segunda-feira, maio 05, 2014

VIAJAR

Levarei para passear como companheiros de viagem todos os meus males. Bem que eu gostaria que eles fossem para um destino e eu para outro. Mas teremos de ir juntos. E teremos de nos transformar juntos. Esquecerei um pouco deles por algum tempo e espero que eles se esqueçam um pouco também de mim.   

***

Numa viagem quase tudo serve para nos enriquecer. Até as coisas mais erradas,  imprevistos desagradáveis,  que nos acontecem. Bagagens extraviadas, caminhos errados, brigas com um eventual companheiro de viagem ou, o horror dos horrores, um passaporte perdido. Assim como os momentos sublimes, essas coisas indesejáveis também aumentam nossa bagagem existencial. Certa vez fui preso ao entrar na França, vindo de Amsterdam. Portava uma substância comprada legalmente na capital holandesa, que subitamente se tornou ilegal ao atravessar a fronteira. Não vou contar aqui essa longa e sofrida história. Menciono-a apenas para lembrar o que me disse um amigo. Que aquele dia na cadeia foi o serviço militar que nunca prestei.

***

Viajar é sair do modo automático da vida. E fazer isso de forma voluntária. É lançar-se no novo e no desconhecido com passagem de volta, reservas de hotel e seguro de saúde.

A viagem começa antes da viagem, com o planejamento dela, e continua para sempre. Porque  toda viagem é que é para sempre, não um diamante, como dizia um certo slogan publicitário. Este podemos perder ou podem os roubar. Mas uma viagem fica guardada no cofre forte e inexpugnável da memória. Mal chegamos de volta, já começa uma outra viagem. O país distante/de onde há pouco vim/já anda a todo instante/a passear por mim

Com o passar do tempo, ela vai melhorando, à proporção em que a vamos editando na memória e a vamos transformando num compacto, num programa tipo Os Melhores Momentos. Deles estão cortados os contratempos e os tempos mortos. Nessa viagem, não há longas esperas nos aeroportos, não preenchemos fichas nas recepções dos hotéis, nem entramos na fila da alfândega e da Imigração. Só fica o susto do novo, momentos como aquele em que, ao estarmos meio perdidos vagando pelas ruas de Roma, dobramos uma esquina e damos de cara com a Fontana de Trevi. Só resta o sabor do vinho tomado naquela pequena aldeia de pescadores no Algarve enquanto esperamos pela chegada do melhor peixe que já comemos na vida. Só permanece o cair do sol sobre os canais de Veneza, essas ruas líquidas, esses caminhos que caminham.

***


Viajar era uma experiência mais funda no tempo em que só havia as cartas ou até mesmo no tempo mais recente em que só tínhamos o telefone e telefonar era uma operação complicada.

Esse caráter de exílio voluntário está se perdendo com o telefonema fácil e mais ainda com os iPhones e iPads , com a internet que nos mantém ligados ao lugar de onde saímos e, nesse sentido, torna a viagem menos viagem, retira dela um pouco daquilo que a define, esse ir-se para outros lugares ao encontro do inesperado e do nunca visto. Conectados na internet, permanecemos ancorados em casa. Os mares nunca dantes navegados deixam um pouco de sê-lo nas navegações no google, antes e durante o périplo. Os mares já são agora navegados antes mesmo da viagem, pela grande e ubíqua caravela internáutica. Vemos no google view a fachada do hotel em que ficaremos muito antes de lá chegarmos . Dá-se, assim, o esvaziamento da surpresa, o encolhimento da novidade, a diminuição do teor de espanto.


Mas nada disso tira o prazer de viver o novo ao vivo, imerso na estrangeira realidade. E esse outro prazer mais duradouro, o de relembrar as viagens já feitas e planejar as que ainda queremos fazer. 

VIAGEM



NEDERLAND

O país distante
de onde há pouco vim
já anda a todo instante
a passear por mim.


O TURISTA EXILADO

Quando cheguei sozinho a Paris
e, cansado da viagem, me deitei
naquele quarto de hotel barato
e tentei fechar os olhos já saturados
de tantas imagens,
o primeiro som que ouvi
foi o estrangeiro pio de um passarinho.
Um único dia fora do meu país
e tudo já era exílio.
o danado do poeta tinha razão
(e comecei a chorar):
as aves que aqui gorjeiam
não gorjeiam como lá.


NO TREM DE CAMBRIDGE

No trem de Cambridge
para Londres
a noite inglesa caía
do lado de fora
fleumática e fria.

Dentro do trem eu ia
lendo a paisagem.

A sintaxe das casas tristes
não me era estrangeira.
O que ela me dizia
de há muito eu já sabia:

que é do lado de dentro a paisagem,
que é pro rumo de dentro
toda viagem.


