sexta-feira, dezembro 30, 2011

TRÊS POEMAS DE WISLAWA SZYMBORSKA


Tradução de Sylvio Fraga Neto
e Danuta Haczynska da Nóbrega





A CORTESIA DOS CEGOS

O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.

Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.

Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.

Ele lê—pois já não pode parar—
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.

Ele gostaria de omitir—embora seja impossível—
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.

Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.

Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.



A ALEGRIA DE ESCREVER

Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita,
que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade
ele apura as orelhas sob meus dedos.
Silêncio—essa palavra ressoa na textura do papel
e afasta os galhos
que brotam da palavra floresta.

Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.

Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar o cervo e apontar as armas.

Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nem uma folha cairá
e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.

Então existe um mundo
onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Uma existência que, a meu comando, não terá fim?

A alegria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal.


VIETNÃ
Mulher, como te chamas? - Não sei.
Quando nasceste, tua origem? - Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? - Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeste o meu anular? - Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. - Não sei.
De que lado estás? - Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. - Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? - Não sei.
E estas criancas, são tuas? - Sim.








sexta-feira, dezembro 16, 2011

11 POEMAS DE "TEMPO TURISENSE & OUTROS TEMPOS" (1978)



 

TEMPO TURIENSE


Turiaçu é onde o sol se põe
e, mais que isso, onde nasce
graúdo
sobre a cerca , no quintal.
Turiaçu é aqui,
onde quer que eu esteja.
Onde haverá sempre uma cerca e um quintal,
a lama do apicum povoada de caranguejos
e sonhos. E todo sonho é no
Turi. Seu palco e locação,
referência sempiterna.
Turiaçu é onde os pontos cardeais têm ponto certo:
o leste na ponta do nariz,
o norte, sul, oeste
e ser feliz
é antever o sol
no canto do galo e no cheiro das manhãs.
Turiaçu é quando, como, porquê.
É onde
está tudo, miniatura do mundo:
o prefeito, o padre, o padeiro
e Deus,
que é turiense,
senhor dos seus céus  
que se estendem do Castanhal ao Canário,
do Alto de São Benedito ao outro lado do rio.
Turiaçu é o rio, o Rio
sem nome
fluindo
sem memória
as águas
e os dias
quente-úmidos
do tempo turiense.

A vida por aqui passa mais lenta.
A maior aventura é descer de bicicleta a Rua Nova e
seus perigos. Curvas e medos.
Ir pra missa, comer Cristo, o gosto puríssimo
e branco, luminoso.
Declinar todo pecado,
dormir em estado de graça,
alma limpa, corpo cristalino.
A vida por aqui passa mais lenta:
o velho relógio na parede é que ordena
a hora do almoço,
a mesa posta de cambéua gorda,
o  gordo colo da tia
onde repouso uma infinita preguiça
de meio-dia.
Turiaçu é a casa da tia,
coisas antigas no mesmíssimo lugar
há muitos anos,
quartos escuros,
grandes varandas, onde redes
armadas ao vento
balançam
infantes fantasias.
Turiaçu é a vida subterrânea
pulsando  outras vidas, fabricando seus sonhos:
o pai cavalgando meus dias atuais,
imenso e morto.
Turiaçu é mais que uma cidade perdida
em um ponto qualquer do litoral
norte do Brasil,
entre igarapés e lama,
sob chuva e sol,
o Equador.
Turiaçu é a cidade perdida
em um ponto qualquer desta memória
estendendo suas ruas e praças em meu corpo,
o rio nas veias,
a terra devorando
a carne do poeta.

Vinte anos depois,
à margem de outro rio, o sol se põe.
Anoitece no Turi,
dentro de mim.


URUBU

Na ociosa tarde turiense,
olhos espreitam a cerca, o quintal,
os urubus.
Os urubus, dizem, têm vida longa.
Longa, portanto, será a brincadeira.
O anzol, isca de carne podre, fio de quitanda.
tudo o que é preciso.
A negra constelação se espalha pela cerca.
alguns cercam o anzol.
O mais negro, o mais feio, o mais urubu
é escolhido.
Olhos no alvo negro, negro, semovente.
Firmes na mão
os instrumentos: o fio
e a maldade.
E puxa-se o barbante.
No instante fatal, isca mordida,
os infernais infantes gritam em coro
sua conquista.
Começa a procissão: o urubu passeia
pelas ruas sua desgraça.
Prossegue a procissão: os pequeninos e sua presa
passam pela praça, pela igreja, pela casa
dos padres, pecadores.
Pedradas, pauladas, pontapés.
O ritual culmina:
estopa no rabo,
fogo na estopa.
E o urubu sobe aos céus
em labaredas.




