domingo, dezembro 02, 2012


ABANDONO

Agora, tu lerás todos os manuais,
aprenderás a cortar as unhas da mão direita,
a coar o café com mãos alegres
e a catar no chão as impurezas
do que tu mesmo fizeres.
As canções de Caetano não serão compartilhadas
e os poemas de Cabral encontrarão, enfim,
uma plateia sua.
Ninguém porá os envelopes no canto certo da mesa
e não terás a quem acusar pela chave perdida.
Terás que procurá-la, com os olhos bem abertos
e o coração tranquilo.
Mas não te iludas:
haverás de chorar sozinho no banheiro,
onde é mais humilhante chorar.
Tomarás teu banho, mas tua limpeza
não poderá docemente se sujar no mel dela.
Todo e qualquer perfume que se desprender do teu corpo
será cheirado pelos insetos que habitarem a casa,
porque até o teu olfato terá  te abandonado.
Aprenderás, por fim,
a domar os tigres da solidão
no circo onde serás domador
e plateia.



REAPRENDIZADO

Será  preciso observar
com inocência apaixonada
o chão em que teus pés caminham,
cada rachadura da calçada
e cada ruga nos rostos dos velhos que passarem.
Será preciso distinguir as cores de tons muito parecidos
e nomear com precisão as árvores e os bichos.
Será  preciso procurar pacientemente palavras nos dicionários
e estudar português como língua estrangeira.
(Isto é uma mesa? Sim, isto é uma mesa).
Será  preciso também lançar um olhar inaugural
sobre teus próprios olhos
no aço objetivíssimo do espelho.
Reaprender a conhecer pelo tato
a superfície de cada fruta
e discernir um por um os instrumentos da orquestra.
Quando, por fim, calculares a idade do vinho
pela língua e souberes o nome da flor pelo cheiro,
então estarás preparado para amar
em todos os sentidos.


(do livro "A Camisa no Varal")

quarta-feira, novembro 14, 2012




 
Foto de Betania Pinheiro

                                           Foto de Claudio Ribeiro



TEMPO TURIENSE


Turiaçu é onde o sol se põe
e, mais que isso, onde nasce
graúdo
sobre a cerca , no quintal.
Turiaçu é aqui,
onde quer que eu esteja.
Onde haverá sempre uma cerca e um quintal,
a lama do apicum povoada de caranguejos
e sonhos. E todo sonho é no
Turi. Seu palco e locação,
referência sempiterna.
Turiaçu é onde os pontos cardeais têm ponto certo:
o leste na ponta do nariz,
o norte, sul, oeste
e ser feliz
é antever o sol
no canto do galo e no cheiro das manhãs.
Turiaçu é quando, como, porquê.
É onde
está tudo, miniatura do mundo:
o prefeito, o padre, o padeiro
e Deus,
que é turiense,
senhor dos seus céus  
que se estendem do Castanhal ao Canário,
do Alto de São Benedito ao outro lado do rio.
Turiaçu é o rio, o Rio
sem nome
fluindo
sem memória
as águas
e os dias
quente-úmidos
do tempo turiense.

A vida por aqui passa mais lenta.
A maior aventura é descer de bicicleta a Rua Nova e
seus perigos. Curvas e medos.
Ir pra missa, comer Cristo, o gosto puríssimo
e branco, luminoso.
Declinar todo pecado,
dormir em estado de graça,
alma limpa, corpo cristalino.
A vida por aqui passa mais lenta:
o velho relógio na parede é que ordena
a hora do almoço,
a mesa posta de cambéua gorda,
gordo colo da tia
onde repouso uma infinita preguiça
de meio-dia.
Turiaçu é a casa da tia,
coisas antigas no mesmíssimo lugar
muitos anos,
quartos escuros,
grandes varandas, onde redes
armadas ao vento
balançam
infantes fantasias.
Turiaçu é a vida subterrânea
pulsando  outras vidas, fabricando seus sonhos:
o pai cavalgando meus dias atuais,
imenso e morto.
Turiaçu é mais que uma cidade perdida
em um ponto qualquer do litoral
norte do Brasil,
entre igarapés e lama,
sob chuva e sol,
o Equador.
Turiaçu é a cidade perdida
em um ponto qualquer desta memória
estendendo suas ruas e praças em meu corpo,
o rio nas veias,
a terra devorando
a carne do poeta.

Vinte anos depois,
à margem de outro rio, o sol se põe.
Anoitece no Turi,
dentro de mim.


