domingo, maio 13, 2012

DOMINGOS MARREIROS, 463


DOMINGOS MARREIROS, 463

Por oito anos me abrigaste
e entre tuas paredes
(que ainda guardam os sons, as sombras, os gestos
de uma tarde perdida no tempo)
construí, pedra por pedra,
parede por parede,
esta saudade.

Sob teu teto, meu corpo,
com suas pernas e braços,
percorreu quilômetros entre a cozinha e a sala
caminhando para o dia de hoje,
longe da derradeira noite
passada no “Cubículo”.
Ali, no exíguo espaço onde o mundo inteiro cabia
na enciclopédia pousada sobre a estante,
viajei pelos cinco continentes
e pelos ventres molhados das mulheres que amei.
Onde estão a cama, a estante, a escrivaninha?
Como salvar do tempo, não os livros e os discos,
mas a inquietação das leituras
e a guitarra de Hendrix alvoroçando a alma,
incomodando todos os vizinhos?

Em círculos concêntricos, minha memória hoje te visita
e é (aqui), neste espaço de tão poucos metros,
que esta viagem se torna irredutível.
Em volta, os outros cômodos:
os quartos da mãe e dos irmãos, os seus limites,
o banheiro onde o cheiro da família recendia nas toalhas,
a conversa dos talheres na sala de jantar,
o arroz queimando na cozinha as nossas vidas
e o quintal, o quintal onde as roupas estendidas
secavam ao sol, vestindo o vento.

Domingos Marreiros, 463,
foste mais que abrigo e residência,
foste porto seguro
onde tantas vezes atraquei meus sonhos
e minha embriaguez, nas noites quentes de Belém
e suas ruas que sempre me levavam a ti
(como se leva no ombro um amigo ébrio)

Domingos Marreiros, 463,
muito eu me mudei de ti,
mas é ainda meu endereço

terça-feira, maio 01, 2012

4 vezes Zezé


4 VEZES ZEZÉ


Refrão

A derradeira mulher
da minha vida,
meu Z,
meu zero,
marca do Zorro,
ponto de partida.


Z

Zezé,
você é
duas vezes
a marca do Zorro.
Numa delas eu nasço
noutra delas eu morro.


Cantada

Mulheres, as tive
de A a Z.
Agora é Z1, Z2, Z3,
todas você,
Zezé.


Multiplicação

Zezé, que sejas sempre assim:
zeros que se multiplicam
à direita de mim.

PRIMEIRO DE MAIO


PRIMEIRO DE MAIO

Amanhece.
Maio ainda nem me conhece.
           Quem é esse?
Me apresento numa prece:
sou teu servo, maio,
aquele que há meses
a esperança
nos teus dia tece.

Aqui estava,
pronto para o que viesse,
pronto para atravessar
teus dias luminosos.
Aqui estou.
           Floresce!

UMA VIAGEM DURA PARA SEMPRE



UMA VIAGEM DURA PARA SEMPRE

Viajar é sair do modo automático da vida. E é fazer isso de forma voluntária. É lançar-se no novo e no desconhecido com passagem de volta, reservas de hotel e seguro de sáude.

***

Levarei para passear como companheiros de viagem todos os meus males. Bem que eu gostaria que eles fossem para um destino e eu para outro. Mas teremos de ir juntos. E teremos de nos transformar juntos. Esquecerei um pouco deles por algum tempo e espero que eles se esqueçam um pouco também de mim.   

***

Numa viagem quase tudo serve para enriquecer nossa memória. Até as coisas erradas e os  imprevistos desagradáveis  que nos acontecem. Bagagens extraviadas, caminhos errados, brigas com o companheiro de viagem ou, o pior dos terrores, um passaporte perdido. Assim como os momentos sublimes, essas coisas indesejadas também aumentam nossa, digamos, bagagem existencial. (Certa vez fui preso ao entrar na França, vindo de Amsterdam. Portava uma substância comprada legalmente na capital holandesa, que subitamente se tornou ilegal ao atravessar a fronteira. Não vou contar aqui essa longa e sofrida história. Menciona-a apenas para lembrar o que me disse um amigo. Que aquele dia na cadeia foi o serviço militar que nunca prestei.)

A viagem começa antes da viagem, com o planejamento dela, e continua para sempre. Porque  toda viagem é que é para sempre, não um diamante, como dizia um slogan publicitário. O diamante podemos perder ou podem os roubar. Mas uma viagem fica guardada no cofre forte e inexpugnável da memória. Mal chegamos de volta, já começa uma outra viagem.

Com o passar do tempo, ela vai melhorando, à proporção que a vamos editando na memória e a vamos transformando num compacto, num programa “Os Melhores Momentos”. Deles estão cortados os contratempos e os tempos mortos. Nessa viagem, não há longas esperas nos aeroportos, não preenchemos fichas nas recepções dos hotéis, nem entramos na fila da alfândega e da Imigração. Só fica o susto do novo, momentos como aquele em que, ao estarmos meio perdidos vagando pelas ruas de Roma, dobramos uma esquina e damos de cara com a Fontana de Trevi. Só resta o sabor do vinho tomado naquela pequena aldeia de pescadores no Algarve enquanto esperamos pela chegada do melhor peixe que já comemos na vida. Só permanece o cair do sol sobre os canais de Veneza, essas ruas líquidas, esses caminhos que caminham.

***

O país distante
de onde há pouco vim
já anda a todo instante
a passear por mim

***

Viajar era uma experiência mais funda no tempo em que só havia as cartas. Ou até mesmo no tempo mais recente em que só tínhamos o telefone e telefonar era uma operação complicada.

Esse caráter de exílio voluntário está se perdendo com o telefonema fácil e mais ainda com os iPhones e iPads , com a internet que nos mantém ligados ao lugar de onde saímos. Tornam a viagem menos viagem, retiram dela um pouco daquilo que a define, esse ir-se para outros lugares ao encontro do inesperado e do nunca visto. Conectados na internet, permanecemos ancorados em casa. Os mares nunca dantes navegados deixam um pouco de sê-lo nas navegações no google, antes mesmo da viagem, a bordo da  grande e ubíqua caravela internáutica. Vemos no google view a fachada do hotel em que ficaremos muito antes de lá chegarmos. Dá-se, assim, o esvaziamento da surpresa, o encolhimento da novidade, a diminuição do teor de espanto.

Mas nada disso nos tira o prazer de viver o novo ao vivo, com seus sons e cores, sabores e aromas, imersos na estrangeira realidade. Viajar é sempre uma aventura. E, mais que um diamante, uma viagem dura para sempre.