CANÇÕES COMENTADAS (5)
DAS FRUTAS
(Nilson Chaves – Jamil Damous)
Açaí
Tua boquinha roxinha de paixão
Buriti
Que saudade de ti no maranhão
Murici
Vermelhinho da cor da coração
Bacuri
Fruta-flor puro odor que sensação
Taperebá
Eu agora vou cantar outra ri-
Maracujá
Que é cheirosa e gostosa
Tanto quanto as de acima
Jacajá
De trás pra frente me alucina
Cupuaçu
Tão branquinho na tua língua
Jambocaju
Graviola agudo tom de uma canção
Que tem sabor
Pitanga manga-rosa mangaba e ingá
Pupunha piquiá carambola e araçá
Ajiru biribá tucumã e sapoti
Cajuí bacaba abiu e goiaba
Uma canção de enumeração (quase um gênero, que tem em Passaredo de Chico Buarque sua obra prima), feita numa época em que elas ainda não tinham se tornado tão frequentes na MPB. É também uma canção que enumera frutas (um subgênero?), e nisso se aproxima de Morena Tropicana, de Alceu Valença, embora seja mais antiga. Canções “de fruta” viriam se tornar uma das marcas do Nilson Chaves, que as tem tantas, com destaque para “Açaí”, de parceria com Joãozinho Gomes, talvez o seu maior sucesso. Mas o prazer que eu mais quis desfrutar fazendo essa letra foi o de trabalhar com palavras-valise (portmanteaux), essa invenção de Lewis Carroll que amalgama palavras, multiplicando seus sentidos. O movimento concretista brasileiro fez largo uso das palavras-valise. Caetano Veloso, tão influenciado por esse movimento, é autor de duas obras primas com fato uso dos portmanteaux: Acrilírico e Outras Palavras. Em Das Frutas, vamos encontrar: “jacajá” (jaca+cajá e, num outro nível, aqui e agora), “rimaracujá” e a de que mais gosto: “jambocaju” (jambo+ boca+caju), com a boca dando uma dentada na metade de cada uma das frutas. Tem também a insinuação da palavra “linguagem” que pinta na passagem do verso “tão branquinha na tua língua...” para “... jambocaju”, frisado pela divisão melódica. E a oposição de “agudo tom” ao “grave” contido em “graviola”.
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