REGISTRO
Todas as noites viajo a Turiaçu
para fazer meu inventário de perdas.
Vou ao cartório do velho Teixeira
e ali enumero,
entre um soluço e uma lágrima,
os nomes dos peixes
e os meus brinquedos, inclusive a bicicleta,
veloz e brilhante como a luz do meio-dia
incidindo sobre nossos telhados.
Recito quintais (com seus banheiros
distantes da casa) e a constelação
das coisas miúdas habitantes do chão.
Formigas, grãos de milho esquecidos pelas galinhas,
pedaços coloridos de matéria plástica,
estrelas refletidas nas poças d' água
da chuva breve e abundante
da tarde ensolarada.
O velho tabelião discute comigo
a necessidade dessa inútil cantilena.
Mas exijo dele o registro de tudo
nas folhas exatas de papel almaço.
Quero tudo anotado com sua letra caprichada,
de perfeita caligrafia:
a voz de meu pai
me chamando bem cedinho na manhã
para irmos colher o pão ainda quente
na padaria que ele montou só para isso
e nunca lhe deu lucro algum.
A caixinha de música da minha mãe
- onde dançava a bailarina -
que só saía da gaveta da cômoda
em momentos muito especiais.
Reitero meu pedido em registrar o ir e vir das marés
e o velho Teixeira ri da impossibilidade de tal pedido.
Depois, estou nas ruas querendo fotografar tudo,
mas tudo se perdeu.
Volto da viagem carregando a lista imensa.
E nas noites vazias deste tempo
é ela que me orienta.
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