UMA VELHA FOTO RECORTADA DE UM JORNAL
A fotografia é mesmo uma magia e pode até ser um milagre. Hoje aconteceu um. Vi pela primeira vez, num velho recorte já esmaecido de jornal, de apenas uns quatro centímetros quadrados, o rosto sorridente de uma moça bonita, por quem me apaixonei perdidamente à primeira vista. Era apenas um pedacinho de papel. Fotografei-o com meu iPhone, editei a foto sem usar nenhum recurso além do recorte e agora o contemplo com um amor desmedido. Era apenas um pedacinho de papel com uma foto em preto e branco, mas dele saltava o sorriso de cores infinitas da juventude, que permanece na tela do tablet que meu olhar agora sobrevoa. De repente, sou jovem de novo e quero conquistar essa moça, namorar com ela, pedi-la em casamento, ficar ao seu lado pelo resto da vida. Mas isso não é possível, sou muito mais velho que ela, não terei chance alguma. Preciso sair desse sonho insensato. Mas aí acontece o milagre. Num corte veloz, o tempo passa sobre essa imagem e atravessa décadas. A moça está do meu lado, viva, com o mesmo sorriso, mas agora num rosto de mulher madura, não menos bela que a jovem por quem me apaixonei. Posso abraçá-la, beijá-la, falar com ela e ouvir sua voz. Descubro, orgulhoso, que a conquistei. Trinta, trinta anos se passaram. Eu sou seu marido. Ela é minha mulher.
(13/08/15)
FLUZÃO E PAPÃO: POR QUEM TORCER?
Sudestinos e sulistas só têm um time de coração. Nordestinos e nortistas torcem por dois: o modesto clube local, da segunda divisão pra baixo, e outro do eixo Rio-São Paulo, clube grande de expressão nacional, quase sempre atuando na primeira divisão. É assim, isso é cultural e não adianta esse papo de cariocas e paulistas de que só se torce por um time. Nós, da parte de cima do mapa, torcemos por dois. E pela vida inteira, mesmo que tenhamos imigrado há muito tempo para o "Sul Maravilha" (bota aspas nisso!), continuamos com o nosso amor intacto pelo esquadrão conterrâneo.
Meu filho carioca, tricolor roxo que acha inconcebível torcer por outro time que não o Flu, me lançou a pergunta terrível: por quem eu iria torcer no próximo dia 19, quando, em pleno Maracanã, confrontar-se-ão o Paysandu Sport Club e o Fluminense Football Club, nas oitavas de final da Copa Brasil?
Antes de lhe dar a resposta, fiz a mim mesmo algumas perguntas. O que nos leva a eleger um time, e não outro, para torcer? Que acontecimento em nossa trajetória fez com que nos tornássemos tricolores e não vascaínos, botafoguenses e não flamenguistas? Por que a filiação a um time, no que tem de entusiasmo fiel, guarda parentesco com a posição política, com a fé religiosa (ou sua ausência) e com as opções e predileções em geral?
Me tornei Papão logo ao chegar a Belém, aos 15 anos, idade a partir da qual comecei a gostar de futebol. Foi também quando, depois de intensa religiosidade (queria ser padre) , me tornei ateu e comunista fervoroso. Talvez haja relação entre essas coisas, pois o Paysandu tinha uma torcida de gente mais humilde, enquanto o Remo era mais elitista. Mas certamente houve influência dos novos amigos, todos mais velhos. Gente da pesada como o poeta Ruy Barata, com quem fui pela primeira vez ao estádio da Curuzu, ver um Re-Pa, o clássico da Amazônia. Um lindo gol de Quarentinha nos deu a vitória.
Mas antes disso tudo, já era Fluminense de coração, por influência de um primo mais velho de São Luís. Nunca esqueço de suas lágrimas, enxugadas com a camisa bonita que ele usava, por causa do que o rádio anunciava impiedoso. Com uma derrota, quem diria, nascia um novo tricolor.
Tentei dar respostas espirituosas ao meu filho, quando me perguntou por quem vou torcer no dia 19. Coisas como "para o Flu no primeiro e para o Paysandu no segundo tempo". Mas não é nada disso. Quando o juiz apitar e a bola começar a rolar no gramado, duas das três cores vão se apagar lentamente no meu coração, só restando o branco. E a ele virá se juntar um azul celeste celestial.
(06/08/15)
QWERTYUIOP
Depois de piano e violão, o curso que mais gostaria de ter feito na vida é o de datilografia. Bater rápido, sem olhar pro teclado, usar o dedo mindinho pra teclar o A... Que maravilha!
Ao contrário do de piano e do de violão, o de datilografia teria sido rápido e fácil. E jamais ficaria obsoleta essa habilidade: o teclado do computador é igual. Mas sigo catando milho, mais rápido, é verdade, do que quando entrei numa redação de jornal aos 18 anos e era sacaneado pelos mais velhos.
Mal passei da condição de foca, me bandeei para a publicidade. (Não por vocação, mas porque dava mais dinheiro.) Os textos curtos da publicidade não ajudaram muito a exercitar uma escrita mais rápida e sem erros. Continuei catando milho. Uso quatro dedos, mais os dedões pra espacejar. Sei de gente boa que só usa os indicativos e, no entanto, batuca nas teclas com espantosa velocidade. Parece que o Nelson Rodrigues era assim. Mas eu não sou o Nelson Rodrigues, ai de mim!
Em penas de ganso, cisne e pato, durante dois milênios, muita gente boa escreveu coisas como A Divina Comédia, Os Lusíadas e Dom Quixote, Hamlet e um colossal etc. Penosamente, tinham que levar a pena ao tinteiro o tempo todo, sob a precária luz de velas.
