AZUL DEL-REY
As coisas são múltiplas demais
para que nelas possa pousar tranquilo o meu olhar.
E são também demasiado belas e reais.
O que o meu olhar busca já não sabe.
Por isso erra pelas superfícies das coisas
sem encontrar abrigo, sobrevoa-as
e elas quase nunca estão ao seu alcance
mesmo que estejam ao alcance das mãos.
As coisas são muitas, demais,
Os livros empilhados na estante,
o rosto de minha mulher ( que é uma coisa também,
das mais amadas),
o azul Del-Rey com que um dia pintamos esta porta
ou o sol lá fora incendiando o chão e os passarinhos,
tudo isso é demais
para meus olhos míopes,
esse par de coisas arredondadas
que o espelho da sala,
num relance,
espia.
A CAVEIRA
A caveira de cavalo
(com seus dentes mordendo
o ar desta manhã)
ainda cavalga
na árvore seca.
Meu filho a pendurou ali quando criança.
Do cavalo vivo que ela foi um dia,
ainda ouço os ruídos dos cascos,
o relinchar na noite proclamando
a finitude de tudo.
POÇO FUNDO
(Musicado por Nilson Chaves)
lugar da paz
lugar de mim
lugar que faz
do meio um fim
lugar do bom
lugar do frio
lugar do som
do tom do rio
passar
aqui
do passarim
chuchu caqui
sabiá jobim
poço fundo
posso ir fundo
até o fim
do fim do mundo
sem sair daqui
poço fundo
posso ir fundo
e viajar
até o fim
do fim do mundo
sem sair do lugar
águas de março
em pleno abril
a mata a flor
tudo no cio
o meu amor
e sempre o rio
o rio o rio
RELAÇÃO PARCIAL DO QUE FOI LEVADO PELO RIO
O rio levou a casa e suas lembranças
Todos os cadernos, todos os projetos
O rio levou os livros e a estante
A televisão, o forno e o aquecedor elétrico
O rio levou os pequenos objetos inúteis
A camisa no varal
Os papéis na gaveta
A escritura definitiva
O rio levou os desenhos que meu filho fez quando criança
As palavras rabiscadas na lousa que penduramos na sala
As portas e janelas que um dia pintamos de azul
O rio levou a geladeira
A pimenta que ardia solitária dentro da geladeira
O rio levou as paredes da casa
E os planos de um dia reformar a casa
O rio levou a cama e o sono
O vento que batia no bambuzal
O barulho da chuva no telhado, o cheiro da terra molhada
O estrume do gado
E o aroma escandaloso do jasmim
O rio levou o frio
As primeiras luzes da aurora
O verde ensolarado da encosta do morro
O pau a pedra o fim do caminho
O rio levou a casa
A viagem de carro que nos levava até a casa
O rio levou o Carnaval, a Semana Santa, o Corpus Christi
A contemplação das estrelas, o medo da morte
E a esperança de tudo dar certo um dia
O rio levou as madrugadas insones, as viagens imaginárias
O pequeno bumba-meu-boi pendurado no telhado
O rio levou todo o telhado
O rio levou a Via Láctea
(O caminho entre a casa e o rio, sob as estrelas)
O rio levou a lua cheia
O rio levou o Pacífico e o Atlântico
E os cinco continentes
No mapa-múndi na parede do quarto
O rio levou os nomes de todas as cidades no mapa
As cento e cinquenta mil palavras no dicionário
O ubi sunt, o carpe diem, o locus amoenus
O rio levou os caminhões que passeavam na estradinha carregados de realidade
Os aipins que floresciam vertiginosamente no interior da terra
O rio levou a montanha
O rio levou o céu
O rio levou a casa
O rio levou o rio, o rio, o rio
As coisas são múltiplas demais
para que nelas possa pousar tranquilo o meu olhar.
E são também demasiado belas e reais.
O que o meu olhar busca já não sabe.
Por isso erra pelas superfícies das coisas
sem encontrar abrigo, sobrevoa-as
e elas quase nunca estão ao seu alcance
mesmo que estejam ao alcance das mãos.
As coisas são muitas, demais,
Os livros empilhados na estante,
o rosto de minha mulher ( que é uma coisa também,
das mais amadas),
o azul Del-Rey com que um dia pintamos esta porta
ou o sol lá fora incendiando o chão e os passarinhos,
tudo isso é demais
para meus olhos míopes,
esse par de coisas arredondadas
que o espelho da sala,
num relance,
espia.
A CAVEIRA
A caveira de cavalo
(com seus dentes mordendo
o ar desta manhã)
ainda cavalga
na árvore seca.
Meu filho a pendurou ali quando criança.
Do cavalo vivo que ela foi um dia,
ainda ouço os ruídos dos cascos,
o relinchar na noite proclamando
a finitude de tudo.
POÇO FUNDO
(Musicado por Nilson Chaves)
lugar da paz
lugar de mim
lugar que faz
do meio um fim
lugar do bom
lugar do frio
lugar do som
do tom do rio
passar
aqui
do passarim
chuchu caqui
sabiá jobim
poço fundo
posso ir fundo
até o fim
do fim do mundo
sem sair daqui
poço fundo
posso ir fundo
e viajar
até o fim
do fim do mundo
sem sair do lugar
águas de março
em pleno abril
a mata a flor
tudo no cio
o meu amor
e sempre o rio
o rio o rio
O rio levou a casa e suas lembranças
Todos os cadernos, todos os projetos
O rio levou os livros e a estante
A televisão, o forno e o aquecedor elétrico
O rio levou os pequenos objetos inúteis
A camisa no varal
Os papéis na gaveta
A escritura definitiva
O rio levou os desenhos que meu filho fez quando criança
As palavras rabiscadas na lousa que penduramos na sala
As portas e janelas que um dia pintamos de azul
O rio levou a geladeira
A pimenta que ardia solitária dentro da geladeira
O rio levou as paredes da casa
E os planos de um dia reformar a casa
O rio levou a cama e o sono
O vento que batia no bambuzal
O barulho da chuva no telhado, o cheiro da terra molhada
O estrume do gado
E o aroma escandaloso do jasmim
O rio levou o frio
As primeiras luzes da aurora
O verde ensolarado da encosta do morro
O pau a pedra o fim do caminho
O rio levou a casa
A viagem de carro que nos levava até a casa
O rio levou o Carnaval, a Semana Santa, o Corpus Christi
A contemplação das estrelas, o medo da morte
E a esperança de tudo dar certo um dia
O rio levou as madrugadas insones, as viagens imaginárias
O pequeno bumba-meu-boi pendurado no telhado
O rio levou todo o telhado
O rio levou a Via Láctea
(O caminho entre a casa e o rio, sob as estrelas)
O rio levou a lua cheia
O rio levou o Pacífico e o Atlântico
E os cinco continentes
No mapa-múndi na parede do quarto
O rio levou os nomes de todas as cidades no mapa
As cento e cinquenta mil palavras no dicionário
O ubi sunt, o carpe diem, o locus amoenus
O rio levou os caminhões que passeavam na estradinha carregados de realidade
Os aipins que floresciam vertiginosamente no interior da terra
O rio levou a montanha
O rio levou o céu
O rio levou a casa
O rio levou o rio, o rio, o rio