quarta-feira, janeiro 29, 2014

(S)OBRAS (IN)COMPLETAS (4)

Poemas que ficaram de fora de O Rei do Vento.

EXPLOSÃO

Explodes
como fruto e como flor
não como bomba, granada,
qualquer coisa que faz BUM

Explodes
como bomba-relógio
antes de explodir, ou melhor:
como bomba-relógio que vai explodindo em cada tic
e cada tac

Explodes
no ritmo do relógio
e do coração

Explodes
como um poema se fazendo
um prédio se construindo
como nuvens se armando
no céu

É assim que explodes
câmera lenta
em cada dia e cada noite
como a flor de rugas explodirá um dia no meu rosto
como a morte chegando em ritmo de câncer
não de ataque cardíaco

Como fruto
(não como bomba)
como flor
(e não granada)
ao vento explodes
perfume e cor
na madrugada

ODE À MOÇA DA CAPA

Nas bancas de revistas,
sob a luz de tantos olhos,
expões tua beleza
à contemplação dos que não te possuirão jamais.
Estás à venda a preços populares
como um produto qualquer, descartável.
E muitos são os teus usos.
Poderás ilustrar a solidão de uma parede
num quarto carcereiro de desejos,
amenizar a dor antecipada
nas ante-salas sombrias dos dentistas
ou passar de mão em mão, em visão bela e fugidia
para os que não podem sequer te adquirir.
Multiplicada em muitas cores,
mostras teu corpo sem alma,
fabricado em série para deleite e paixão
dos que não te amarão jamais concretamente.
Teu segredo é estar sempre disponível
para o amor dos desesperados,
a orgia dos tristes,
o êxtase dos tímidos.
Tua disponibilidade não macula tua beleza incorpórea
feita somente para os olhos.
Mulher de papel, quanta vida exala
da superfície mágica que habitas.
Prostituta anônima das multidões,
teu destino é a fantasia livre de todo preconceito,
porque és imaginação, idéia pura,
isenta de toda e qualquer imperfeição



A SALA

Exatos, calmos,
ali os livros:
o universo pousado sobre a estante
dormia nas páginas fechadas.
A geometria era tranqüila
no círculo dos discos, a música sem ânsia
à espera dos ouvidos.
Na indiferença da mesa não habitava a poesia
nem metáforas havia nas cadeiras,
enigmas que eu podia decifrar.
O êxtase do branco na folha de papel
era quieto como as paredes caladas.
Mas por entre os objetos concisos
passeava tua imagem, teu fantasma.
E o mistério se instalava lentamente
na sala agora povoada de incertezas



O DISCURSO DO TEMPO
“Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia”.
João Cabral de Melo Neto

O discurso do tempo
é o discurso do rio:
fala viva da água
em pleno estio.

Mesmo na seca, seu fio
de água faz a ponte
entre o tempo presente
e o olvidado ontem.

Esse rio que discursa
é sempre o mesmo, não muda:
em qualquer parte dele
o todo se acumula.

O discurso do tempo
só muda o estilo:
sua voz mantém o tom
no Amazonas, no Nilo.

É sempre água o idioma
em que o rio faz seu discurso:
independente do assunto
ele segue seu curso.

Não há diálogo aqui,
onde ele impõe sua fala
sobre todas as coisas,
enquanto todos se calam.

Calam-se para ouvir
o monólogo-viagem
que arrasta os detritos
roubados das margens.

E os leva sempre em frente,
tanto, que não é sabido
se ainda é condutor
ou se tornou conduzido.

É conduzido e conduz
em sua roda de água, vida
de sua própria viagem,
imensa, desconhecida.

Não há significado
naquilo que ele fala:
o que há é só o fluir
de tudo em direção a nada.

Ou de nada em direção a tudo,
dependendo de quem o navega:
de quem na correnteza o afirma
ou contra ela o nega.

Para que mar caminha
esse rio-tempo que discursa?
Tirano de existirmos,
dentro de nós ele pulsa.


AO POETA RUBENS DE ALMEIDA

Cantaste o mênstruo,
o mau-hálito,
a cagada e a caspa
com a mesma imensidão
com que cantaste o mar.

Teu canto,
quando o operas no humano mar,
também traz altas ondas:
a poesia se faz na abjeta zona
com a mesma morbidez-beleza
que é a poesia não porque apraz.

Mas porque habita todas as zonas
em que o existir se faz.



SUPINO

(Para Cristóvam Araújo)

O braço ergue
a vontade
além
do peso, além
do próprio braço.

Aqui,
se exercitam músculos
e versos.

E o poeta,
na Voluntários da Pátria,
voluntário da pátria
de sua própria força,
põe abaixo
a lei
da gravidade.