URUBU

Na ociosa tarde turiense,
olhos espreitam a cerca, o quintal,
os urubus.
Os urubus, dizem, têm vida longa.
Longa, portanto, será a brincadeira.
O anzol, isca de carne podre, fio de quitanda.
tudo o que é preciso.
A negra constelação se espalha pela cerca.
alguns cercam o anzol.
O mais negro, o mais feio, o mais urubu
é escolhido.
Olhos no alvo negro, negro, semovente.
Firmes na mão
os instrumentos: o fio
e a maldade.
E puxa-se o barbante.
No instante fatal, isca mordida,
os infernais infantes gritam em coro
sua conquista.
Começa a procissão: o urubu passeia
pelas ruas sua desgraça.
Prossegue a procissão: os pequeninos e sua presa
passam pela praça, pela igreja, pela casa
dos padres, pecadores.
Pedradas, pauladas, pontapés.
O ritual culmina:
estopa no rabo,
fogo na estopa.
E o urubu sobe aos céus
em labaredas.


A CASA DE BIBIA

Silêncio e poeira habitam a casa de Bibia,
plantada na beira do rio,
mais antiga que o rio.
Poeira e silêncio cheirando a naftalina
nas antigas roupas dela e de Sabino.
A casa
guarda as suas vidas, velhas e mesmas,
que fizeram deles viúvos um do outro.
A casa de Bibia é atemporal,
museu de um mundo anterior
à geração mais nova da família.
o velho rádio invade pela casa o mundo novo,
as primeiras notas do rock´n roll
e faz Bibia consumir Melhoral,
que é melhor e não faz mal.
Mas quando, às dez horas, vai-se embora
a luz elétrica,
voltam as sombras a cobrir o baú
que o mito muito antigo na cidade
diz estar cheio de ouro e de dinheiro.
As sombras voltam a cobrir as cascas secas de laranja
enroladas no telhado,
o petisqueiro guardando os seus cristais.
as lembranças vivem na casa de Bibia.
Sabino foi palhaço de circo e fala inglês,
Bibia foi madame e rica em Paris
e hoje lava, no mesmíssimo dia da semana,
seus longos cabelos brancos
nas águas do tempo turiense.




REGISTRO

Todas as noites viajo a Turiaçu
para fazer meu inventário de perdas.
Vou ao cartório do velho Teixeira
e ali enumero,
entre um soluço e uma lágrima,
os nomes dos peixes
e os meus brinquedos, inclusive a bicicleta,
veloz e brilhante como a luz do meio-dia
incidindo sobre nossos telhados.
Recito quintais (com seus banheiros
distantes da casa) e a constelação
das coisas miúdas habitantes do chão.
Formigas, grãos de milho esquecidos pelas galinhas,
pedaços coloridos de matéria plástica,
estrelas refletidas nas poças d' água
da chuva breve e abundante
da tarde ensolarada.
O velho tabelião discute comigo
a necessidade dessa inútil cantilena.
Mas exijo dele o registro de tudo
nas folhas exatas de papel almaço.
Quero tudo anotado com sua letra caprichada,
de perfeita caligrafia:
a voz de meu pai
me chamando bem cedinho na manhã
para irmos colher o pão ainda quente
na padaria que ele montou para isso
e nunca lhe deu lucro algum.
A caixinha de música da minha mãe
- onde dançava a bailarina -
que saía da gaveta da cômoda
em momentos muito especiais.
Reitero meu pedido em registrar o ir e vir das marés
e o velho Teixeira ri da impossibilidade de tal pedido.
Depois, estou nas ruas querendo fotografar tudo,
mas tudo se perdeu.
Volto da viagem carregando a lista imensa.
E nas noites vazias deste tempo
é ela que me orienta.






TEMPO TURISTA

Quem nasce no Turi
é turiense ou turista?
É um lugar de se nascer, ali,
ou é ali uma pista
de onde se lançar ao mundo?
De onde, por incapaz de ser
lugar onde criar-se, ir fundo,
que partir-se pra viver?
Quem nasce no Turi
é turiense e turista.
Por isso, o que aprendi:
que, enfim, toda conquista
é apenas milhas da viagem
que se faz pela memória.
E que, por mais turista,
sempre a mesma paisagem
(a do Turi) ilustra minha história.