"Foutre ton encrier!" - aconselhava Flaubert aos escritores. Como no Facebook é aconselhável usar o linguajar que se usa na sala de uma casa de família, sugiro consulta a um dicionário de francês. A frase expressa bem o corpo a corpo entre escriba e seus instrumentos de trabalho antes da invenção da máquina de escrever. E pensar que não concebemos mais escrever qualquer coisa que não seja no computador.
Entre as muitas histórias pitorescas de Adolpho Bloch, há uma exemplar. Cobrou de um fotógrafo melhores fotos e ele respondeu que sua máquina era velha e antiquada. E o velho jornalista empresário mandou na bucha: “Quer dizer que se eu lhe der uma caneta Parker de ouro você vai escrever melhor do que o Machado de Assis?”
Hoje a minha máquina de escrever Olivetti Lettera 22 cor de abacate mora num depósito de coisas velhas num pequeno cômodo da minha casinha nas montanhas. Não escrevi nada que chegue aos pés das Memórias Póstumas de Brás Cubas, mas foi com ela e o ardor da juventude que fabriquei meus melhores textos.
PARA ONDE VÃO AS COISAS QUE PERDEMOS?
Só hoje, perdi meus óculos escuros, uma caneta que acendia uma luzinha na ponta, presente de um amigo, um isqueiro que tinha acabado de comprar e, por fim, a esperança de encontrá-los.
Ultimamente, além de estarem se passando muitos anos, as coisas deram pra se perder com uma desenvoltura nunca vista. Tudo bem, certas coisas trazem em si a vocação para o sumiço. É da natureza delas. Isqueiros, chaves, canetas, documentos, guarda-chuvas, lembranças, tempo. Não lembro mais quem disse, mas este último é único inimigo que ataca fugindo.
Ultimamente, até coisas que não costumavam me abandonar, já que fazem parte de mim, como os óculos ( acho que nasci de óculos — eu sempre fui assim),
vão para longe dos meus olhos, que vagueiam míopes e em vão em busca deles pela casa.
Os guarda-chuvas, por exemplo, já trazem em sua própria anatomia o desejo de fugir. O abrir e fechar de suas negras asas ( nem todo guarda-chuva é negro, mas os desta cor são os mais fujões) lembram asas de pássaros prestes a voar para bem longe. Sua migração ocorre preferencialmente em dias chuvosos.
E as canetas? Para onde vão as canetas? Quando não saem à francesa, ficam nuas na festa, despidas de suas tampas, se tampas têm. Estas vão embora sozinhas, quando não são as canetas inteiras que se mandam para escrever sua própria história em outra freguesia, cansadas de serem apenas instrumentos nas mãos do dono. (Alguém na vida já viu uma caneta Bic totalmente usada, zerada de tinta?)
Os isqueiros, muito antes de acabar seu fluido, usam o que resta para se lançarem como um foguete rumo ao espaço sideral.
O poeta Mario Quintana (lembrei!) disse nuns versos ter descoberto de que são formados os anéis de Saturno. Eles são formados por esses objetos que perdemos no dia a dia!
Mas tenho a impressão que estão reunidos em algum lugar bem escondido, só nos observando de lá, se divertindo, rindo da nossa cara.
APOSENTADO
Este é o meu primeiro feriadão como aposentado. E pela primeira vez na vida, o feriadão inverte o seu significado: ao invés de ser um período para se fazer uma pequena viagem e (pretensamente) ir descansar numa praia ou num recanto da serra, agora é o momento ideal para se ficar na cidade e, de preferência, não sair de casa.
Estradas engarrafadas? Filas mais longas nos cinemas e restaurantes? Falta de vagas nas pousadas? Muvuca e multidões nos pontos turísticos?
Seus problemas acabaram!
Aposente-se e se livre dessas coisas desagradáveis. Agora você pode ficar em casa, sem aquela aflitiva sensação de que está desperdiçando uma oportunidade de se divertir pra valer. Agora, cinema só no meio da semana, sem filas e com ingressos mais baratos. Agora, as estradas estarão mais livres à frente do seu carro. As pousadas terão desconto de segunda a quinta. Os restaurantes terão sempre uma mesa disponível e o garçom estará menos estressado para lhe atender melhor.
Com aposentadoria, muitas outras coisas vão mudar pra melhor. Você vai poder assistir à sessão da tarde sem aquele sentimento de culpa e ouvir a musiquinha do Fantástico sem aquela aflitiva sensação de que a segunda- feira se aproxima como um trem carregado de pepinos e de abacaxis pra você descascar.
Descubra muitas outras vantagens para usufruir adquirindo a sua própria aposentadoria. Você vai descobrir que lhe aguardam coisas bem melhores que jogar dominó na pracinha com os outros coroas desocupados.
Como fazer para ter tudo isso? É muito fácil. Trabalhe ininterruptamente, todos os santos dias úteis da semana, oito horas por dia (é apenas a metade da sua vida acordada!) por pelo menos 35 anos, com carteira assinada e pagando todo mês o INSS. Ah! Só mais uma coisinha: se vire pra sobrar um dinheiro pra pagar todo mês, em todos esses anos, uma previdência privada ou, se preferir, fazer aplicações financeiras. (Ou você acha que vai conseguir viver com a merreca do INSS?!)
Garanta o seu direito de um dia poder passar a madrugada jogando no computador e acordar mais tarde na quarta-feira. Aposente-se.