CÍRIO NO EXÍLIO
Letra da canção e crônica a partir da qual foi feita
CÍRIO NO EXÍLIO
(Nilson Chaves – Jamil Damous)
outubro, domingo
as folhas do outono caindo
no exílio de um país distante e frio
me lembro que a essa hora vem vindo
numa cidade longínqua do brasil
vem vindo vem vindo
a essa hora sob o sol do equador
o andar o andor o ardor
de tanta gente na manhã quente
tão diferente desta aqui
e sinto frio como se estive ao sol daí
e como um hambúrguer com gosto de tucupi
e onde passas te saúdo e aplaudo e é aqui
é mesmo por aqui que eu sei que passas
no asfalto negro da saudade
nas avenidas de uma outra cidade
eu sei que passas por aqui
e vejo então que não te devo a promessa que fiz
de estar aí em todo círio e ser feliz
distante estou aqui mas hoje bem sei
que não passas só em belém
passas aqui passas aqui também
passas por onde houver um filho teu
todos os teus filhos os crentes e os ateu
eu sei que passas por aqui e quando passas
que lindo
senhora de nazaré
além de toda fé
toda razão
bem dentro do coração
estás em mim e fim
um sim dentro do não
Meus três Círios inesquecíveis
O primeiro, já morava em Belém havia três anos, e nunca tinha saído de casa no segundo domingo de outubro. Jovem rebelde e ateu militante, ficar em casa era um protesto contra aquela “alienação”. Eu não sabia o que estava perdendo.
Nunca esquecerei dessa primeira experiência, de sua alta voltagem emotiva. Não vou me atrever a fazer uma descrição (necessariamente poética) do Círio. Bons poetas paraenses já o fizeram. O Círio é uma vasta experiência. Mas eu reduziria tudo a um único momento. O momento exato em que a santa passa.
No segundo, já não era nem jovem rebelde nem ateu militante, mas este velho e pacato ateu de hoje. E já era um devoto de Nossa Senhora de Nazaré. Fui do Rio, onde moro, passar o Círio. Levei minha mulher paulista e meu filho carioca pela primeira vez a Belém. Dessa vez, acotovelado num janelão da Avenida Nazaré - lugar mais nobre impossível - chorei pra valer e fiz uma promessa. A de todo outubro ir a Belém passar o Círio. Esse era ao mesmo tempo o encargo da promessa e a graça almejada. Ou seja, prometo passar o Círio em Belém se eu puder passar o Círio em Belém. Ou seja, estar vivo. Só isso. Para um portador de uma doença para qual a ciência ainda não encontrou a cura, não é pouca coisa.
Meu terceiro Círio inesquecível foi aquele em que me defrontei com o pagamento da primeira parcela da promessa. Estava em Portland, Maine, nos Estados Unidos. O segundo domingo de outubro se aproximava veloz.
E agora? Nazica vai se aborrecer, pensei. Já me permitia a intimidade de chamá-la pelo apelido. Foi quando me dei conta de que estava subestimando o poder de Nazica. E aí rezei. Nazica, tu és grande demais para só estar numa única cidade do mundo, uma quente e úmida cidade do Norte do Brasil. Nazica, tu estás no mundo inteiro, tu estás aqui, nesta pequena cidade do Maine, nesta fria manhã de outono. E, caminhando sozinho, parei naquela rua cheia de casinhas de tijolos amarelos, e na cinzenta manhã da Nova Inglaterra, Nazica passou. Voltei para a casa dos amigos americanos com a alma limpa, o dever cumprido. Onde comeria no almoço uma deliciosa torta de maçã. Juro que ela tinha gosto de tucupi.
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