sexta-feira, dezembro 30, 2011

TRÊS POEMAS DE WISLAWA SZYMBORSKA


Tradução de Sylvio Fraga Neto
e Danuta Haczynska da Nóbrega





A CORTESIA DOS CEGOS

O poeta lê seus versos para os cegos.
Não esperava que fosse tão difícil.
Sua voz fraqueja.
Suas mãos tremem.

Ele sente que cada frase
está submetida à prova da escuridão.
Ele tem que se virar sozinho,
sem cores e luzes.

Uma aventura perigosa
para as estrelas da poesia,
para as manhãs, o arco-íris, as nuvens, os neons, a lua,
para o peixe tão cintilante sob a água
e o falcão tão alto e quieto no céu.

Ele lê—pois já não pode parar—
sobre o menino de casaco amarelo num campo verde,
telhados vermelhos que se contam no vale,
números irrequietos na camisa dos jogadores
e a desconhecida, nua, na fresta da porta.

Ele gostaria de omitir—embora seja impossível—
todos os santos no teto da catedral,
a mão que acena do trem em partida,
a lente do microscópio, o anel e seu brilho,
as telas de cinema, os espelhos, os álbuns de
fotografia.

Mas é enorme a cortesia dos cegos,
admirável a sua compreensão, a sua grandeza.
Eles escutam, sorriem e aplaudem.

Um deles até se aproxima
com o livro de cabeça para baixo
pedindo um autógrafo invisível.



A ALEGRIA DE ESCREVER

Para onde corre este cervo escrito na floresta que escrevi?
É para beber da água escrita,
que desenha seu focinho?
Por que ele ergue a cabeça, escutou algo?
Apoiado nas quatro patas emprestadas da verdade
ele apura as orelhas sob meus dedos.
Silêncio—essa palavra ressoa na textura do papel
e afasta os galhos
que brotam da palavra floresta.

Sobre a folha em branco há letras espreitando
que podem tomar o mau caminho
formando frases ameaçadoras
das quais nada escapa.

Em cada gota de tinta há um bom estoque
de caçadores de olho na mira,
prontos a descer pela caneta íngreme,
cercar o cervo e apontar as armas.

Eles esquecem que aqui não há vida de verdade.
No preto-e-branco vigem outras leis.
Um piscar de olhos durará o tempo que eu quiser
e poderá ser dividido em pequenas eternidades,
cada uma com chumbo suspenso em pleno vôo.
Aqui nada acontecerá sem meu aval.
Contra minha vontade, nem uma folha cairá
e nem uma grama se dobrará sob o casco do cervo.

Então existe um mundo
onde eu possa impor o destino?
Um tempo que eu teço com uma corrente de sinais?
Uma existência que, a meu comando, não terá fim?

A alegria de escrever.
O poder de preservar.
Vingança de uma mão mortal.


VIETNÃ
Mulher, como te chamas? - Não sei.
Quando nasceste, tua origem? - Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? - Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeste o meu anular? - Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. - Não sei.
De que lado estás? - Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. - Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? - Não sei.
E estas criancas, são tuas? - Sim.








sexta-feira, dezembro 16, 2011

11 POEMAS DE "TEMPO TURISENSE & OUTROS TEMPOS" (1978)



 

TEMPO TURIENSE


Turiaçu é onde o sol se põe
e, mais que isso, onde nasce
graúdo
sobre a cerca , no quintal.
Turiaçu é aqui,
onde quer que eu esteja.
Onde haverá sempre uma cerca e um quintal,
a lama do apicum povoada de caranguejos
e sonhos. E todo sonho é no
Turi. Seu palco e locação,
referência sempiterna.
Turiaçu é onde os pontos cardeais têm ponto certo:
o leste na ponta do nariz,
o norte, sul, oeste
e ser feliz
é antever o sol
no canto do galo e no cheiro das manhãs.
Turiaçu é quando, como, porquê.
É onde
está tudo, miniatura do mundo:
o prefeito, o padre, o padeiro
e Deus,
que é turiense,
senhor dos seus céus  
que se estendem do Castanhal ao Canário,
do Alto de São Benedito ao outro lado do rio.
Turiaçu é o rio, o Rio
sem nome
fluindo
sem memória
as águas
e os dias
quente-úmidos
do tempo turiense.

