domingo, outubro 02, 2011

CANÇÕES COMENTADAS (6)


CONSTELAÇÃO SENTIMENTAL

(Nilson Chaves – Jamil Damous)


constelação sentimental

meu coração espacial

nave do tempo

guarda bem dentro

todos vocês

todo mundo

todo o mundo

corre no fundo do leito do rio

de janeiro fevereiro março abril

todo mês

todos vocês

no céu da memória

brilha uma estrela uma história

dentro de mim

deserto não repleto sim

sentimental constelação

meu coração tem tanto amor

quanta saudade invade

o espaço interior


constelação sentimental

uma canção especial

leva no vento meu pensamento

a todos vocês

todo mundo

todo o mundo

toda a felicidade

toda e qualquer cidade está

no bar do parque

belém belém belém belém

tudo bem

todos vocês tantas estrelas

olhar pro céu é tê-las

dentro de mim

deserto não repleto sim

sentimental constelação

meu coração tem tanto amor

quanta saudade invade

o espaço interior

No Rio de Janeiro, final da década de 70, começo da de 80, Nilson Chaves, Cristóvam Araújo, eu e outros paraenses estávamos sempre juntos e, juntos, curtíamos as saudades de Belém. É dessa época a belíssima Olho de Boto, poema do Cristóvam musicado por Nilson. Constelação Sentimental é mais uma das canções de saudades de um tempo anterior àquele que a gente vivia. Gosto do verso “toda e qualquer cidade está no Bar do Parque” e da repetição do nome da cidade, tão lindamente cantada pelo Nilson. Por muitos anos, impliquei com o verso “quanta saudade invade meu espaço interior”. Queria tirar o pronome e substituí-lo pelo artigo “o”. Brincava dizendo que parecia coisa de “viado que faz análise”. Mas a canção já estava gravada. De tanto insistir, o Nilson fez a mudança de uma única sílaba e hoje já há gravações com “o espaço interior”. Mas a verdadeira razão da mudança era pra que o verso ficasse em sintonia com os anteriores “canção espacial” e “nave do tempo”. O “espaço interior” aí estaria em oposição a espaço exterior, sideral, reforçando a constelação de metáforas “astronáuticas”.

CANÇÕES COMENTADAS (5)



DAS FRUTAS

(Nilson Chaves – Jamil Damous)


Açaí

Tua boquinha roxinha de paixão

Buriti

Que saudade de ti no maranhão

Murici

Vermelhinho da cor da coração

Bacuri

Fruta-flor puro odor que sensação

Taperebá

Eu agora vou cantar outra ri-

Maracujá

Que é cheirosa e gostosa

Tanto quanto as de acima

Jacajá

De trás pra frente me alucina

Cupuaçu

Tão branquinho na tua língua

Jambocaju

Graviola agudo tom de uma canção

Que tem sabor

Pitanga manga-rosa mangaba e ingá

Pupunha piquiá carambola e araçá

Ajiru biribá tucumã e sapoti

Cajuí bacaba abiu e goiaba

Uma canção de enumeração (quase um gênero, que tem em Passaredo de Chico Buarque sua obra prima), feita numa época em que elas ainda não tinham se tornado tão frequentes na MPB. É também uma canção que enumera frutas (um subgênero?), e nisso se aproxima de Morena Tropicana, de Alceu Valença, embora seja mais antiga. Canções “de fruta” viriam se tornar uma das marcas do Nilson Chaves, que as tem tantas, com destaque para “Açaí”, de parceria com Joãozinho Gomes, talvez o seu maior sucesso. Mas o prazer que eu mais quis desfrutar fazendo essa letra foi o de trabalhar com palavras-valise (portmanteaux), essa invenção de Lewis Carroll que amalgama palavras, multiplicando seus sentidos. O movimento concretista brasileiro fez largo uso das palavras-valise. Caetano Veloso, tão influenciado por esse movimento, é autor de duas obras primas com fato uso dos portmanteaux: Acrilírico e Outras Palavras. Em Das Frutas, vamos encontrar: “jacajá” (jaca+cajá e, num outro nível, aqui e agora), “rimaracujá” e a de que mais gosto: “jambocaju” (jambo+ boca+caju), com a boca dando uma dentada na metade de cada uma das frutas. Tem também a insinuação da palavra “linguagem” que pinta na passagem do verso “tão branquinha na tua língua...” para “... jambocaju”, frisado pela divisão melódica. E a oposição de “agudo tom” ao “grave” contido em “graviola”.

