terça-feira, novembro 01, 2011

POEMAS DA DÉCADA DE 70

URUBU

Na ociosa tarde turiense,

olhos espreitam a cerca, o quintal,

os urubus.

Os urubus, dizem, têm vida longa.

Longa, portanto, será a brincadeira.

O anzol, isca de carne podre, fio de quitanda.

tudo o que é preciso.

A negra constelação se espalha pela cerca.

alguns cercam o anzol.

O mais negro, o mais feio, o mais urubu

é escolhido.

Olhos no alvo negro, negro, semovente.

Firmes na mão

os instrumentos: o fio

e a maldade.

E puxa-se o barbante.

No instante fatal, isca mordida,

os infernais infantes gritam em coro

sua conquista.

Começa a procissão: o urubu passeia

pelas ruas sua desgraça.

Prossegue a procissão: os pequeninos e sua presa

passam pela praça, pela igreja, pela casa

dos padres, pecadores.

Pedradas, pauladas, pontapés.

O ritual culmina:

estopa no rabo,

fogo na estopa.

E o urubu sobe aos céus

em labaredas.




GALILEU GALILEI

A terra gira gira gira

gira em torno do sol.

Astro-rei-ressurreição-Galilei.

A verdade gira

com o tempo

como o tempo.

A leve pedra cai. A pesada pedra cai

rumo à verdade.

As pedras caem. Razão.

Galileu negou

porque queria comer ganso,

tinha medo da dor física

e sabia

que a verdade gira,

que a verdade é feita

do tempo.



POEMA POR CAUSA DE UM BEIJO ANDARILHO

Eu fui apenas uma figura a mais no seu caminho

percorrido sozinha e com o mundo

passando pelos seus dias

na mochila entre as Américas.

Eu, cicerone, lhe mostrei apenas que tudo é o mesmo

e que Belém tem para mim o mesmo mistério

de todas as cidades que não conheço.

Por isso, não lhe mostrei o Ver-O-Peso

nem a Praça da República e seus loucos

fugidos dos hospícios.

Fui com ela ao cinema e vi o seu sorriso austríaco

ao ouvir a música de Strauss no filme de Kubrick.

Eu estava me apaixonando por Margot Sluka,

o corpo bonito, a calça Lee desbotada,

um ano e um mês de Américas.

Em sua viagem pelo mundo,

Margot Sluka comia e bebia

pouco como um camelo e olhava muito as pessoas

como um gato. Entre seus mistérios e paradoxos

guardados na mochila e nela mesma,

a virgindade. I am as I am. Margot Sluka

não me deu um beijo sequer no dia anterior à

despedida, quando havia entre nós um caminho de

ausência a ausência. Nem lhe disse palavras

de amor, because my English is really very bad

e falo com sotaque turiense.

Porém, na quarta-feira passada,

em meio aos meus compromissos com o mundo,

eu recebi um beijo que ficou parado no ar

como num passe de mágica,

trazendo todas as cidades por onde andou,

um beijo em todas as mil línguas do mundo,

um beijo de despedida e chama deste

desesperadominical poema que ela não vai ler

no seu atemporal domingo das Guianas.

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