelos campos gelados da Rússia, nem menos memorável que o primeiro astronauta caminhando sobre o chão da lua.
   Havia um fim naquilo tudo, mas ele não me foi revelado.Tudo o que sei é que só um ser ali podia deter aquele caminhada. E esse ser era eu. Bastava uma pisada, um jato de mijo, um chute na terra.




[do livro A Camisa no Varal]