CABACINHA DE LUZ
- O que
eu mais
gostei foi ver aquele
paideguão de alumínio subindo naquele
campão de cimento pro rumo de meu Deus...
Assim Dário Mandu descreveu sua
emoção ao ver
pela primeira
vez, no Aeroporto
do Tirirical, um avião
de verdade, não
esses teco-tecos
que três
vezes por
semana pousavam no Campo
do Canário.
Ele fora pela primeira vez a São Luís, para fazer compras e ver de perto as maravilhas da capital.
Percorreu a Rua Grande
de cima a baixo.
Tudo o que
o Coronel Raimundo Estrela
tinha, ele
haveria de ter também.
A começar pelas “cabacinhas de luz”,
como chamava as lâmpadas
elétricas que tanto
o deslumbraram, acesas na grande casa da Praça
da Igreja, com
a inacreditável luz
que não
tremeluzia como a dos candeeiros e fazia milagrosamente a noite turiense virar dia claro.
Antes mesmo de a luz elétrica chegar a Turiaçu, com
a inauguração da usina, o coronel
Raimundo Estrela comprou um gerador. Da
horinha que escurecia até 10 da noite,
as lâmpadas se acendiam e encantavam o povo do Turi.
Um mês depois, Dario Mandu pedia a uma atônita
balconista uma dúzia
de cabacinhas de luz. De volta a Turiaçu, mandou pendurá-las com barbante por toda a casa. Chamou o pessoal
da redondeza para,
juntos, esperar
o cair da noite
e constatar que
o Coronel não
era o proprietário
exclusivo da luz.
A escuridão chegou e, para
a suprema humilhação
de Dario, as lâmpadas não se acenderam.
Mas ele não se deu por
vencido. Iria mostrar a todos
outra maravilha
do mundo moderno,
o rádio, “falador
que nem
o do meu Compadre
Raimundo”, como ele
também exigira da moça
da loja lá
em
São Luís. O pessoal se reuniu para ouvir o rádio falador pela primeira vez. O
incrédulo Chico Mucura resmungou duvidar
muito que aquela caixa
preta falasse, que
quem fala
é gente, que
esse negócio
de coisa falar é arte do demo. O tempo passava e parecia dar
razão a Chico, pois
dali só saía o barulho
das ondas hertzianas e nada do bicho falar. Com os sinais de impaciência
e incredulidade, Dario resolve dar uma satisfação:
Pessoal, é que agora o meu Compadre Raimundo deve tá ouvindo o dele lá. Vamos esperar mais um
pouquinho. Quando o dele lá se calar, vocês vão ver
aqui o nosso bichinho falar que nem um papagaio!
Mas Dario Mandu ainda não estava satisfeito.
Fez outra viagem à capital,
desta vez para
comprar um ventilador.
- Moça,
eu também
quero um ventilador
percurador que nem
o do meu compadre
Raimundo.
- Como
assim, percurador?
- Um
desses que ficam percurando a gente.
E, para
não restar dúvida, fez com
as mãos o movimento
lateral do ir
e vir dos ventiladores
giratórios.
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