A vida por aqui passa mais lenta.
A maior aventura é descer de bicicleta a Rua Nova e
seus perigos. Curvas e medos.
Ir pra missa, comer Cristo, o gosto puríssimo
e branco, luminoso.
Declinar todo pecado,
dormir em estado de graça,
alma limpa, corpo cristalino.
A vida por aqui passa mais lenta:
o velho relógio na parede é que ordena
a hora do almoço,
a mesa posta de cambéua gorda,
o  gordo colo da tia
onde repouso uma infinita preguiça
de meio-dia.
Turiaçu é a casa da tia,
coisas antigas no mesmíssimo lugar
há muitos anos,
quartos escuros,
grandes varandas, onde redes
armadas ao vento
balançam
infantes fantasias.
Turiaçu é a vida subterrânea
pulsando  outras vidas, fabricando seus sonhos:
o pai cavalgando meus dias atuais,
imenso e morto.
Turiaçu é mais que uma cidade perdida
em um ponto qualquer do litoral
norte do Brasil,
entre igarapés e lama,
sob chuva e sol,
o Equador.
Turiaçu é a cidade perdida
em um ponto qualquer desta memória
estendendo suas ruas e praças em meu corpo,
o rio nas veias,
a terra devorando
a carne do poeta.

Vinte anos depois,
à margem de outro rio, o sol se põe.
Anoitece no Turi,
dentro de mim.


URUBU

Na ociosa tarde turiense,
olhos espreitam a cerca, o quintal,
os urubus.
Os urubus, dizem, têm vida longa.
Longa, portanto, será a brincadeira.
O anzol, isca de carne podre, fio de quitanda.
tudo o que é preciso.
A negra constelação se espalha pela cerca.
alguns cercam o anzol.
O mais negro, o mais feio, o mais urubu
é escolhido.
Olhos no alvo negro, negro, semovente.
Firmes na mão
os instrumentos: o fio
e a maldade.
E puxa-se o barbante.
No instante fatal, isca mordida,
os infernais infantes gritam em coro
sua conquista.
Começa a procissão: o urubu passeia
pelas ruas sua desgraça.
Prossegue a procissão: os pequeninos e sua presa
passam pela praça, pela igreja, pela casa
dos padres, pecadores.
Pedradas, pauladas, pontapés.
O ritual culmina:
estopa no rabo,
fogo na estopa.
E o urubu sobe aos céus
em labaredas.




GALILEU GALILEI

A terra gira gira gira
gira em torno do sol.
Astro-rei-ressurreição-Galilei.
A verdade gira
com o tempo
como o tempo.
A leve pedra cai. A pesada pedra cai
rumo à verdade.
As pedras caem. Razão.
Galileu negou
porque queria comer ganso,
tinha medo da dor física
e sabia
que a verdade gira,
que a verdade é feita
do tempo.



POEMA POR CAUSA DE UM BEIJO ANDARILHO

Eu fui apenas uma figura a mais no seu caminho
percorrido sozinha e com o mundo
passando pelos seus dias
na mochila entre as Américas.
Eu, cicerone, lhe mostrei apenas que tudo é o mesmo
e que Belém tem para mim o mesmo mistério
de todas as cidades que não conheço.
Por isso, não lhe mostrei o Ver-O-Peso
nem a Praça da República e seus loucos
fugidos dos hospícios.
Fui com ela ao cinema e vi o seu sorriso austríaco
ao ouvir a música de Strauss no filme de Kubrick.
Eu estava me apaixonando por Margot Sluka,
o corpo bonito, a calça Lee desbotada,
um ano e um mês de Américas.
Em sua viagem pelo mundo, 
Margot Sluka  comia e bebia
pouco como um camelo e olhava muito as pessoas
como um gato. Entre seus mistérios e paradoxos
guardados na mochila e nela mesma,
a virgindade. I am as I am. Margot Sluka
não me deu um beijo sequer no dia anterior à
despedida, quando havia entre nós um caminho de
ausência a ausência. Nem lhe disse palavras
de amor, because my English is really very bad
e falo com sotaque turiense.
Porém, na quarta-feira passada,
em meio aos meus compromissos com o mundo,
eu recebi um beijo que ficou parado no ar
como num passe de mágica,
trazendo todas as cidades por onde andou,
um beijo em todas as mil línguas do mundo,
um beijo de despedida e chama deste
desesperadominical poema que ela não vai ler
no seu atemporal domingo das Guianas.


