segunda-feira, junho 17, 2013

Os haicais que postei fazem parte de uma série batizada de “Haicais Locais”, em que sigo o modelo bem brasileiro (e que tem em Millôr Fernandes um mestre) de três versos de medidas várias, com o primeiro rimando com o terceiro. A esse modelo acrescentei o título, que é parte, mais que integrante, complementar, do poema. Seguindo o espírito lúdico (de jogo com parceiros, jogo de salão) que está nas origens da forma japonesa, alguns foram feitos a partir de títulos dados aleatoriamente por amigos e escritos instantaneamente, como “Meia Dúzia de Poemas-Relâmpago”, que consta do “A Camisa no Varal”. O título alude ao fato de que são “haicais brasileiros” ou que na verdade não são haicais, mesmo porque não é possível fazê-los em português e no Brasil. É coisa de japonês. Acrescentei também alguns “Quase Haicais”, poemas curtos, mas não tanto. É “quase” porque sobra, não porque falta.  A propósito disto, fiz este:

POEMA LONGO

Deculpa, primavera,
pelo longo poema que te fiz.
Não tive tempo
para fazer-te um haicai.
  

Mais alguns HAICAIS LOCAIS & QUASE HAICAIS

“Não é possível escrever haicais em português”.

Ivan Cavalcanti Proença


UMA TRADUÇÃO DE BASHO

Velha lagoa:
o sapo salta,
a água soa.


TIRO

Disso ninguém duvida:
todo mundo é alvo
de sua própria vida.


!?

Depois de uma reflexão,
não tem tanta certeza
o ponto de exclamação.


O AMOR É CEGO

O porco a porca ama.
E ainda o acha
bom de lama.


MORRO DOIS IRMÃOS

Diante dos teus crepúsculos,
o meu olhar
flexiona seus músculos.


O DONO DA VERDADE

Isso ninguém lhe tira:
sua verdade,
mesmo que mentira.


TRÊS FOLHINHAS

 

Antigamente

O dia sempre vinha
novinho em folha
na folhinha.



Todo santo  dia

Na folhinha, sempre havia
- pois todo dia era santo -
um santo pra cada dia.


Outono

Folhas secas caem, voando,
da folhinha na parede.
É o outono chegando.




TRÊS VEZES ZEZÉ


Refrão

A derradeira mulher
da minha vida,
meu Z,
meu zero,
marca do Zorro,
ponto de partida.


Z

Zezé,
você é
duas vezes
a marca do Zorro.
Numa delas eu nasço
noutra delas eu morro.


Cantada

Mulheres, as tive
de A a Z.
Agora é Z1, Z2, Z3,
todas você,
Zezé.


FOTOGRAFIA

A  morte em nós ainda não nascera.
Éramos eternos ali em frente ao mar.



ANTROPOCENTRISMO

a terra é redonda
para que cada homem seja
o centro do mundo



NOSTALGIA

No passado,
até o futuro
era melhor.



PRECE

Que isto seja
tudo o que possa ser
alguma coisa.