GALILEU GALILEI

A terra gira gira gira
gira em torno do sol.
Astro-rei-ressurreição-Galilei.
A verdade gira
com o tempo
como o tempo.
A leve pedra cai. A pesada pedra cai
rumo à verdade.
As pedras caem. Razão.
Galileu negou
porque queria comer ganso,
tinha medo da dor física
e sabia
que a verdade gira,
que a verdade é feita
do tempo.



POEMA POR CAUSA DE UM BEIJO ANDARILHO

Eu fui apenas uma figura a mais no seu caminho
percorrido sozinha e com o mundo
passando pelos seus dias
na mochila entre as Américas.
Eu, cicerone, lhe mostrei apenas que tudo é o mesmo
e que Belém tem para mim o mesmo mistério
de todas as cidades que não conheço.
Por isso, não lhe mostrei o Ver-O-Peso
nem a Praça da República e seus loucos
fugidos dos hospícios.
Fui com ela ao cinema e vi o seu sorriso austríaco
ao ouvir a música de Strauss no filme de Kubrick.
Eu estava me apaixonando por Margot Sluka,
o corpo bonito, a calça Lee desbotada,
um ano e um mês de Américas.
Em sua viagem pelo mundo, 
Margot Sluka  comia e bebia
pouco como um camelo e olhava muito as pessoas
como um gato. Entre seus mistérios e paradoxos
guardados na mochila e nela mesma,
a virgindade. I am as I am. Margot Sluka
não me deu um beijo sequer no dia anterior à
despedida, quando havia entre nós um caminho de
ausência a ausência. Nem lhe disse palavras
de amor, because my English is really very bad
e falo com sotaque turiense.
Porém, na quarta-feira passada,
em meio aos meus compromissos com o mundo,
eu recebi um beijo que ficou parado no ar
como num passe de mágica,
trazendo todas as cidades por onde andou,
um beijo em todas as mil línguas do mundo,
um beijo de despedida e chama deste
desesperadominical poema que ela não vai ler
no seu atemporal domingo das Guianas.


DIA DE FINADOS

Hoje,
não visitarei meus mortos.
Os mortos não habitam cemitérios.
Às vezes,
em dias claros como hoje,
eles é que vêm nos visitar.
E habitar em nós
suas sombras,
perguntas sem respostas,
enigmas e medos.
E nos fazer revisitar
o olvidado corpo, instrumento
de tocar a vida,
máquina de viver.
Às vezes, em dias claros como hoje,
eles vêm visitar em nós,
eternos companheiros da condição humana,
o outro lado sem luz
da lua de existir
e seus mistérios.




INSPIRAÇÃO

Preencher com nada o vazio
e expirar
o ar
modelando em som
o invisível
que signi-
fica na memória.
Processar-se a magia da criação:
Jeová sopra vida em Adão.
E a palavra,
anjo alado,
comunica,
desangustia.


PALAVRADOR

    lavra
            dor
palavra
    lavrador
palavra
           dor




A BARRIGA DO POETA

Esta barriga que se me dependura
por certo não é de nascença
e nem pode ser coisa que dura
a vida toda, assim imensa.
Aliás, esta barriga, não a reconheço
como tal.
É mais um apêndice esquisito,
corpo estranho,
que a cada dia mais me tem pesado.
Não a reconhecerei como barriga.
De agora em diante, fica nomeado:
é coisa de outro mundo,
objeto não identificado.


INVENTÁRIO DOS OBJETOS ENCONTRADOS NA BOLSA DO POETA

Uma caneta Bic escrita fina azul.
Uma maço de cigarros marca Albany
contendo l9 cigarros.
Uma caixa de fósforos marca Olho.
Uma carteira de identidade emitida pela SEGUP-PA,
de número que o poeta nunca conseguiu decorar.
Uma carteira de trabalho
com a assinatura de um emprego
do qual o poeta foi demitido no último dia 26
e onde exercia a função de redator de publicidade.
Uma carteira do CPF cujo número
o poeta nunca irá decorar.
Uma folha de papel tamanho ofício contendo uma tabela
de preços de peças publicitárias para free-lancers.
Duas folhas de papel tamanho ofício contendo o poema Tempo Turiense.
Uma pequena agenda azul com endereços e telefones,
onde não constam telefone ou endereço
de quem poderia vir em seu socorro,
neste momento de profunda solidão.
Uma fita cassete onde está gravada  uma canção
escrita pelo poeta, contendo uma infinita esperança
de tudo dar certo um dia.


