quinta-feira, agosto 25, 2011

REGISTRO

Todas as noites viajo a Turiaçu

para fazer meu inventário de perdas.

Vou ao cartório do velho Teixeira

e ali enumero,

entre um soluço e uma lágrima,

os nomes dos peixes

e os meus brinquedos, inclusive a bicicleta,

veloz e brilhante como a luz do meio-dia

incidindo sobre nossos telhados.

Recito quintais (com seus banheiros

distantes da casa) e a constelação

das coisas miúdas habitantes do chão.

Formigas, grãos de milho esquecidos pelas galinhas,

pedaços coloridos de matéria plástica,

estrelas refletidas nas poças d' água

da chuva breve e abundante

da tarde ensolarada.

O velho tabelião discute comigo

a necessidade dessa inútil cantilena.

Mas exijo dele o registro de tudo

nas folhas exatas de papel almaço.

Quero tudo anotado com sua letra caprichada,

de perfeita caligrafia:

a voz de meu pai

me chamando bem cedinho na manhã

para irmos colher o pão ainda quente

na padaria que ele montou só para isso

e nunca lhe deu lucro algum.

A caixinha de música da minha mãe

- onde dançava a bailarina -

que só saía da gaveta da cômoda

em momentos muito especiais.

Reitero meu pedido em registrar o ir e vir das marés

e o velho Teixeira ri da impossibilidade de tal pedido.

Depois, estou nas ruas querendo fotografar tudo,

mas tudo se perdeu.

Volto da viagem carregando a lista imensa.

E nas noites vazias deste tempo

é ela que me orienta.

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