FLORENÇA
E FLORENÇA
A sonho
joia de pedra ,
incrustada de ideias . A sonho a cidade visível do meu desejo de caminhá-la,
concreta , no esplendor
de sua
O Rio Arno corre na veia
da memória . A Ponte
Velha desde
sempre esteve aqui ,
a ligar a realidade e o
sonho , o velho
e o novo , Florença e Florença.
É preciso
observar Florença. Com
olhar exato , inocente e apaixonado. Saio pelas ruas
e invento a perspectiva
e os primeiros nus .
É preciso
ver , ouvir , cheirar , provar e tocar Florença.
Foi aí
que vi as formigas ,
perigosamente próximas, vítimas potenciais da hecatombe .
Mudei a direção do jato
cuidadosamente. Depois , agachei-me e
fiquei observando a fila indiana dupla ,
a que ia e a que
vinha , só
uma delas carregando os luminosos
pedacinhos de folha , bandeiras verdes
de um exército
em marcha .
Havia
E
aquela procissão de formigas
não era
menor que
a caminhada dos judeus
do Egito para Canaã, não
era menos
épica que
a marcha dos exércitos
de Napoleão pelos campos
gelados da Rússia, nem menos memorável que o primeiro astronauta caminhando sobre
o chão da lua .
Havia um
fim naquilo tudo ,
mas ele
não me
foi revelado.Tudo o que
sei é que só
um ser ali podia deter aquele caminhada .
E esse ser era eu . Bastava
uma pisada , um
jato de mijo, um
chute na terra .
O CANIVETE SUÍÇO
És um objeto belo e
contraditório. Como a vida e a poesia. Símbolo do útil e do funcional, é na
beleza e na comovente inutilidade que reside a tua força. Grávido de
possibilidades, repousas sobre a mesa. Amigável ao tato e à vista, ao ouvido e
ao olfato — teus cliques metálicos, teu cheiro metálico —, estás sempre disponível,
tuas peças múltiplas fechadas, como a asas da águia que paradas repousam antes
do voo. Como uma flor que a qualquer momento pode abrir suas pétalas de aço.
Em teu vermelho metálico
conciso, és mesmo uma flor de aço, as pétalas multiformes, no jardim da mesa de
trabalho. Flor imarcescível, a sempre-viva, a que sobreviverá a mim, à minha
frágil carne, aquela que, num acidente
banal, uma de tuas lâminas pode cortar e fazer jorrar o sangue que se
confundirá, mimético, com tua cor. Pacientemente, poderia contigo construir
pequenos artefatos, reparar arestas, recortar figuras, dar um sentido a tudo e
ordenar o caos. Ou poderia, num corte súbito no pulso...
Como da
minha vida, sou teu dono. Mas não sei o que fazer contigo, como não sei o que
fazer com ela. Sobre a mesa de trabalho, no esplendor de tua materialidade, me
contemplas.
