segunda-feira, março 30, 2015

POÇO FUNDO (3)

AZUL DEL-REY

As coisas são múltiplas demais
para que nelas possa pousar tranquilo o meu olhar.
E são também demasiado belas e reais.
O que o  meu olhar busca já não sabe.
Por isso erra pelas superfícies das coisas
sem encontrar abrigo, sobrevoa-as
e elas quase nunca estão ao seu alcance
mesmo que estejam ao alcance das mãos.
As coisas são muitas, demais,
Os livros empilhados na estante,
o rosto de minha mulher ( que é uma coisa também,
das mais amadas),
o azul Del-Rey com que um dia pintamos esta porta
ou o sol lá fora incendiando o chão e os passarinhos,
tudo isso é demais
para meus olhos míopes,
esse par de coisas arredondadas
que o espelho da sala,
num relance,
espia.




A CAVEIRA

A caveira de cavalo
(com seus dentes mordendo
o ar desta manhã)
ainda cavalga
na árvore seca.
Meu filho a pendurou ali quando criança.
Do cavalo vivo que ela foi um dia,
ainda ouço os ruídos dos cascos,
o relinchar na noite proclamando
a finitude de tudo.



POÇO FUNDO
(Musicado por Nilson Chaves)

lugar da paz 
lugar de mim
lugar que faz 
do meio um fim
lugar do bom
lugar do frio
lugar do som
do tom do rio
passar
aqui
do passarim
chuchu caqui
sabiá jobim

poço fundo
posso ir fundo
até o fim
do fim do mundo
sem sair daqui

poço fundo
posso ir fundo 
e viajar
até o fim
do fim do mundo
sem sair do lugar


águas de março
em pleno abril
a mata a flor
tudo no cio 
o meu amor 
e sempre o rio
o rio o rio



RELAÇÃO PARCIAL DO QUE FOI LEVADO PELO RIO

O rio levou a casa e suas lembranças
Todos os cadernos, todos os projetos

O rio levou os livros e a estante
A televisão, o forno e o aquecedor elétrico
O rio levou os pequenos objetos inúteis
A camisa no varal
Os papéis na gaveta
A escritura definitiva

O rio levou os desenhos que meu filho fez quando criança
As palavras  rabiscadas na lousa que penduramos na sala
As portas e janelas que um dia pintamos de azul

O rio levou a geladeira
A pimenta que ardia solitária dentro da geladeira
O rio levou as paredes da casa
E os planos de um dia reformar a casa

O rio levou a cama e o sono
O vento que batia no bambuzal
O barulho da chuva no telhado, o cheiro da terra molhada
O estrume do gado
E o aroma escandaloso do jasmim

O rio levou o frio
As primeiras luzes da aurora
O verde ensolarado da encosta do morro
O pau a pedra o fim do caminho

O rio levou a casa
A viagem de carro que nos levava até a casa
O rio levou o Carnaval, a Semana Santa, o Corpus Christi
A contemplação das estrelas, o medo da morte
E a esperança de tudo dar certo um dia

O rio levou as madrugadas insones, as viagens imaginárias
O pequeno bumba-meu-boi pendurado no telhado
O rio levou todo o telhado
O rio levou a Via Láctea
(O caminho entre a casa e o rio, sob as estrelas)

O rio levou a lua cheia

O rio levou o Pacífico e o Atlântico
E  os cinco continentes
No mapa-múndi na parede do quarto

O rio levou os nomes de todas as cidades no mapa
As cento e cinquenta mil palavras no dicionário
O ubi sunt, o carpe diem, o locus amoenus

O rio levou os caminhões que passeavam na estradinha carregados de realidade
Os aipins que floresciam vertiginosamente no interior da terra

O rio levou a montanha
O rio levou o céu
O rio levou a casa

O rio levou o rio, o rio, o rio



POÇO FUNDO (2)



NA VARANDA, EM POÇO FUNDO
                                                                                           
"E a paz esteja presente como fruto maduro"
Laura Amélia Damous

A rede armada ao vento, na varanda
A montanha semeada de bois
Os livros plantados no chão de cimento
O canivete, o binóculo, o maço de cigarros
Todos os amados objetos pessoais
ao meu alcance

Não irei para tão longe
para Pasárgada ou para onde
a paz esteja presente como fruto maduro 

Sempre caro me fu quest’ermo cole

Aqui a paz é sólida e palpável

Aqui a paz é de se pegar
como fruta no pé


BALADA DE POÇO FUNDO

A quaresmeira já está em flor.
E hoje à noite a lua,
que já se aproxima velozmente do Morro do Presépio,
brilha pela metade
porque você não está aqui.
Se eu fosse um gigante,
arrancaria do solo essa árvore por inteiro
e ia te oferecer como um buquê.
Mas sou apenas 
um homem triste e sozinho
que não sabe bem o que fazer com seu amor
porque você não está aqui.
Eu tomaria essa lua
— que, súbito, em minha mão
se tornaria plena e esplêndida —
e te levaria por sobre as montanhas da Serra dos Órgãos
para bem longe,
“para além dos espantosos rochedos da Serra das Araras”
e a pousaria num planalto paulista
onde, a essa hora, dorme uma mulher,
silenciosamente, dentro da noite
e do meu coração.

