Foto de Betania Pinheiro
Foto de Claudio Ribeiro
Turiaçu é onde o sol se
põe
e, mais que isso , onde
nasce
Turiaçu é aqui ,
a lama do apicum
povoada de caranguejos
e sonhos . E todo sonho é no
Turi. Seu palco e locação ,
Turiaçu é onde os pontos cardeais têm ponto certo :
o leste na ponta
do nariz ,
o norte ,
sul , oeste
e ser
feliz
é antever
o sol
no canto do galo e no cheiro das manhãs .
Turiaçu é quando , como , porquê .
É onde
está tudo , miniatura
do mundo :
o prefeito , o padre ,
o padeiro
e Deus ,
do Alto de São
Benedito ao outro lado
do rio .
Turiaçu é o rio , o Rio
fluindo
as águas
e os dias
quente-úmidos
do tempo turiense.
A vida por aqui passa mais lenta .
A maior aventura
é descer de bicicleta a Rua Nova e
e branco , luminoso .
A vida por aqui passa mais lenta :
o velho relógio
na parede é que
ordena
a hora do almoço ,
a mesa posta de
cambéua gorda ,
o gordo colo da tia
de meio-dia .
Turiaçu é a casa da tia ,
há muitos anos ,
balançam
Turiaçu é a vida subterrânea
pulsando outras vidas ,
fabricando seus sonhos :
o pai cavalgando meus
dias atuais ,
Turiaçu é mais que uma cidade perdida
o Equador .
Turiaçu é a cidade perdida
estendendo suas ruas e praças em meu corpo ,
o rio
nas veias ,
a terra
devorando
a carne do poeta .
Vinte anos depois ,
à margem de outro
rio , o sol se
põe.
Anoitece no Turi,
Na ociosa tarde
turiense,
os urubus .
Os urubus , dizem, têm vida
longa .
O anzol , isca de carne podre , fio de quitanda .
A negra constelação
se espalha pela cerca .
O mais negro , o mais feio , o mais urubu
é escolhido.
os instrumentos : o fio
e a maldade .
E puxa-se o barbante .
No instante fatal ,
isca mordida ,
os infernais infantes gritam em
coro
pelas ruas sua desgraça .
Prossegue a procissão : os pequeninos
e sua presa
passam pela praça , pela igreja , pela casa
dos padres , pecadores .
O ritual culmina:
E o urubu sobe aos céus
A CASA DE
BIBIA
plantada na beira
do rio ,
nas antigas roupas
dela e de Sabino.
A casa
A casa de
Bibia é atemporal ,
à geração
mais nova
da família .
as primeiras notas
do rock´n roll
e faz Bibia consumir
Melhoral,
a luz elétrica ,
voltam as sombras
a cobrir o baú
diz estar cheio de ouro e de dinheiro .
As sombras
voltam a cobrir as cascas
secas de laranja
enroladas no telhado ,
o petisqueiro guardando os seus
cristais .
Sabino foi palhaço
de circo e fala
inglês ,
Bibia foi madame
e rica em
Paris
e hoje lava , no mesmíssimo dia
da semana ,
nas águas do tempo
turiense.
Todas as noites viajo a Turiaçu
Vou ao cartório do velho
Teixeira
e ali enumero,
os nomes dos peixes
e os meus brinquedos ,
inclusive a bicicleta ,
incidindo sobre nossos telhados .
Recito quintais (com seus banheiros
das coisas miúdas habitantes
do chão .
da chuva breve e abundante
da tarde ensolarada .
O velho tabelião
discute comigo
a necessidade dessa inútil
cantilena .
nas folhas exatas de papel almaço .
Quero tudo anotado com sua letra caprichada,
de perfeita caligrafia :
a voz de meu pai
na padaria que ele montou só para isso
e nunca lhe deu lucro algum .
A caixinha de música
da minha mãe
- onde dançava a bailarina
-
Reitero meu pedido em registrar o ir e vir das marés
e o velho Teixeira ri da impossibilidade de tal pedido .
Volto da viagem carregando a lista imensa .
E nas noites vazias deste tempo
é ela que me orienta.
é turiense ou turista?
É um lugar de se nascer , ali ,
de onde se lançar ao mundo ?
De onde , por incapaz de ser
há que partir-se pra
viver ?
é turiense e
turista.
é apenas milhas
da viagem
E que , por mais turista,
(a do Turi) ilustra minha história .
DA MINHA TERRA
(Música de Nilson Chaves)
o que ela
tem de melhor
e um curió
cantador
numa das mãos a vontade
e na noutra o que sei
e eu sei tão
pouco menina
desse planeta azul
sei por exemplo
que o norte
fica pros lados do sul
sei que o rio
de janeiro
deságua em turiaçu
sei que você
é pra mim
o que o ar
é pro urubu
o que ela
tem de melhor
e na mala o que
sonhei
e eu sonhei tanto
menina
londrestocolmoestambul
sonhei new york e caracas
roma paris e seul
DUAS PRAIAS
havia duas praias
uma era cunhã-coema
e a outra era
sababa
e no entanto as dunas
altas
naquilo que ele falava
e no entanto o sol
brilhando
na sua voz tão forte e clara
havia cunhã-coema
e havia também sababa
de turiaçu ele ia
de barco
para essas praias
muitas horas de viagem
o sol batendo em sua cara
tinham areia suas palavras
sababa cunhã coema
cunhã-coema sababa
TURIAÇU NO GOOGLE
No trapiche da Goiabeira ,
o mundo não ia além do rio ,
do rio ali ,
do rio além , do rio Turi.
E eu ali na beira , como agora aqui
no google.
e ver pra
muito além
do apicum ,
estou ali naquela
manchazinha
Sedendo e mirando interminati spazi di là da
quella,
Turiaçu.



