quarta-feira, novembro 14, 2012




 
Foto de Betania Pinheiro

                                           Foto de Claudio Ribeiro



TEMPO TURIENSE


Turiaçu é onde o sol se põe
e, mais que isso, onde nasce
graúdo
sobre a cerca , no quintal.
Turiaçu é aqui,
onde quer que eu esteja.
Onde haverá sempre uma cerca e um quintal,
a lama do apicum povoada de caranguejos
e sonhos. E todo sonho é no
Turi. Seu palco e locação,
referência sempiterna.
Turiaçu é onde os pontos cardeais têm ponto certo:
o leste na ponta do nariz,
o norte, sul, oeste
e ser feliz
é antever o sol
no canto do galo e no cheiro das manhãs.
Turiaçu é quando, como, porquê.
É onde
está tudo, miniatura do mundo:
o prefeito, o padre, o padeiro
e Deus,
que é turiense,
senhor dos seus céus  
que se estendem do Castanhal ao Canário,
do Alto de São Benedito ao outro lado do rio.
Turiaçu é o rio, o Rio
sem nome
fluindo
sem memória
as águas
e os dias
quente-úmidos
do tempo turiense.

A vida por aqui passa mais lenta.
A maior aventura é descer de bicicleta a Rua Nova e
seus perigos. Curvas e medos.
Ir pra missa, comer Cristo, o gosto puríssimo
e branco, luminoso.
Declinar todo pecado,
dormir em estado de graça,
alma limpa, corpo cristalino.
A vida por aqui passa mais lenta:
o velho relógio na parede é que ordena
a hora do almoço,
a mesa posta de cambéua gorda,
gordo colo da tia
onde repouso uma infinita preguiça
de meio-dia.
Turiaçu é a casa da tia,
coisas antigas no mesmíssimo lugar
muitos anos,
quartos escuros,
grandes varandas, onde redes
armadas ao vento
balançam
infantes fantasias.
Turiaçu é a vida subterrânea
pulsando  outras vidas, fabricando seus sonhos:
o pai cavalgando meus dias atuais,
imenso e morto.
Turiaçu é mais que uma cidade perdida
em um ponto qualquer do litoral
norte do Brasil,
entre igarapés e lama,
sob chuva e sol,
o Equador.
Turiaçu é a cidade perdida
em um ponto qualquer desta memória
estendendo suas ruas e praças em meu corpo,
o rio nas veias,
a terra devorando
a carne do poeta.

Vinte anos depois,
à margem de outro rio, o sol se põe.
Anoitece no Turi,
dentro de mim.


URUBU

Na ociosa tarde turiense,
olhos espreitam a cerca, o quintal,
os urubus.
Os urubus, dizem, têm vida longa.
Longa, portanto, será a brincadeira.
O anzol, isca de carne podre, fio de quitanda.
tudo o que é preciso.
A negra constelação se espalha pela cerca.
alguns cercam o anzol.
O mais negro, o mais feio, o mais urubu
é escolhido.
Olhos no alvo negro, negro, semovente.
Firmes na mão
os instrumentos: o fio
e a maldade.
E puxa-se o barbante.
No instante fatal, isca mordida,
os infernais infantes gritam em coro
sua conquista.
Começa a procissão: o urubu passeia
pelas ruas sua desgraça.
Prossegue a procissão: os pequeninos e sua presa
passam pela praça, pela igreja, pela casa
dos padres, pecadores.
Pedradas, pauladas, pontapés.
O ritual culmina:
estopa no rabo,
fogo na estopa.
E o urubu sobe aos céus
em labaredas.


A CASA DE BIBIA

Silêncio e poeira habitam a casa de Bibia,
plantada na beira do rio,
mais antiga que o rio.
Poeira e silêncio cheirando a naftalina
nas antigas roupas dela e de Sabino.
A casa
guarda as suas vidas, velhas e mesmas,
que fizeram deles viúvos um do outro.
A casa de Bibia é atemporal,
museu de um mundo anterior
à geração mais nova da família.
o velho rádio invade pela casa o mundo novo,
as primeiras notas do rock´n roll
e faz Bibia consumir Melhoral,
que é melhor e não faz mal.
Mas quando, às dez horas, vai-se embora
a luz elétrica,
voltam as sombras a cobrir o baú
que o mito muito antigo na cidade
diz estar cheio de ouro e de dinheiro.
As sombras voltam a cobrir as cascas secas de laranja
enroladas no telhado,
o petisqueiro guardando os seus cristais.
as lembranças vivem na casa de Bibia.
Sabino foi palhaço de circo e fala inglês,
Bibia foi madame e rica em Paris
e hoje lava, no mesmíssimo dia da semana,
seus longos cabelos brancos
nas águas do tempo turiense.