DIA DE FINADOS

Hoje,
não visitarei meus mortos.
Os mortos não habitam cemitérios.
Às vezes,
em dias claros como hoje,
eles é que vêm nos visitar.
E habitar em nós
suas sombras,
perguntas sem respostas,
enigmas e medos.
E nos fazer revisitar
o olvidado corpo, instrumento
de tocar a vida,
máquina de viver.
Às vezes, em dias claros como hoje,
eles vêm visitar em nós,
eternos companheiros da condição humana,
o outro lado sem luz
da lua de existir
e seus mistérios.




INSPIRAÇÃO

Preencher com nada o vazio
e expirar
o ar
modelando em som
o invisível
que signi-
fica na memória.
Processar-se a magia da criação:
Jeová sopra vida em Adão.
E a palavra,
anjo alado,
comunica,
desangustia.


PALAVRADOR

    lavra
            dor
palavra
    lavrador
palavra
           dor




A BARRIGA DO POETA

Esta barriga que se me dependura
por certo não é de nascença
e nem pode ser coisa que dura
a vida toda, assim imensa.
Aliás, esta barriga, não a reconheço
como tal.
É mais um apêndice esquisito,
corpo estranho,
que a cada dia mais me tem pesado.
Não a reconhecerei como barriga.
De agora em diante, fica nomeado:
é coisa de outro mundo,
objeto não identificado.


INVENTÁRIO DOS OBJETOS ENCONTRADOS NA BOLSA DO POETA

Uma caneta Bic escrita fina azul.
Uma maço de cigarros marca Albany
contendo l9 cigarros.
Uma caixa de fósforos marca Olho.
Uma carteira de identidade emitida pela SEGUP-PA,
de número que o poeta nunca conseguiu decorar.
Uma carteira de trabalho
com a assinatura de um emprego
do qual o poeta foi demitido no último dia 26
e onde exercia a função de redator de publicidade.
Uma carteira do CPF cujo número
o poeta nunca irá decorar.
Uma folha de papel tamanho ofício contendo uma tabela
de preços de peças publicitárias para free-lancers.
Duas folhas de papel tamanho ofício contendo o poema Tempo Turiense.
Uma pequena agenda azul com endereços e telefones,
onde não constam telefone ou endereço
de quem poderia vir em seu socorro,
neste momento de profunda solidão.
Uma fita cassete onde está gravada  uma canção
escrita pelo poeta, contendo uma infinita esperança
de tudo dar certo um dia.


PRAÇA DOS TRÊS PODERES

Brasília,
no dia em que meus olhos
te visitaram pela primeira vez
o projeto concreto
à luz do sol do planalto,
meu coração repartiu-se
entre o projeto
e a cidade viva
em movimento.
Diante de meus olhos,
fez-se a alvorada
de formas exatas.
Meus olhos viram,
empoeirado,
o sonho alto de Oscar,
a arquitetura nova
(funcional pois bela)
de futuras formas de viver.
Mas meu coração viu
a triste arquitetura
de vidas desfuncionais e feias
(ofendidas e humilhadas
nos bancos da Rodoviária)
sem qualquer poder
em frente à Praça.




CASA DOS TRINTA

                                                                               Para Aldora Cruz
Quando o mês de junho chega
por uma das muitas portas
que o tempo te vai abrindo
- sem que tal favor lhe peças -
vais entrando em casas novas
que só a custo se habitam.
São casas que a cada ano
mudam de cores, fachadas.
Há as estreitas, escuras,
outras por muitos, diversos,
luas e sóis clareadas.
Mas só de dez em dez anos
habitam-se casas grandes
que, assombradas ou não,
há que vivê-las em largo,
como em teus trinta, mansão.












domingo, dezembro 04, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (7)




R DE REPLETO

Tia Ermelinda não era burra. Muito pelo contrário. Era dotada de sensibilidade artística e uma das poucas pessoas que liam na família. Com frequência viajava a São Luís, para ir ao cinema e fazer compras na Rua Grande. Dizem que tocava piano na juventude, mas, numa desilusão amorosa, jurou nunca mais pôr as mãos num teclado.