POÇO FUNDO (1)

POÇO FUNDO

Os aipins florescem vertiginosamente
no interior da terra.
Um beija-flor exerce a plenitude do seu nome.
Na estradinha de terra
um caminhão passeia
carregado de realidade.

Você ainda dorme
na casinha pequenina
onde nosso amor
cresceu.


O CACHO DE BANANAS

O cacho de bananas repousa agora
no cimento do pátio.
Ontem à noite o resgatamos
da bananeira que pendia
        perigosamente 
 para o abismo. 

Pousa agora sobre ele (sobre nós)
a primeira luz da manhã.
As bananas são ogivas verdes
apontando para nossa fome de vê-las.
Estamos salvos, por enquanto
(enquanto o tempo permitir) 
livres de toda podridão.



 DEUS E AS FORMIGAS

Todos já dormiam quando saí para ver o luar. Era uma noite fria, dessas que eu amo. E havia um silêncio mais alto que o assobio do vento, mais alto que o pio dos passarinhos, desses que eu não sei o nome. Soltei um jato de urina forte e ruidoso sobre a terra e aspirei no alívio o cheiro da noite. Jasmim e estrume do gado. Foi aí que vi as formigas, perigosamente próximas, vítimas potenciais da hecatombe. Mudei a direção do jato cuidadosamente. Depois, agachei-me e fiquei observando a fila indiana dupla, a que ia e a que vinha, só uma delas carregando os luminosos pedacinhos de folha, bandeiras verdes de um exército em marcha. Havia ali uma determinação, um propósito. Todas eram iguais perante o meu olhar. Até que me assomou a possibilidade espantosa de cada uma ser um indivíduo. Para que estavam ali sob o luar de maio? Que sonho, que utopia, as animava a ir em frente? E elas iam, numa disciplina estrita, denodada. Por um breve instante a luz da lua brilhou num pedacinho de folha e refletiu, ali, a cara de Deus. E aquela procissão de formigas não era menor que a caminhada dos judeus do Egito para Canaã, não era menos épica que a marcha dos exércitos de Napoleão pelos campos gelados da Rússia, nem menos memorável que o primeiro astronauta caminhando sobre o chão da lua. Havia um fim naquilo tudo, mas ele não me foi revelado.Tudo o que sei é que só um ser ali podia deter aquele caminhada. E esse ser era eu. Bastava uma pisada, um jato de mijo, um chute na terra.



DE TARDINHA, EM POÇO FUNDO

Os urubus sobrevoam o morro.
O que farejam?
Um boi morto ou o cadáver do dia?



MOMENTO EM POÇO FUNDO

Pra realçar ainda mais o seu gritante azul,
o céu se tinge de repente do preto de um urubu.
Nesse instante, o poeta olha para o céu.
E tinge de preto o branco do papel.

domingo, março 29, 2015

15 'HAICAIS LOCAIS' INÉDITOS.

15 'HAICAIS LOCAIS' INÉDITOS 




AULA DIÁRIA
desde a juventude
o sol poente me ensina
a finitude


FESCENINA
Punheta:
na mão um pau,
na cabeça uma buceta.


A LÂMPADA
Sol encapsulado:
a lâmpada do quarto
mantém o dia adiado.

APELO
Lua cheia e cheiro de jasmim
me gritam na noite quente.
O que querem de mim?

ROMÂNTICO INVETERADO
Sou viciado em bolero.
A hora de parar
fumando espero.


CIDADEZINHA ALEMÃ, 1944
Na cidade sitiada,
a alta torre esguia
espia a madrugada..


O CAVALO DE PEDRA
Estátua equestre:
não há quem a
adestre.

CHOCANDO
No ninho, ainda um ovo.
Que aninho vai nascer
do Ano Novo?


HAICAI DE SÃO JOÃO
haicai, balão,
haicai, balão,
aqui na minha mão


FORA DA FESTA
Longe da algazarra,
em silêncio, o meu cigarro
namora com a cigarra.  


APELO
Lua cheia e cheiro de jasmim
me gritam na noite quente.
O que querem de mim?

CARÍCIAS VIRTUAIS
Na madrugada insone
os namorados se tocam
nas teclas do iPhone.

DENTRO DA NOITE LENTA
Pesado, lento e ruidoso bicho,
tritura o silêncio da noite
o caminhão de lixo.

AO VOLANTE
Ouve uma voz ruidosa:
Drummond, Drummond, Drummond
na estrada de Minas, pedregosa.


EVASÃO
Já deu a largada:
vai para a Minas que não há mais.
Ou talvez para Pasárgada.
.