quarta-feira, setembro 21, 2011

De "HAICAIS LOCAIS":


CEIA

Noite de chuva, lua cheia.

Não a vejo.

Sei-a.



BALADA DO HOTEL TOLEDO

Agora, enfim,

moro dentro

de mim.



CAMINHADA NOTURNA

Nossos cigarros:

dois vagalumes conversam

na estrada sem carros.



MORRO DOIS IRMÃOS

Diante dos teus crepúsculos,

o meu olhar

flexiona seus músculos.



AMANHECER

No pio do passarinho,

um fio de luz acende a manhã,

devagarinho.



METEOROLOGIA

Nublado dia:

de vez em quando

o sol o espia.



DE MANHÃ

Na janela, de repente,

o Pão de Açúcar, embrulhado

(de nuvens) pra presente.



BLECAUTE

A vela e eu:

duas luzinhas tentando

iluminar o breu.



BREAKFAST

Nesta manhã amarga e sem fé,

a lembrança do teu riso

adoça o meu café.



De "QUASE HAICAIS":



BAGAGEM

Uma folha seca

guardada na mala.

Clandestino, o outono

de Nova York

viaja para o Brasil.



CANTADA

Quando te vê, minha flor,

meu coração

beijafloreia.



VERBOS

(as quatro conjugações)

luar

prazer

porvir

amor





CANÇÃO PRA SIDA

temos um passado,

meu amor.



ERRO DE REVISÃO

A vida, sempre deslocada.

Como o acento na palavra ávida.



KALETRA LAMIVUDINA TENOFOVIR INVIRASE

Por causa deles,

minha vida é uma festa.

de coquetel,

são dois por dia.



PRECE

Que isto seja

tudo o que possa ser

alguma coisa.




terça-feira, setembro 20, 2011

Dia 24, sábado, às 15h, no Teatro SESI, na Graça Aranha (Centro), tem "Bonequinha de Pano", de Ziraldo. Uma oportunidade para os amigos do Rio (ou no Rio) assistirem ao espetáculo "para meninas e meninos maluquinhos de todas as idades", com Zezé Fassina. A direção é de Carlos Arruda, o "Puruca", e a trilha sonora do Vital Lima e minha. Quem quiser ir, me avise, que eu deixo ingressos na bilheteria. Pra quem não sabe: a Bonequinha é sucesso de público (se aproxima da milésima sessão - desconfio que pode rolar um Guinness aí!), de crítica e ganhou Melhor Espetáculo, Melhor Texto e Melhor Trilha Sonora do Prêmio Maria Clara Machado.

http://bonequinhadepanooespetaculo.com


segunda-feira, setembro 19, 2011

OUTROS POEMAS DE "ALGUNS AZUIS DO MAR DA BARRA"



A VOLTA DE NARCISO

No espelho do quarto de hotel,

Narciso volta a olhar sua cara

no lago de um outro tempo.

A cara velha de Narciso

é a velha cara de Narciso,

a cara do velho Narciso.

Se a juventude já não brilha nos seus olhos,

brilham nos seus óculos

as luzes do quarto, a televisão,

a lua, real, entre os letreiros

noturnos de São Paulo.

E isso lhe basta.

Pois, afinal, é só isso que brilha!

O resto é metáfora.


AEROPORTO DE SALVADOR

Baixa sobre a alma e o corpo

a profunda aceitação:

agora ama os idiotas,

está à vontade em meio à miséria dos homens.

Nada mais o exaspera e irrita.

Situa-se a três doses

- do consolador scotch -

acima de toda a triste humanidade.

Salvador é Paris e tudo é festa.

A tabacaria que não vende cigarros

é puro humor.

No aeroporto sem alma e sem caráter,

nenhuma canção de Caetano.

Mas o poeta se embala

ao doce som das turbinas.


CARTA DE DEMISSÃO

Em estilo curto e grosso

fez sua carta o suicida.

Pedia demissão

da sua missão já comprida.


CEMITÉRIO DE SÃO JOÃO BATISTA

Tudo é tão duro

na luz desta manhã:

o Pão de Açúcar, o muro,

a natureza vã.


Dura é a beleza

do céu sobre a cidade.

Ó Rua Real Grandeza,

quão grande é a realidade!

ALGUNS POEMAS DE "ALGUNS AZUIS DO MAR DA BARRA"

(livro que integra a coletânea "A Camisa no Varal")





TEMPO

Tempo de tempo ter,

não tempo de tempo dar.

Tempo vivido, não ido,

lido, sentido, vital.

Tempo que tenho tido,

tempo vivo, temporal.


É esse o tempo que eu quero

pulsando vivo no vidro

da ampulheta, clepsidra

ou relógio digital.

Pulsando vivo no vídeo,

pulsando vivo na vida

seu tempo vivo, animal.


Tempo de novos projetos,

todos urgentes, mas quietos,

em que a poesia dance

aos dados de um outro lance,

em que a poesia marque

o ritmo de um outro tic,

o tempo de um outro tac.



SCHIZO

Eu quisera estar

fernando

pessoas

e ser

nem digo tantos

- caeiros e campos -

mas pelo menos dois:

este que estamos

e aquele que sois.




PRAZER

Não tenho prazo para conjugar

o verbo prazer.

Mas nunca me atraso.

É sempre um grande trazer.

Trago até bem perto de fim

porque gosto de sereu

e gosto muito de vosser.

E será sempre assim

até o mim.

quarta-feira, setembro 14, 2011

OUTDOOR

O ipê amarelo

anuncia a beleza do mundo.

Outdoor na Praça da Igreja,

quer que eu tome conhecimento

da primavera.

Quer vender,

pelo preço promocional de um minuto de atenção,

a idéia de que a vida é bela

e viver vale a pena.

Sem texto algum,

na limpidez de sua imagem única e múltipla,

o ipê amarelo,

emoldurado pelo azul de setembro,

quer me convencer de que Deus existe.

Sabe que faço parte do seu público-alvo.

Me atinge em cheio

e, por um tempo ínfimo mas infinito,

me conquista.

domingo, setembro 11, 2011

FOTOGRAFIA DO 11 DE SETEMBRO

Pularam dos andares em chamas—
um, dois, alguns outros,
acima, abaixo.

A fotografia os manteve em vida,
e agora os preserva
acima da terra rumo à terra.

Ainda estão completos,
cada um com seu próprio rosto
e sangue bem guardado.

Há tempo suficiente
para cabelos voarem,
para chaves e moedas
caírem dos bolsos.

Permanecem nos domínios do ar,
na esfera de lugares
que acabam de se abrir.


Só posso fazer duas coisas por eles—
descrever este vôo
e não acrescentar o último verso.

Wislawa Szymborska
(trad. de Nelson Ascher)