CANÇÕES COMENTADAS (3)


LUA DE LUMIAR

(Nilson Chaves – Jamil Damous)

a lua de lumiar

lua que nunca vi

ilumina todo o mar

da praia de araçagi


ilumina as dunas calmas

da praia do atalaia

ilumina nossas almas

minha calça tua saia


essa lua que só brilha

quando nela você fala

traz o mar e traz a ilha

para dentro desta sala


é uma lua quase cheia

feito a felicidade

é uma lua quase meia

inteira em sua metade


metade que só eu vejo

e outra que só você

juntos vemos num lampejo

a lua que não se vê


a lua de lumiar

a lua de são luís

a lua de se chorar

a lua de ser feliz

Ao lado de “Gó” e “Da minha Terra”, é das mais queridas. Pode não ser a melhor melodia do Nilson nem minha melhor letra, mas é a parceria mais bem sucedida. Redondinha. Como a lua.

CANÇÕES COMENTADAS (2)

DA MINHA TERRA

(Nilson Chaves – Jamil Damous)

te trago da minha terra

o que ela tem de melhor

um doce de bacuri

e um curió cantador

trago da minha cidade

tudo o que lá deixei

numa das mãos a vontade

e na noutra o que sei

e eu sei tão pouco menina

desse planeta azul

sei por exemplo que o norte

fica pros lados do sul

sei que o rio de janeiro

deságua em turiaçu

sei que você é pra mim

o que o ar é pro urubu


te trago da minha terra

o que ela tem de melhor

tigela de açaí

bumba-meu-boi dançador

trago da minha cidade

tudo o que lá deixei

dentro do bolso a saudade

e na mala o que sonhei

e eu sonhei tanto menina

londrestocolmoistambul

sonhei new york e caracas

roma paris e seul

mas hoje o rio de janeiro

ainda é turiaçu

só você pra mim já é

leste oeste norte sul

Deveria se chamar “Das minhas terras”, pois os versos que enumeram as oferendas à musa (cujo nome está camuflado na passagem do penúltimo pro último verso) intercalam coisas típicas do Pará (tigela de açaí, doce de bacuri) com outras do Maranhão (bumba-meu-boi dançador, curió cantador). Mas além de maranhense e paraense, também sou carioca (maparioca). E é no Rio de Janeiro, no tempo presente, que a canção de amor deságua. Regravada por Jane Duboc, Ednardo e outros, é uma das minhas parcerias com Nilson mais conhecidas (acho que só perde pra Toca Tocantins) e, entre estas, a de que mais gosto.

CANÇÕES COMENTADAS (1)

TOCA TOCANTINS

(Nilson Chaves – Jamil Damous)

toca tocantins

tuas águas para o mar

é lá o teu destino

aqui não é teu lugar

que viva o açaizeiro

a arara e o tamuatá

não matem o mato inteiro

não morra o rio guamá

toca tocantins

tuas águas para o mar

os meios não são os fins

por que vão te matar

por que te transformar

em águas assassinas

e nelas afogar a vida?

toca tocantins

tuas águas para o mar

Meses antes do represamento do Rio Tocantins, para a construção da barragem de Tucuruí, programou-se, no Rio de Janeiro, um show-comício em protesto contra os danos que isso traria. Cristóvam Araújo liderava o movimento. A mim e ao compositor Nilson Chaves coube a tarefa de escrever uma canção que marcasse aquele momento. Assim, pode-se dizer, esse foi um trabalho “de encomenda”, embora tenha sido feito com extrema sinceridade e a partir de uma autêntica indignação. O verso “Que viva o açaizeiro, a arara e o tamuatá” emumera seres vivos representantes da terra, do ar e da água – uma árvore (palmeira), uma ave e um peixe. “Não morra o Rio Guamá” refere-se à possibilidade de danos, com o temporário esvaziamento do Tocantins à jusante da barragem, a esse rio que banha Belém – que, felizmente, não aconteceram. Mas no grande lago formado – do tamanho de 14 baías da Guanabara! – um riquíssimo ecossistema foi inundado pelas “águas assassinas”. Muitas espécies vegetais e animais foram destruídas com a inundação. Segundo o cientista Horácio Schneider, da UFPA, uma espécie de macaco entrou em extinção no planeta. Milhões de árvores madeireiras apodreceram sob as águas. É a esse lago que se refere o verso “aqui não é teu lugar”, opondo-o ao mar, destino natural de todo rio. O verso “por que vão te matar” tanto pode ser lido/ouvido como interrogação (“por que vão te matar?”) quanto complemento do verso anterior (os meios não são – não justificam - os fins pelos quais vão te matar). A letra de Toca Tocantins foi construída dentro de um rigoroso esquema métrico. À exceção do primeiro verso do refrão (“toca tocantins”) todos os versos são hexassílabos. O esquema rímico já não é tão rigoroso, mas predominam as rimas alternadas (A-B-A-B). No rítmico, predominam as tônicas incidindo na segunda, quarta e sexta sílabas. A melodia, criada a partir de um texto pronto, reflete o seu tom, que busca o épico, condizente com o acontecimento – um desastre ecológico histórico - que motivou a feitura da canção.