Tia Ermelinda não era burra, nem propriamente desligada, mas dotada de uma distração complicada, um desligamento barroco, altamente sofisticado. Como gostava de móveis, resolveu um dia entrar numa loja cuja vitrine anunciava cadeiras de êmbalo. Ela já vira aquela vitrine antes e sempre ficou curiosa para conhecer a cadeira e ficar sabendo o que era êmbalo. Provavelmente uma madeira de lei de que nunca ouvira falar ou talvez um novo tipo de matéria plástica. Até descobrir que ela lera um inexistente acento circunflexo e que o tal produto não passava de uma cadeira de embalo, que é como se chama a cadeira de balanço no Maranhão. Mas a minha história predileta de tia Ermelinda é a do dia em que ela dirigiu um carro pela primeira vez. Já morando em São Luís, depois de fazer um curso na Auto Escola São José de Ribamar, chega o dia em que ela vai se aventurar, sozinha ao volante, pelas ruas de São Luís. Tio Ernesto fica em casa, temeroso do que possa acontecer. Depois de umas duas horas e nada do fusquinha verde retornar com tia Ermelinda sã e salva a bordo, toca o telefone. Em prantos, ela comunica que o carro parou de repente e ela está num lugar em que não passa ninguém para ajudá-la.   ­

- L­inda, você já verificou se não é falta de gasolina? Dá uma olhada no ponteirinho e vê se ele não está abaixo do R.

Tio Ernesto se referia, é claro, ao R de reserva.

- Mas é lógico que já, Ernesto, foi a primeria coisa que me ocorreu. Está sim!

- Então, Linda, isso significa que a gasolina acabou e o carro morreu por falta de combustível.

E ela, seguríssima de si:

- Mas como assim, se está no R? Não é R de repleto?

quinta-feira, dezembro 01, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (6)



A EXISTÊNCIA DO RIO DE JANEIRO
(Para Marco Aurélio Estrela)

Toda vez que constato que o Rio de Janeiro existe — e o tenho feito quase todos os dias desde que aqui cheguei para morar já há tantos anos — lembro daquela tarde remota em que Chico Mucura, no bar de Manezinho Setenta, pôs um fim à longa discussão acerca da veracidade da chegada do homem à Lua. E da própria existência da Lua como lugar onde se possa pisar e caminhar assim feito Turiaçu. Chico achou que nem valia a pena discutir tal absurdo. Seu ceticismo ia ainda mais longe. E questionou a existência de lugares bem mais perto do Turi do que o satélite da Terra:

— São Luís eu sei que inziste porque o meu cumpade Nhoquinha foi lá e meu cumpade não é home de contar lorota. Belém do Pará eu já tenho minhas dúvida. Agora, esse tal de Rio de Janeiro, esse eu duvido que inzista!


quarta-feira, novembro 30, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (5)




O CAFÉ DE SILVANIRA

Todos os procedimentos foram tomados para que o diabo daquele café ficasse mais quente que o enxofre  do inferno. Tudo seria feito rapidamente para que ele chegasse quase fervendo aos lábios de Silvanira. Maricota ficaria de prontidão com a bandeja na porta da cozinha para que não houvesse  tempo do líquido arrefecer um grauzinho sequer. A xícara seria fervida à parte. Em segundos, tudo iria do fogão para a bandeja, Maricota entraria o mais rápido que pudesse na sala e começaria servindo Silvanira. Minha avó, meu avô, mamãe, o velho agregado Adamastor – autor do diabólico plano – e todas as outras visitas esperariam um pouco antes de dar o primeiro gole. Tudo estava ensaiado. Dessa vez eles queriam ver se ela ia ter coragem de cantar o velho estribilho:

- O café está uma delícia, pena que esteja um pouquinho frio.

Todo fim de tarde o ritual se repetia. O cafezinho na casa de vovô já era uma tradição de há séculos e mais antiga ainda era a repetida reclamação de Silvanira. A solteirona podia até não dizer bom dia ao chegar, ou não comentar o clima abafado da tarde turiense, mas nunca falhava no reclamar da temperatura do café.

Mas agora ela ia ver. A vingança estava armada. Pode deixar, Silvanira, que tua batata, quer dizer, teu café, está esquentando.

E chegou a tarde em que todo mundo queria ver se ela tinha coragem de dizer que o café estava frio. Ela ia saber o que é um café quente de verdade.