COM O PÉ QUEBRADO EM PARIS

À la rue de la Glacière,
Paris ma cassé les pieds.
Cest le temps de prendre un verre
à tout ce qui ma manqué.

como eu manquei por lá!
Pelas ruas de Paris,
nenhum verso de pé quebrado
diria que fui feliz.


A ESTÁTUA DE PESSOA N'A BRASILEIRA

Em cada parte do Universo
há um pouco de Pessoa.
Menos na sua estátua
na Brasileira, em Lisboa.

Turistas apontam câmeras
para o bronze luzidio,
mas o poeta passeia,
lá embaixo, no Rossio.

Depois passeia no alto,
no Castelo de São Jorge.
Sua verdadeira pessoa
não há escultor que forje.

Não adianta, turista,
o teres fotografado!
Só os que leem seus versos
podem sentar-se ao seu lado.


FLORENÇA E FLORENÇA

Eu nunca fui a Florença.

Por isso é preciso fazer um poema para Florença.

Um poema com as pedras arredondadas pelos sonhos de ver
Florença.

Esses que já me habitam.

Com essas pedras, pavimentar as ruas da cidade sonhada.
Porque a lua que irá banhá-las é a mesma lua que banha
este março cruel e chuvoso do rio de Janeiro. a mesma lua
que banha os campos também tão lindos do meu país
destroçado.

Eu nunca fui a Florença. Por isso é preciso sonhar Florença.
A sonho joia de pedra, incrustada de ideias. a sonho a cidade
visível do meu desejo de caminhá-la, concreta, no esplendor
de sua materialidade.

O rio Arno corre na veia da memória. A Ponte Velha desde
sempre esteve aqui, a ligar a realidade e o sonho, o velho e o
novo, Florença e Florença.

Aqui estou, na praça de Miguel Ângelo. Diante de mim, o
vale do Arno e a silhueta da cidade. A torre do Palácio Velho
à esquerda e, à direita, a igreja de Santa Cruz. Ao centro,
a cúpula do Duomo. Bruneleschi apoia a mão direita em
meu ombro e a outra aponta para sua obra. Numa esquina
insuspeitada, Galileu empunha uma luneta e descobre que
a Terra gira em torno do homem. Em frente ao restaurante,
Miguel Ângelo grita: Parla! E as palavras são esculturas feitas
de ar. (Esculturas mais perfeitas que o Moisés: não lhes falta
nem falar.) Na Praça da Senhoria, Leonardo tenta se identificar
ao porteiro do hotel, enumerando seus feitos. Donatello,
Boticelli e Fra Angelico passeiam entre os japoneses com
suas câmeras fotográficas. Ghiberti, Ghirlandaio e Giotto se
alinham em ordem alfabética na relação dos hóspedes. No
balcão, Dante escreve num cartão postal: o homem é a mais
bela criação de deus.

É preciso observar Florença. Com olhar exato, inocente e
apaixonado. Saio pelas ruas e invento a perspectiva e os
primeiros nus.

Aqui nada foi roubado de outro lugar. Obras de seus próprios
filhos, os tesouros de arte e arquitetura se perfilam íntegros
ante meus olhos brasileiros. Penso em Aleijadinho e Oscar,
na utopia de meu país, no que podia ter sido e não foi. Sei que
tudo isso também é meu. Cada museu é minha casa. Quem
ama o belo já o possui na escritura definitiva da memória.

Já tenho a fadiga generosa de percorrer Florença. Agora a
lua cai sobre as pedras. A lua de Florença, lua que nunca
vi, ilumina todo o mar de Copacabana. ( É uma lua quase
cheia, feito a felicidade. É uma lua quase meia, inteira em sua
metade.)

É preciso ver, ouvir, cheirar, provar e tocar Florença.

Só então poderei trazer de Florença o que ela tem de melhor:
artigos de couro, finos tecidos, a luz da lua sobre o Arno, os
mais belos quadros dos Ofícios. E a saudade que terei de
Florença, quando for Florença que já estiver, então, a passear
por mim.


PAISAGEM HOLANDESA

No porto de Rotterdam
um navio descarrega
minério e manhã.


ROMA

Súbito, o susto
de uma fonte,
uma ponte

ligando o hoje
ao olvidado ontem.


HEIDELBERG

Tudo tão claro,
tudo tão nítido,
na luz desta manhã.
Tudo afinado
como uma orquestra
sinfônica alemã.


A NEVE

neve nunca pousou num verso meu.
Minhas mãos jamais tocaram
a maciez gelada de seus flocos.
o mundo ainda não ficou branco
ante meus olhos.
Tudo que conheçé o vento,
o vento sem fim que bate nos babaçuais,
a chuva imemorial que sempre fecundou a minha vida
e o sol que de janeiro a janeiro
brilha sobre as areias
das praias da minha terra.
a neve nunca pousou num verso meu.
Por isso, a espero
inédita e alva,
caindo de um céu estrangeiro
sobre meu rosto
e meu espanto.