REGISTRO

Todas as noites viajo a Turiaçu
para fazer meu inventário de perdas.
Vou ao cartório do velho Teixeira
e ali enumero,
entre um soluço e uma lágrima,
os nomes dos peixes
e os meus brinquedos, inclusive a bicicleta,
veloz e brilhante como a luz do meio-dia
incidindo sobre nossos telhados.
Recito quintais (com seus banheiros
distantes da casa) e a constelação
das coisas miúdas habitantes do chão.
Formigas, grãos de milho esquecidos pelas galinhas,
pedaços coloridos de matéria plástica,
estrelas refletidas nas poças d' água
da chuva breve e abundante
da tarde ensolarada.
O velho tabelião discute comigo
a necessidade dessa inútil cantilena.
Mas exijo dele o registro de tudo
nas folhas exatas de papel almaço.
Quero tudo anotado com sua letra caprichada,
de perfeita caligrafia:
a voz de meu pai
me chamando bem cedinho na manhã
para irmos colher o pão ainda quente
na padaria que ele montou para isso
e nunca lhe deu lucro algum.
A caixinha de música da minha mãe
- onde dançava a bailarina -
que saía da gaveta da cômoda
em momentos muito especiais.
Reitero meu pedido em registrar o ir e vir das marés
e o velho Teixeira ri da impossibilidade de tal pedido.
Depois, estou nas ruas querendo fotografar tudo,
mas tudo se perdeu.
Volto da viagem carregando a lista imensa.
E nas noites vazias deste tempo
é ela que me orienta.






TEMPO TURISTA

Quem nasce no Turi
é turiense ou turista?
É um lugar de se nascer, ali,
ou é ali uma pista
de onde se lançar ao mundo?
De onde, por incapaz de ser
lugar onde criar-se, ir fundo,
que partir-se pra viver?
Quem nasce no Turi
é turiense e turista.
Por isso, o que aprendi:
que, enfim, toda conquista
é apenas milhas da viagem
que se faz pela memória.
E que, por mais turista,
sempre a mesma paisagem
(a do Turi) ilustra minha história.


DA MINHA TERRA
(Música de Nilson Chaves)

te trago da minha terra
o que ela tem de melhor
um doce de bacuri
e um curió cantador
trago da minha cidade
tudo o que deixei
numa das mãos a vontade
e na noutra o que sei
e eu sei tão pouco menina
desse planeta azul
sei por exemplo que o norte
fica pros lados do sul
sei que o rio de janeiro
deságua em turiaçu
sei que você é pra mim
o que o ar é pro urubu

te trago da minha terra
o que ela tem de melhor
tigela de açaí
bumba-meu-boi dançador
trago da minha cidade
tudo o que deixei
dentro do bolso a saudade
e na mala o que sonhei
e eu sonhei tanto menina
londrestocolmoestambul
sonhei new york e caracas
roma paris e seul
mas hoje o rio de janeiro
ainda é turiaçu
você pra mim é
leste oeste norte sul




DUAS PRAIAS
(Música de Nilson Chaves)

havia duas praias
em que meu pai sempre falava
uma era cunhã-coema
e a outra era sababa

nunca as vi nunca fui   
e no entanto as dunas altas
naquilo que ele falava
e no entanto o sol brilhando
na sua voz tão forte e clara

havia cunhã-coema
e havia também sababa

de turiaçu ele ia
de barco para essas praias
muitas horas de viagem
o sol batendo em sua cara
quando voltava pra casa
sua luz ainda ali estava
seus gestos cheiravam a sal
tinham areia suas palavras

meu pai era todo praia

sababa cunhã coema
cunhã-coema sababa


TURIAÇU NO GOOGLE

No trapiche da Goiabeira,
o mundo não ia além do rio,
do rio ali, do rio além,  do rio Turi.
E eu ali na beira, como agora aqui
no google.
Nada mudou.

Por mais que eu possa abrir o zoom
e ver pra muito além do apicum,
estou ali naquela manchazinha
entre o verde e o azul,
que vejo agora em frente ao computador.

Sedendo e mirando interminati spazi di là da quella,
me deparei com ela:
Turiaçu.