Os preparativos correram como o previsto. Desde o escaldamento de todo e qualquer continente por onde aquele conteúdo líquido fervente houvesse de passar até a presteza com que Maricota carregaria a bandeja rumo aos lábios reclamões de Silvanira.

E Maricota entra na sala.

Silvanira deu o farto gole de meia xícara como era do seu jeito, e um silêncio se fez, todos de olhos fixos nela. Antes de Adamastor perguntar se aquele estava do seu gosto, pergunta que estava nos seus planos, ela mesma fez o comentário, o primeiro a vir incompleto, sem a  segunda parte,  em muitos anos.

 - O café está uma delícia.

Nenhuma reação, nenhum  músculo da sua face se moveu. Mas todos viram rolar do seu olho esquerdo uma lágrima discreta. Vovó retomou a conversa, alguma coisa sobre os preparativos da festa de inauguração da usina elétrica.

No dia seguinte, Silvanira não apareceu pro cafezinho do fim de tarde. Dizem que ela ficou em casa, cuidando da língua.



terça-feira, novembro 29, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (4)




CABACINHA DE LUZ


­ - O que eu mais gostei foi ver aquele paideguão de alumínio subindo naquele campão de cimento pro rumo de meu Deus...

Assim Dário Mandu descreveu sua emoção ao ver pela primeira vez, no Aeroporto do Tirirical, um avião de verdade, não esses teco-tecos que três vezes por semana pousavam no Campo do Canário.

Ele fora pela primeira vez a  São Luís, para  fazer compras e  ver de perto as maravilhas da capital. Percorreu a Rua Grande de cima a baixo. Tudo o que o Coronel Raimundo Estrela tinha, ele haveria de ter também. A começar pelas “cabacinhas de luz”, como chamava as lâmpadas elétricas que tanto o deslumbraram, acesas na grande casa da Praça da Igreja, com a inacreditável luz que não tremeluzia como a dos candeeiros e fazia milagrosamente a noite turiense virar dia claro.

Antes mesmo de a luz elétrica chegar a Turiaçu, com a inauguração da usina,  o coronel Raimundo Estrela comprou um gerador. Da horinha que escurecia até 10 da noite, as lâmpadas se acendiam e encantavam o povo do Turi.

Um mês depois, Dario Mandu pedia a uma atônita balconista uma dúzia de cabacinhas de luz. De volta a Turiaçu, mandou pendurá-las com barbante  por toda a casa. Chamou o pessoal da redondeza para, juntos, esperar o cair da noite e constatar que o Coronel não era o proprietário exclusivo da luz. A escuridão chegou e, para a suprema humilhação de Dario, as lâmpadas não se acenderam.

Mas ele não se deu por vencido. Iria mostrar a todos outra maravilha do mundo moderno, o rádio, “falador que nem o do meu Compadre Raimundo”, como ele também exigira da moça da loja lá em São Luís. O pessoal se reuniu para ouvir o rádio falador pela primeira vez. O incrédulo Chico Mucura resmungou duvidar muito que aquela caixa preta falasse, que quem fala é gente, que esse negócio de coisa falar é arte do demo. O tempo passava e parecia dar razão a Chico, pois dali só saía o barulho das ondas hertzianas e nada do bicho falar. Com os sinais de impaciência e incredulidade, Dario resolve dar uma satisfação:
Pessoal, é que agora o meu Compadre Raimundo deve tá ouvindo o dele lá. Vamos esperar mais um pouquinho. Quando o dele lá se calar, vocês vão ver aqui o nosso bichinho falar que nem um papagaio!

Mas Dario Mandu ainda não estava satisfeito. Fez outra viagem à capital, desta vez para comprar um ventilador.

- Moça, eu também quero um ventilador percurador que nem o do meu compadre Raimundo.

- Como assim, percurador?

- Um desses­ que ficam percurando a gente.
E, para não restar dúvida, fez com as mãos o movimento lateral do ir e vir dos ventiladores giratórios.

segunda-feira, novembro 28, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (3)





A BURRA ELÉTICA

A palavra faiscava suas sílabas na boca de cada turiense. Soava nova, moderna, quase sensual: elétrica. Ou “elética”, como muitos diziam.

era quase década de 60 e só então chegava ao Turi a mais luminosa forma de progresso.

era quase noite, o sol quase se pondo do outro lado do rio, quando Zé Preá terminou os preparativos da parte que lhe cabia na festa.

