terça-feira, dezembro 22, 2015

NOVOS POEMAS

NOVOS POEMAS


O NASCIMENTO DO DIA

Já havia clarões dentro da noite,

embora a grande escuridão cobrisse a Terra

com sua negra manta,

tecida com as linhas do medo

e os retalhos da desesperança.

O trem do tempo corria lento, ao longe,

aproximava-se de nós

pelos trilhos da madrugada.

Já havia outros ruídos, poucos,

como o trinado de um curió,

o choro ao longe de uma criança

e os gemidos de dois amantes.

Foi quando o albor tornou-se aurora

e o sangue do dia

jorrou do horizonte.

Nascido, o dia chorou pela primeira vez.

Tinha bom peso e altura.

Foi batizado de Amanhã.



O VIAJANTE

Não passo.

Moro no caminho.



NOITE AMOROSA

O dia já nasceu.

Mas ainda estamos

noturnos.



OS CINCO SEGUNDOS

Por um breve instante

tudo ficou no seu lugar:

a luminária branca contra o teto branco,

o ventilador cumprindo o seu ofício de girar,

relógio, óculos, iPhone, carteira de documentos

sobre a mesa calma

e lá fora o dia nascendo

como uma máquina afinada

disparando seus sons, suas luzes,

fabricando o dia,

tela branca onde poderia pintar

todos os quadros,

escrever todos os livros,

reinventar o mundo.

Eu me balançava na cadeira de balanço

quando, por cinco segundos,

tudo ficou no seu lugar.

Até eu, que ando sempre fora do lugar,

integrei-me às coisas e ao mundo.

Mas foram apenas cinco segundos.

Logo, levantei- me, tomei um café,

acendi um cigarro e imergi

na restaurada confusão da casa

e do universo.

Lá fora, o sol nascia,

doloroso e belo,

reinaugurando a miséria da vida.




OS DIAS E SUAS NOITES

A segunda-feira reinaugura a semana

Os passarinhos reinauguram o dia

E cantam obstinados sua presença no mundo

Enquanto os homens prosseguem em seus equívocos

E em sua insensata esperança

 Estes dias passarão

Como passaram os da última semana

Carregando-nos em seus barcos velozes

Rumo ao inatingível horizonte

Maio se foi com com suas luzes

Antes que o fotografássemos

Que dele guardássemos uma lembrança

Para nos consolar na travessia

Dos meses tristes que virão

O rio de Heráclito prossegue

Em seu curso, indiferente

Ao nosso temor de que por ele

Jamais voltaremos a passar

À sua margem seguimos cabisbaixos

Com o andar cada vez mais pesado

Pelo fardo dos dias e suas noites

Os nossos mortos se acumulam

Como guimbas de cigarro num cinzeiro

Ou como a louça suja na cozinha

Os dias se acumulam

Em nossos próprios corpos

Trazendo rugas e saudades

Cabelos brancos e a certeza

De que deles não poderemos

Na pia ou na lixeira nos livrar

E embora haja luz e azul

Nesta bela manhã

Que o morto em nós

Ainda contempla

A segunda-feira nos dói

Como uma artrose aguda

Na cervical do tempo

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