sábado, outubro 01, 2011

CÍRIO NO EXÍLIO

Letra da canção e crônica a partir da qual foi feita




CÍRIO NO EXÍLIO

(Nilson Chaves – Jamil Damous)

outubro, domingo

as folhas do outono caindo

no exílio de um país distante e frio

me lembro que a essa hora vem vindo

numa cidade longínqua do brasil

vem vindo vem vindo

a essa hora sob o sol do equador

o andar o andor o ardor

de tanta gente na manhã quente

tão diferente desta aqui

e sinto frio como se estive ao sol daí

e como um hambúrguer com gosto de tucupi

e onde passas te saúdo e aplaudo e é aqui

é mesmo por aqui que eu sei que passas

no asfalto negro da saudade

nas avenidas de uma outra cidade

eu sei que passas por aqui


e vejo então que não te devo a promessa que fiz

de estar aí em todo círio e ser feliz

distante estou aqui mas hoje bem sei

que não passas só em belém

passas aqui passas aqui também

passas por onde houver um filho teu

todos os teus filhos os crentes e os ateu

eu sei que passas por aqui e quando passas

que lindo


senhora de nazaré

além de toda fé

toda razão

bem dentro do coração

estás em mim e fim

um sim dentro do não


Meus três Círios inesquecíveis

O primeiro, já morava em Belém havia três anos, e nunca tinha saído de casa no segundo domingo de outubro. Jovem rebelde e ateu militante, ficar em casa era um protesto contra aquela “alienação”. Eu não sabia o que estava perdendo.

Nunca esquecerei dessa primeira experiência, de sua alta voltagem emotiva. Não vou me atrever a fazer uma descrição (necessariamente poética) do Círio. Bons poetas paraenses já o fizeram. O Círio é uma vasta experiência. Mas eu reduziria tudo a um único momento. O momento exato em que a santa passa.

No segundo, já não era nem jovem rebelde nem ateu militante, mas este velho e pacato ateu de hoje. E já era um devoto de Nossa Senhora de Nazaré. Fui do Rio, onde moro, passar o Círio. Levei minha mulher paulista e meu filho carioca pela primeira vez a Belém. Dessa vez, acotovelado num janelão da Avenida Nazaré - lugar mais nobre impossível - chorei pra valer e fiz uma promessa. A de todo outubro ir a Belém passar o Círio. Esse era ao mesmo tempo o encargo da promessa e a graça almejada. Ou seja, prometo passar o Círio em Belém se eu puder passar o Círio em Belém. Ou seja, estar vivo. Só isso. Para um portador de uma doença para qual a ciência ainda não encontrou a cura, não é pouca coisa.

Meu terceiro Círio inesquecível foi aquele em que me defrontei com o pagamento da primeira parcela da promessa. Estava em Portland, Maine, nos Estados Unidos. O segundo domingo de outubro se aproximava veloz.

E agora? Nazica vai se aborrecer, pensei. Já me permitia a intimidade de chamá-la pelo apelido. Foi quando me dei conta de que estava subestimando o poder de Nazica. E aí rezei. Nazica, tu és grande demais para só estar numa única cidade do mundo, uma quente e úmida cidade do Norte do Brasil. Nazica, tu estás no mundo inteiro, tu estás aqui, nesta pequena cidade do Maine, nesta fria manhã de outono. E, caminhando sozinho, parei naquela rua cheia de casinhas de tijolos amarelos, e na cinzenta manhã da Nova Inglaterra, Nazica passou. Voltei para a casa dos amigos americanos com a alma limpa, o dever cumprido. Onde comeria no almoço uma deliciosa torta de maçã. Juro que ela tinha gosto de tucupi.