Logo mais, quando o sol tivesse afundado de vez por detrás da ilha, quando a escuridão tivesse coberto a lama do apicum e os primeiros grilos viessem anunciar a hora da festa, o povo turiense veria pela primeira vez o milagre da luz.

O discurso pronto no bolso do prefeito Hermenegildo. Os salgadinhos, a cerveja gelando nas geladeiras a querosene.

Preá vestiu sua melhor roupa e aprisionou os pés no mais negro dos sapatos. Caboclo parrudo, fiel cumpridor dos seus deveres, homem sério e respeitador, ele era o braço direito do Coronel Raimundo Estrela, autoridade maior da cidade.

- Mas que camisa elética, Zé Preá!

Ele escutou a gozação da garotada no banco da praça em frente à igreja, mas não deu bola. Rumou para a velha estrebaria  onde os fogos de artifício estavam guardados. Era sua parte na festa. Responsável pelos fogos que deveriam estourar na hora exata em que o prefeito pronunciasse a última palavra do discurso, o momento maior do ato inaugurador. As luzes já acesas, os fogos brilhariam no céu turiense para fazer ainda maior a luz que chegava.

O discurso já ia alto, cheio de ênclises e mesóclises, quando deram por falta do Zé. Já era para ele estar a postos, com os fogos. Alguém gesticulou disfarçada e desesperadamente para o professor esticar o discurso. Nos bastidores do palanque, organizou-se uma comissão emergencial para ir em busca de Zé Preá. Chiquinho Preto, Fidélis e Caroço foram incumbidos da missão e não demoraram muito a decidir-se. Começariam  pela estrebaria.

Fidélis foi à frente com uma lanterna. Chiquinho e Caroço resmungavam atrás que não era possível que ele estivesse lá. Responsável como era, Zé Preá não era homem de falhar com seus compromissos. Alguma coisa séria devia ter acontecido com ele.

Ouviram ao longe o relincho da burra que era o xodó de Zé Preá. Estavam se aproximando da  estrebaria. E no meio do silêncio, entre um relincho e outro, ecoou na boca da noite turiense, a voz de Zé Preá, trêmula de gozo e júbilo:

- Ai, ai, ai. Ui, ui, ui. Uiiii! Ai, minha burra elética!

domingo, novembro 27, 2011

HISTÓRIAS DO TURI (2)



BURACO

 - Respeitável público: Cumpade Chico fugiu e nós fiquemo sem assunto. Queredo!

A platéia demorou um pouco para entender o que Buraco  - palhaço, apresentador, trapezista, mágico e agora infeliz proprietário do Gran Circo Simões – queria dizer na primeira e única frase proferida  no picadeiro na noite do que seria a grande estréia.

Diante da platéia ansiosa, que esperara toda a semana por aquele  momento, Buraco queria dizer aquilo mesmo: que Cumpade Chico, o macaco, fugira.
E que, por isso, não haveria espetáculo.

O macaco era a estrela maior do Gran Circo, cujo elenco se completava com Buraco e sua esposa, Semíramis. Esta acumulava as funções de bailarina, auxiliar dos números de mágica, eficiente secretária de Buraco e dedicada babá de Cumpade Chico.

Nunca mais se teve notícias do macaco. Semíramis fugiu com um pescador de Sababa. Buraco, para sobreviver - frustrado, corneado e duro – aceitou um trabalho indigno para um artista e foi construir um muro no quintal do Coronel Raimundo Estrela. Nunca na vida havia trabalhado como pedreiro. Certa tarde, o coronel foi dar uma olhada no serviço. Não se imaginaria por ele que Buraco nunca tivesse posto a mão na massa. O muro saía aprumado e firme. O coronel, nada tendo a dizer a respeito da obra, para puxar assunto, pergunta a Buraco se ele está gostando no novo trabalho. “Qual nada, Coronel, meu negócio mesmo são as artes!” 

A partir do dia em que proferiu a célebre frase, Buraco começa a ficar desmotivado com aquele muro escuro e calado. Tem saudades das luzes da ribalta, dos aplausos da platéia. Mas precisa sobreviver. E é ai que começa a aplicar pequenos golpes em todo mundo, pedindo dinheiro emprestado.

