sábado, agosto 27, 2011


SETE POEMAS

DE LAURA AMÉLIA DAMOUS




QUIROMANCIA

A mão do poema

é a que me cabe

inteira.

A outra,

eu a carrego,

pesada e alheia.




HERANÇA

Minha avó Amélia que

tinha as orelhas rasgadas

pelo peso do ouro

me deixou um tesouro:

não carregue mais

do que a frágil carne suporta.



NOTURNO

Tudo é tão simples

que poderia ser pedra.



TABUADA

Como ser par

se o mais que perfeito

é ímpar?



LIÇÃO

Mar de prata - ele falou

Desde então o mar

é de prata

Mardeprata

Mar de prata

O mar é de prata




PAPAGAIO

Trituro esta dor

socada em pilão

como tia Ana do grão

gerava o café

Trituro esta dor

e faço cerol

para untar a linha

que nos partirá




EVASÃO


irei para tão longe

onde minhas lembranças não me alcancem

e ensinarei aos meus ouvidos

a canção muda das pedras solitárias

irei para tão longe

onde os caminhos se apaguem

e cobrirei as minhas cicatrizes

como os velhos troncos

se cobrem de limo

irei para tão longe

onde imagens errantes

se percam nos atalhos da memória

e a paz esteja presente

como fruto maduro

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