DA MINHA TERRA
(Música de Nilson Chaves)

te trago da minha terra
o que ela tem de melhor
um doce de bacuri
e um curió cantador
trago da minha cidade
tudo o que deixei
numa das mãos a vontade
e na noutra o que sei
e eu sei tão pouco menina
desse planeta azul
sei por exemplo que o norte
fica pros lados do sul
sei que o rio de janeiro
deságua em turiaçu
sei que você é pra mim
o que o ar é pro urubu

te trago da minha terra
o que ela tem de melhor
tigela de açaí
bumba-meu-boi dançador
trago da minha cidade
tudo o que deixei
dentro do bolso a saudade
e na mala o que sonhei
e eu sonhei tanto menina
londrestocolmoestambul
sonhei new york e caracas
roma paris e seul
mas hoje o rio de janeiro
ainda é turiaçu
você pra mim é
leste oeste norte sul




DUAS PRAIAS
(Música de Nilson Chaves)

havia duas praias
em que meu pai sempre falava
uma era cunhã-coema
e a outra era sababa

nunca as vi nunca fui   
e no entanto as dunas altas
naquilo que ele falava
e no entanto o sol brilhando
na sua voz tão forte e clara

havia cunhã-coema
e havia também sababa

de turiaçu ele ia
de barco para essas praias
muitas horas de viagem
o sol batendo em sua cara
quando voltava pra casa
sua luz ainda ali estava
seus gestos cheiravam a sal
tinham areia suas palavras

meu pai era todo praia

sababa cunhã coema
cunhã-coema sababa


TURIAÇU NO GOOGLE

No trapiche da Goiabeira,
o mundo não ia além do rio,
do rio ali, do rio além,  do rio Turi.
E eu ali na beira, como agora aqui
no google.
Nada mudou.

Por mais que eu possa abrir o zoom
e ver pra muito além do apicum,
estou ali naquela manchazinha
entre o verde e o azul,
que vejo agora em frente ao computador.

Sedendo e mirando interminati spazi di là da quella,
me deparei com ela:
Turiaçu.

segunda-feira, setembro 24, 2012



A PRIMAVERA DE 1980

Não sabeis que vosso filho
saltou para dentro da vida?”

João Cabral de Melo Neto

Na primavera de 1980,
um homem se reinventa
e tenta o adiado salto.
Um homem pensa alto
na primavera de 80:
não se contenta com o tempo
que massacrou as flores
de outras primaveras.

Não se contenta com os maios
que não explodiram suas flores.
Busca um setembro liberto
reaberto aos odores
que novos ventos trarão:
de chão molhado de chuva,
de ar puro das montanhas,
de vagina e de jasmim.

Na primavera de 80
um homem olha para si,
para o seu corpo que é belo
à luz concisa do dia
e vai descobrindo as formas
que se mantinham escondidas
sob as vestes do inverno:
o sexo, o olho, a barriga,
as mãos que desenham um gesto,
os pés que percorrem a vida.

Na primavera de 80
um homem se reinventa
e tenta o preterido ato,
avesso de um salto
num trajeto suicida:
fabricar um novo tempo,
mudar o rumo do vento,
saltar pra dentro da vida.

domingo, maio 13, 2012

DOMINGOS MARREIROS, 463


DOMINGOS MARREIROS, 463

Por oito anos me abrigaste
e entre tuas paredes
(que ainda guardam os sons, as sombras, os gestos
de uma tarde perdida no tempo)
construí, pedra por pedra,
parede por parede,
esta saudade.

Sob teu teto, meu corpo,
com suas pernas e braços,
percorreu quilômetros entre a cozinha e a sala
caminhando para o dia de hoje,
longe da derradeira noite
passada no “Cubículo”.
Ali, no exíguo espaço onde o mundo inteiro cabia
na enciclopédia pousada sobre a estante,
viajei pelos cinco continentes
e pelos ventres molhados das mulheres que amei.
Onde estão a cama, a estante, a escrivaninha?
Como salvar do tempo, não os livros e os discos,
mas a inquietação das leituras
e a guitarra de Hendrix alvoroçando a alma,
incomodando todos os vizinhos?

Em círculos concêntricos, minha memória hoje te visita
e é (aqui), neste espaço de tão poucos metros,
que esta viagem se torna irredutível.
Em volta, os outros cômodos:
os quartos da mãe e dos irmãos, os seus limites,
o banheiro onde o cheiro da família recendia nas toalhas,
a conversa dos talheres na sala de jantar,
o arroz queimando na cozinha as nossas vidas
e o quintal, o quintal onde as roupas estendidas
secavam ao sol, vestindo o vento.

Domingos Marreiros, 463,
foste mais que abrigo e residência,
foste porto seguro
onde tantas vezes atraquei meus sonhos
e minha embriaguez, nas noites quentes de Belém
e suas ruas que sempre me levavam a ti
(como se leva no ombro um amigo ébrio)

Domingos Marreiros, 463,
muito eu me mudei de ti,
mas é ainda meu endereço

terça-feira, maio 01, 2012

4 vezes Zezé


4 VEZES ZEZÉ


Refrão

A derradeira mulher
da minha vida,
meu Z,
meu zero,
marca do Zorro,
ponto de partida.