Mas como nem só de pão vive o homem, ainda mais um verdadeiro artista, Buraco decide voltar à cena. Como picadeiro não há mais, decide que toda Turiaçu será o palco do maior número de sua vida. Vai atravessar a Praça sobre um cabo de aço, estendido entre a torre da Igreja e o alto do sobrado. Na manhãzinha do sábado, Turiaçu ficou intrigada ao ver aquele fio. Mas tudo foi logo esclarecido por um cartaz afixado no obelisco, onde Buraco prometia o feito monumental. Embaixo do cartaz, uma caixa de sapato onde já repousavam algumas poucas moedas.

A pequena multidão murmura medos e censuras. Como Padre Bento pudera ser tão irresponsável e permitir o uso da igreja para aqueles fins?, esbravejou  Dona Nicota. Expedita, a cozinheira do Coronel,  que já se engraçava por  Buraco desde quando ele construiu o muro, temia pela vida do artista. Fidélis queria apostar com qualquer um que, na hora H, Buraco ia “mijar pra trás” Chegada a hora – às cinco em ponto da tarde – Buraco surge na torre da igreja,  com a única roupa circense que lhe restara.

- Respeitável público. Como vocês já sabem, irei atravessar caminhando sobre este fio de aço, sem nenhuma proteção, da Igreja até os Correios, esta  praça de São Francisco Xavier. Que ele me proteja e guarde. Sim, senhores e senhoras, preciso da ajuda de São Francisco,  pois pelos meus próprios meios não serei capaz de tal coisa. Nunca, em toda a minha vida, fiz este número. Mas não sou homem de voltar atrás no prometido. Além disso, vivo uma situação desesperadora. Neste momento, lá em Bragança, seis crianças estão morrendo de fome. São meus filhos e é por isso que eu vou arriscar minha vida. Por favor, contribuam com quanto puderem, pois já amanhã de manhã, embarco no São Judas Tadeu rumo ao Pará, para salvar meus filhos.

Expedita foi a primeira a gritar, dizendo que não, que Buraco não precisava arriscar a vida daquela maneira, que descesse dali. Que, mesmo ele não atravessando a praça, todos iriam ajudá-lo. As adesões a Expedita logo foram surgindo e aumentando e logo a praça inteira em coro gritava para que Buraco desistisse do gesto temerário.

Se alguém tivesse apostado com Fidélis, teria perdido dinheiro.

São meio obscuras as razões que levaram à expulsão de Buraco da cidade. Mas a versão mais corrente, ainda hoje, é que alguém teria espalhado o boato de que logo após Buraco descer da torre, teria ouvido o artista pedir à cozinheira para  anunciar, do alto da torre, que no domingo seguinte ia ter vesperal. O fato é que, no dia seguinte, ele embarcou no São Judas sob pedras e vaias e por pouco não foi linchado.


Manezinho Setenta  fazia parte daquele distinto público, do dia em que Cumpade Chico fugiu
e o circo ficou sem assunto. Era também um dos mais lesados por Buraco, que sempre recorria primeiro a ele para pedir algum emprestado. Afinal, diziam que Manezinho já  estava mais rico que o Coronel de tanto fazer contrabando nas Guianas.

Anos depois, Manezinho Setenta viaja a Paramaribo. Vai  levar café e trazer uísque. Ao chegar lá, um contratempo o impede de voltar logo para Turiaçu. Sem o que fazer, resolve uma noite ir se divertir num espetáculo de mágicas, muito falado na cidade. Señor Búraco era o nome do mágico.

Acompanhado de Marco Aurélio e Mário Filho, seus dois capangas, Manezinho vai ao show. O mágico entra em cena.

Todo proparoxítono e com carregado sotaque espanhol, Señor Búraco faz sua apresentação.

Manezinho atônito, engasgado de tanta indignação, não se contém. E ouve-se da platéia um brado, alto e retumbante, na mais pura língua portuguesa:

- Devolve o meu dinheiro, Buraco filho duma égua!

Num passe de mágica, Buraco sai de cena. Os dois capangas sobem o palco e entram pelos bastidores, numa movimentação que muita gente deve ter pensado que fazia parte do espetáculo.

As últimas notícias dão conta de que Buraco ainda trabalha no circuito Caiena/Georgetown/ Paramaribo, exercendo suas artes nas cálidas  noites das Guianas, agora com o nome artístico de Mr. Hole.