PÁSSARO

Pássaro inviável
(em si mesmo engaiolado)
Pássaro amarrado
em anti-vôo
desolado des-alado
em impossível viagem
Feito não de ar, como todo pássaro,
mas de engrenagem

O que em ti fabricas não é o vôo
mas a impossibilidade
O que em ti engendras não é o tempo, variável
mas a eterna estiagem

No entanto
em ti mesmo voas
(não vôo animal, mas vôo-máquina)

Porque és a inviável ave
o in-pássaro
no impasse








terça-feira, janeiro 28, 2014

(S)OBRAS (IN)COMPLETAS (3)

Posto aqui mais um grupo de poemas que ficaram de fora do meu livro O Rei do Vento, que reúne o que considero a melhor parte dos poemas que escrevi. Ficaram de fora justamente por considerá-los inferiores aos publicados. Mas há de haver algum que agrade à minha meia dúzia de leitores.



QUERIDO DIÁRIO

Qualquer dia
eu te conto
conta
a
conta
o rosário
destes dias.



Aldora cruZ

De A  a Z  te percorri
no dicionário dos dias.

Meses levei 
a decifrar palavras
que se ocultavam atrás
de teus cabelos.

Mas não te decorei.
Os significados
não vivem nos verbetes,
mas nas frases
construídas no tempo,
pelo tempo.

Ainda hoje
procuro pela palavra
mais linda, inda não dita.
E não decifrei aquela
que para sempre se ocultou
nas sombras fatais
do meu, do teu
destino.



A POESIA NÃO RIMA COM A MORTE

A poesia não rima com a morte.
Por isso, o poema que a canta
na verdade canta a vida
ou canta na morte o que esta tem de vida,
o fim desta, o começo de outra (vida?)
Toda elegia é ode,
toda tristeza alegria,
no sentido de que  a dor
é um sintoma de vida.
Todo Tanatos é Eros
mesmo que Eros caído
Todo Tanatos é um mero
outro lado da vida.
Porque o que existe é isso
(apenas o que é vivido).
O outro lado é um dado
escuro e desconhecido.
Por isso é que se resiste 
quando morre alguém querido.
Por isso é que a vida segue
imune ao acontecido.
A vida não se contamina com a morte,
com seu misterioso vírus.
A vida segue seu rumo
sem cair nesse abismo.
Porque a morte não existe
(como Deus, desconhecida).
Não é alegre nem triste:
é somente um não-vivido.
A morte apenas assusta
no momento em que é assistido
esse fenômeno que custa
a passar quando é sofrido.
Mas passa porque a vida
vai curando suas feridas
fazendo nelas nascer
uma outra carne mais viva.
Assim, não inventarei para tua morte
um poema: não há poesia possível
para o que já não mais existe.
Só há poesia para o que insiste
em estar vivo: a memória que resiste



PRESENÇA

Como o mar está na concha 
que agora habita a sala de jantar,
tu estás em mim,
no meu amor feito do que foi.
Como o voo ainda existe
na ave agora prisioneira,
tu estás em mim, no meu amor
feito do que pode ser.
Tu estás em mim 
como a semente  da noite está no dia
e a semente da morte está na vida.
Como o salto dos tigres nos tapetes,
os poemas nos dicionários,
a explosão nas bombas.
Assim tu estás em mim:
no que resta,
no que pode ser
e em tudo aquilo que será
um dia.



O POEMA PERDIDO

Há muito eu queria te fabricar um poema
que dissesse do vento banal 
de uma tarde em Copacabana
e do direito de ser feliz.
E ainda hoje, neste exato instante 
em que meu coração volta a reclamar por ele,
o poema se oculta atrás de algum edifício,
talvez de um morro, como lua fugidia 
que deixa apenas a claridade de sua luz  
sobre as coisas e os homens.
O poema se esconde e se confunde
por entre as pernas
das pessoas que passam como fantasmas pelas ruas,
no alaraido dos carros e vozes,
na sinfonia patética da tarde e seus raios de sol
desenhandop uma paisagem irreal.
Perguntei a todos pelo poema e um bêbado me disse
que ele foi entreouvido num bar,
talvez estivesse perdido na serpentina do chope,nas galerias escuras dos esgotos urbanos,
nos bancos de praça onde sentam os homens que 
perderam a o emprego e a dignidade de viver.
Talvez o poema esteja irremediavelmente morto,
para sempre sepultado em alguma cova rasa
onde crescem flores mórbidas,
num cemitério da cidade.
Mas talvez ainda viva,
preso pelos fios elétricos das ruas
que porventura o salvaram
em sua última tentativa de suicídio.




