(Nilson Chaves – Jamil Damous)
toca tocantins
tuas águas para o mar
é lá o teu destino
aqui não é teu lugar
que viva o açaizeiro
a arara e o tamuatá
não matem o mato inteiro
não morra o rio guamá
toca tocantins
tuas águas para o mar
os meios não são os fins
por que vão te matar
por que te transformar
em águas assassinas
e nelas afogar a vida?
toca tocantins
tuas águas para o mar
Meses antes do represamento do Rio Tocantins, para a construção da barragem de Tucuruí, programou-se, no Rio de Janeiro, um show-comício em protesto contra os danos que isso traria. Cristóvam Araújo liderava o movimento. A mim e ao compositor Nilson Chaves coube a tarefa de escrever uma canção que marcasse aquele momento. Assim, pode-se dizer, esse foi um trabalho “de encomenda”, embora tenha sido feito com extrema sinceridade e a partir de uma autêntica indignação. O verso “Que viva o açaizeiro, a arara e o tamuatá” emumera seres vivos representantes da terra, do ar e da água – uma árvore (palmeira), uma ave e um peixe. “Não morra o Rio Guamá” refere-se à possibilidade de danos, com o temporário esvaziamento do Tocantins à jusante da barragem, a esse rio que banha Belém – que, felizmente, não aconteceram. Mas no grande lago formado – do tamanho de 14 baías da Guanabara! – um riquíssimo ecossistema foi inundado pelas “águas assassinas”. Muitas espécies vegetais e animais foram destruídas com a inundação. Segundo o cientista Horácio Schneider, da UFPA, uma espécie de macaco entrou em extinção no planeta. Milhões de árvores madeireiras apodreceram sob as águas. É a esse lago que se refere o verso “aqui não é teu lugar”, opondo-o ao mar, destino natural de todo rio. O verso “por que vão te matar” tanto pode ser lido/ouvido como interrogação (“por que vão te matar?”) quanto complemento do verso anterior (os meios não são – não justificam - os fins pelos quais vão te matar). A letra de Toca Tocantins foi construída dentro de um rigoroso esquema métrico. À exceção do primeiro verso do refrão (“toca tocantins”) todos os versos são hexassílabos. O esquema rímico já não é tão rigoroso, mas predominam as rimas alternadas (A-B-A-B). No rítmico, predominam as tônicas incidindo na segunda, quarta e sexta sílabas. A melodia, criada a partir de um texto pronto, reflete o seu tom, que busca o épico, condizente com o acontecimento – um desastre ecológico histórico - que motivou a feitura da canção.
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