Levarei para passear como companheiros de viagem todos os meus males.
Bem que eu gostaria que eles fossem para um destino e eu para outro. Mas
teremos de ir juntos. E teremos de nos transformar juntos. Esquecerei um pouco
deles por algum tempo e espero que eles se esqueçam um pouco também de
mim.
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Numa viagem quase tudo serve para nos enriquecer. Até as coisas
mais erradas, imprevistos desagradáveis, que nos acontecem. Bagagens extraviadas,
caminhos errados, brigas com um eventual companheiro de viagem ou, o horror dos
horrores, um passaporte perdido. Assim como os momentos sublimes, essas coisas
indesejáveis também aumentam nossa bagagem existencial. Certa vez fui preso ao entrar na
França, vindo de Amsterdam. Portava uma substância comprada legalmente
na capital holandesa, que subitamente se tornou ilegal ao atravessar a
fronteira. Não vou contar aqui essa longa e sofrida história. Menciono-a
apenas para lembrar o que me disse um amigo. Que aquele dia na cadeia foi o
serviço militar que nunca prestei.
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Viajar é sair do modo
automático da vida. E fazer isso de forma voluntária. É lançar-se no
novo e no desconhecido com passagem de volta, reservas de hotel e seguro de saúde.
A viagem começa antes da viagem, com o planejamento dela, e continua para sempre.
Porque toda viagem é que é para sempre, não um diamante,
como dizia um certo slogan publicitário. Este podemos perder ou podem os
roubar. Mas uma viagem fica guardada no cofre forte e inexpugnável da memória. Mal
chegamos de volta, já
começa uma outra
viagem. O país distante/de onde há pouco
vim/já anda a todo instante/a passear por mim
Com o passar do tempo, ela vai melhorando, à proporção em que a vamos editando na memória e a vamos transformando num
compacto, num programa tipo “Os Melhores Momentos”. Deles estão cortados os
contratempos e os tempos mortos. Nessa viagem, não há longas
esperas nos aeroportos, não preenchemos fichas nas recepções dos hotéis, nem entramos
na fila da alfândega e da Imigração. Só fica o susto do novo, momentos como aquele em que, ao estarmos meio
perdidos vagando pelas ruas de Roma, dobramos uma esquina e damos de cara com a
Fontana de Trevi. Só
resta o sabor do vinho tomado naquela pequena aldeia de
pescadores no Algarve enquanto esperamos pela chegada do melhor peixe que já comemos
na vida. Só permanece o cair do sol sobre os canais de Veneza, essas ruas líquidas,
esses caminhos que caminham.
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Viajar era uma experiência mais funda no tempo em que só havia as
cartas ou até mesmo no tempo mais recente em que só tínhamos o
telefone e telefonar era uma operação complicada.
Esse caráter de exílio voluntário está se
perdendo com o telefonema fácil e mais ainda com os iPhones e iPads , com a internet que nos mantém ligados
ao lugar de onde saímos e, nesse sentido, torna a viagem menos viagem, retira dela um pouco
daquilo que a define, esse ir-se para outros lugares ao encontro do inesperado
e do nunca visto. Conectados na internet, permanecemos ancorados em casa. Os
mares nunca dantes navegados deixam um pouco de sê-lo nas navegações no google, antes e durante o périplo. Os mares já são agora
navegados antes mesmo da viagem, pela grande e ubíqua caravela internáutica. Vemos no google view a fachada do hotel em que ficaremos muito
antes de lá chegarmos . Dá-se, assim, o esvaziamento da surpresa, o encolhimento da novidade, a
diminuição do teor de espanto.
Mas nada disso tira o prazer de viver o novo ao vivo, imerso na estrangeira
realidade. E esse outro prazer
mais duradouro, o de relembrar as viagens já feitas e planejar as que ainda queremos fazer.