SONETO DOS 25 ANOS

Este presente que o tempo te oferece
é o susto de um número que súbito te adere
e te concede um tempo que ainda não merece
ser rotulado em ti,  pois não confere

com o que foi vivido e o que foi feito:
um troféu que te chega antes da hora,
uma medalha que te põem no peito
e a tua mão treme e o teu rosto cora

pois esse prêmio não é teu. Imerecido,
sabes que o tempo é que venceu em sua porfia
com tudo aquilo que não foi construído

e só restou a esperança de que um dia
tu faças anos como quem festeja
não o tempo que passou, mas o que fica.



AURORA, ALBOR, ALVA, ALVORADA

Madrugo só com palavras,
trancado aqui neste quarto.
Não escuto canto de galo,
não enxergo luz da manhã.
Acendo mais um cigarro,
sol portátil em minha mão.
Na mesa, um despertador
me faz as vezes do galo.
No relógio digital
vejo nascer a manhã.
Trancado aqui neste quarto,
madrugo só com palavras,
madrugada triste e vã.





quarta-feira, janeiro 22, 2014

QUATRO RETRATOS

Os quatro nos olham da parede
e atravessam três séculos.
As fotografias denunciam um elo
em seus semblantes.
Todos trazem o mesmo nome:
Miguel.
Dois se chamaram assim
e dois ainda se chamam.


Dividem o mesmo espaço,
separados pelo tempo.
Cada um em sua moldura,
sua dor,
sua alegria,
seu irrepetível momento.
Um deles os colocou ali.
Queria restabelecer
um elo para além da semelhança.
Agora olha para si e para os outros

e estão sós. 


[Miguel Damous / Jamil Miguel Damous / Jamil Miguel Damous Filho / João Miguel Fassina Damous]

sexta-feira, janeiro 17, 2014

FAMÍLIA (2)



IRMÃ

És apenas um retrato.
No entanto,
aqui estás,
viva
como um caranguejo, um coelho,
um beija-flor.
Antes e depois
desse momento eternizado,
a vida seguia, seguiu
seu curso,
avançando como o câncer
que já te consumia.
A vida seguiu seu curso
no apartamento em Salvador
na tarde ensolarada em l980
até aqui.
E agora, na foto,
sã, intacta,
cara a cara comigo,
tu lanças teu sorriso.


SOARES ESTRELA ABFAIÇAL DAMOUS
Não me foi dado o sobrenome
De minha mãe.
Mas ele brilha oculto
Em um dos quatro cantos
Do que sou.


PAI
Esse que teve o meu nome,
em que parte de mim habita?
Num gesto meu que o retome?
Na minha voz que o repita?

Esse que eu nem amei,
sob que forma ele vive?
No pouco que dele sei,
no que eu dele retive?

Esse que a mim se assemelha,
como o verei um dia?
Sob a luz de uma centelha
ou clara fotografia?

Esse que em mim deflagra
essa genética flor,
será que um dia me flagra
em sua mesmíssima dor?

Esse que eu não conheço
viverá dentro de mim?
Mesmo que eu responda não,
imporá ele o seu sim?


sábado, janeiro 11, 2014

FAMÍLIA

DODÔ
A morte a veio
embalar na rede
armada
na manhã maranhense
vestida de luz e ventania.
Imagino que ali estava a tecer um tapete
(ou simplesmente a pensar na intrincada teia da vida)
quando, num segundo, silenciosamente,
se apagaram nela
as lembranças
(o que podia ter sido e não foi),
os sonhos de alguma felicidade mesmo que tardia,
ali estava
quando se diluíram num átimo
os gestos,
o estalar das suas unhas longas e duras,
o jeito de resmungar
e até o amor incondicional
que tinha por mim.
Assim imagino a morte da minha mãe
deitada numa rede
embalada
pelo vento sem sentido
da vida.


VISITA AO CEMITÉRIO DO GAVIÃO

Ali me vi
( me li )
no mais cruel dos espelhos,
carteira de identidade
na lápide sob o sol:
meu nome na pedra suja
de cocô de passarinho
no túmulo de meu pai.


QUATRO RETRATOS

Os quatro nos olham da parede
e atravessam três séculos.
As fotografias denunciam um elo
em seus semblantes.
Todos trazem o mesmo nome:
Miguel.
Dois se chamaram assim
e dois ainda se chamam.

Dividem o mesmo espaço,
separados pelo tempo.
Cada um em sua moldura,
sua dor,
sua alegria,
seu irrepetível momento.
Um deles os colocou ali.
Queria restabelecer
um elo para além da semelhança.
Agora olha para si e para os outros
e estão sós.