Z

Zezé,
você é
duas vezes
a marca do Zorro.
Numa delas eu nasço
noutra delas eu morro.


Cantada

Mulheres, as tive
de A a Z.
Agora é Z1, Z2, Z3,
todas você,
Zezé.


Multiplicação

Zezé, que sejas sempre assim:
zeros que se multiplicam
à direita de mim.

PRIMEIRO DE MAIO


PRIMEIRO DE MAIO

Amanhece.
Maio ainda nem me conhece.
           Quem é esse?
Me apresento numa prece:
sou teu servo, maio,
aquele que há meses
a esperança
nos teus dia tece.

Aqui estava,
pronto para o que viesse,
pronto para atravessar
teus dias luminosos.
Aqui estou.
           Floresce!

UMA VIAGEM DURA PARA SEMPRE



UMA VIAGEM DURA PARA SEMPRE

Viajar é sair do modo automático da vida. E é fazer isso de forma voluntária. É lançar-se no novo e no desconhecido com passagem de volta, reservas de hotel e seguro de sáude.

***

Levarei para passear como companheiros de viagem todos os meus males. Bem que eu gostaria que eles fossem para um destino e eu para outro. Mas teremos de ir juntos. E teremos de nos transformar juntos. Esquecerei um pouco deles por algum tempo e espero que eles se esqueçam um pouco também de mim.   

***

Numa viagem quase tudo serve para enriquecer nossa memória. Até as coisas erradas e os  imprevistos desagradáveis  que nos acontecem. Bagagens extraviadas, caminhos errados, brigas com o companheiro de viagem ou, o pior dos terrores, um passaporte perdido. Assim como os momentos sublimes, essas coisas indesejadas também aumentam nossa, digamos, bagagem existencial. (Certa vez fui preso ao entrar na França, vindo de Amsterdam. Portava uma substância comprada legalmente na capital holandesa, que subitamente se tornou ilegal ao atravessar a fronteira. Não vou contar aqui essa longa e sofrida história. Menciona-a apenas para lembrar o que me disse um amigo. Que aquele dia na cadeia foi o serviço militar que nunca prestei.)

A viagem começa antes da viagem, com o planejamento dela, e continua para sempre. Porque  toda viagem é que é para sempre, não um diamante, como dizia um slogan publicitário. O diamante podemos perder ou podem os roubar. Mas uma viagem fica guardada no cofre forte e inexpugnável da memória. Mal chegamos de volta, já começa uma outra viagem.

Com o passar do tempo, ela vai melhorando, à proporção que a vamos editando na memória e a vamos transformando num compacto, num programa “Os Melhores Momentos”. Deles estão cortados os contratempos e os tempos mortos. Nessa viagem, não há longas esperas nos aeroportos, não preenchemos fichas nas recepções dos hotéis, nem entramos na fila da alfândega e da Imigração. Só fica o susto do novo, momentos como aquele em que, ao estarmos meio perdidos vagando pelas ruas de Roma, dobramos uma esquina e damos de cara com a Fontana de Trevi. Só resta o sabor do vinho tomado naquela pequena aldeia de pescadores no Algarve enquanto esperamos pela chegada do melhor peixe que já comemos na vida. Só permanece o cair do sol sobre os canais de Veneza, essas ruas líquidas, esses caminhos que caminham.

***

O país distante
de onde há pouco vim
já anda a todo instante
a passear por mim

***

Viajar era uma experiência mais funda no tempo em que só havia as cartas. Ou até mesmo no tempo mais recente em que só tínhamos o telefone e telefonar era uma operação complicada.

Esse caráter de exílio voluntário está se perdendo com o telefonema fácil e mais ainda com os iPhones e iPads , com a internet que nos mantém ligados ao lugar de onde saímos. Tornam a viagem menos viagem, retiram dela um pouco daquilo que a define, esse ir-se para outros lugares ao encontro do inesperado e do nunca visto. Conectados na internet, permanecemos ancorados em casa. Os mares nunca dantes navegados deixam um pouco de sê-lo nas navegações no google, antes mesmo da viagem, a bordo da  grande e ubíqua caravela internáutica. Vemos no google view a fachada do hotel em que ficaremos muito antes de lá chegarmos. Dá-se, assim, o esvaziamento da surpresa, o encolhimento da novidade, a diminuição do teor de espanto.

Mas nada disso nos tira o prazer de viver o novo ao vivo, com seus sons e cores, sabores e aromas, imersos na estrangeira realidade. Viajar é sempre uma aventura. E, mais que um diamante, uma viagem dura para sempre.