PRAÇA DOS TRÊS PODERES

Brasília,
no dia em que meus olhos
te visitaram pela primeira vez
o projeto concreto
à luz do sol do planalto,
meu coração repartiu-se
entre o projeto
e a cidade viva
em movimento.
Diante de meus olhos,
fez-se a alvorada
de formas exatas.
Meus olhos viram,
empoeirado,
o sonho alto de Oscar,
a arquitetura nova
(funcional pois bela)
de futuras formas de viver.
Mas meu coração viu
a triste arquitetura
de vidas desfuncionais e feias
(ofendidas e humilhadas
nos bancos da Rodoviária)
sem qualquer poder
em frente à Praça.




CASA DOS TRINTA

                                                                               Para Aldora Cruz
Quando o mês de junho chega
por uma das muitas portas
que o tempo te vai abrindo
- sem que tal favor lhe peças -
vais entrando em casas novas
que só a custo se habitam.
São casas que a cada ano
mudam de cores, fachadas.
Há as estreitas, escuras,
outras por muitos, diversos,
luas e sóis clareadas.
Mas só de dez em dez anos
habitam-se casas grandes
que, assombradas ou não,
há que vivê-las em largo,
como em teus trinta, mansão.












domingo, dezembro 04, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (7)




R DE REPLETO

Tia Ermelinda não era burra. Muito pelo contrário. Era dotada de sensibilidade artística e uma das poucas pessoas que liam na família. Com frequência viajava a São Luís, para ir ao cinema e fazer compras na Rua Grande. Dizem que tocava piano na juventude, mas, numa desilusão amorosa, jurou nunca mais pôr as mãos num teclado.

Tia Ermelinda não era burra, nem propriamente desligada, mas dotada de uma distração complicada, um desligamento barroco, altamente sofisticado. Como gostava de móveis, resolveu um dia entrar numa loja cuja vitrine anunciava cadeiras de êmbalo. Ela já vira aquela vitrine antes e sempre ficou curiosa para conhecer a cadeira e ficar sabendo o que era êmbalo. Provavelmente uma madeira de lei de que nunca ouvira falar ou talvez um novo tipo de matéria plástica. Até descobrir que ela lera um inexistente acento circunflexo e que o tal produto não passava de uma cadeira de embalo, que é como se chama a cadeira de balanço no Maranhão. Mas a minha história predileta de tia Ermelinda é a do dia em que ela dirigiu um carro pela primeira vez. Já morando em São Luís, depois de fazer um curso na Auto Escola São José de Ribamar, chega o dia em que ela vai se aventurar, sozinha ao volante, pelas ruas de São Luís. Tio Ernesto fica em casa, temeroso do que possa acontecer. Depois de umas duas horas e nada do fusquinha verde retornar com tia Ermelinda sã e salva a bordo, toca o telefone. Em prantos, ela comunica que o carro parou de repente e ela está num lugar em que não passa ninguém para ajudá-la.   ­

- L­inda, você já verificou se não é falta de gasolina? Dá uma olhada no ponteirinho e vê se ele não está abaixo do R.

Tio Ernesto se referia, é claro, ao R de reserva.

- Mas é lógico que já, Ernesto, foi a primeria coisa que me ocorreu. Está sim!

- Então, Linda, isso significa que a gasolina acabou e o carro morreu por falta de combustível.

E ela, seguríssima de si:

- Mas como assim, se está no R? Não é R de repleto?

quinta-feira, dezembro 01, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (6)



A EXISTÊNCIA DO RIO DE JANEIRO
(Para Marco Aurélio Estrela)

Toda vez que constato que o Rio de Janeiro existe — e o tenho feito quase todos os dias desde que aqui cheguei para morar já há tantos anos — lembro daquela tarde remota em que Chico Mucura, no bar de Manezinho Setenta, pôs um fim à longa discussão acerca da veracidade da chegada do homem à Lua. E da própria existência da Lua como lugar onde se possa pisar e caminhar assim feito Turiaçu. Chico achou que nem valia a pena discutir tal absurdo. Seu ceticismo ia ainda mais longe. E questionou a existência de lugares bem mais perto do Turi do que o satélite da Terra:

— São Luís eu sei que inziste porque o meu cumpade Nhoquinha foi lá e meu cumpade não é home de contar lorota. Belém do Pará eu já tenho minhas dúvida. Agora, esse tal de Rio de Janeiro, esse eu duvido que inzista!