EXPLOSÃO
Explodes
como fruto e como flor
não como bomba, granada,
qualquer coisa que faz BUM
Explodes
como bomba-relógio
antes de explodir, ou melhor:
como bomba-relógio que vai explodindo em cada tic
e cada tac
Explodes
no ritmo do relógio
e do coração
Explodes
como um poema se fazendo
um prédio se construindo
como nuvens se armando
no céu
É assim que explodes
câmera lenta
em cada dia e cada noite
como a flor de rugas explodirá um dia no meu rosto
como a morte chegando em ritmo de câncer
não de ataque cardíaco
Como fruto
(não como bomba)
como flor
(e não granada)
ao vento explodes
perfume e cor
na madrugada
ODE À MOÇA DA CAPA
Nas bancas de revistas,
sob a luz de tantos olhos,
expões tua beleza
à contemplação dos que não te possuirão jamais.
Estás à venda a preços populares
como um produto qualquer, descartável.
E muitos são os teus usos.
Poderás ilustrar a solidão de uma parede
num quarto carcereiro de desejos,
amenizar a dor antecipada
nas ante-salas sombrias dos dentistas
ou passar de mão em mão, em visão bela e fugidia
para os que não podem sequer te adquirir.
Multiplicada em muitas cores,
mostras teu corpo sem alma,
fabricado em série para deleite e paixão
dos que não te amarão jamais concretamente.
Teu segredo é estar sempre disponível
para o amor dos desesperados,
a orgia dos tristes,
o êxtase dos tímidos.
Tua disponibilidade não macula tua beleza incorpórea
feita somente para os olhos.
Mulher de papel, quanta vida exala
da superfície mágica que habitas.
Prostituta anônima das multidões,
teu destino é a fantasia livre de todo preconceito,
porque és imaginação, idéia pura,
isenta de toda e qualquer imperfeição
A SALA
Exatos, calmos,
ali os livros:
o universo pousado sobre a estante
dormia nas páginas fechadas.
A geometria era tranqüila
no círculo dos discos, a música sem ânsia
à espera dos ouvidos.
Na indiferença da mesa não habitava a poesia
nem metáforas havia nas cadeiras,
enigmas que eu podia decifrar.
O êxtase do branco na folha de papel
era quieto como as paredes caladas.
Mas por entre os objetos concisos
passeava tua imagem, teu fantasma.
E o mistério se instalava lentamente
na sala agora povoada de incertezas
O DISCURSO DO TEMPO
“Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia”.
João Cabral de Melo Neto
O discurso do tempo
é o discurso do rio:
fala viva da água
em pleno estio.
Mesmo na seca, seu fio
de água faz a ponte
entre o tempo presente
e o olvidado ontem.
Esse rio que discursa
é sempre o mesmo, não muda:
em qualquer parte dele
o todo se acumula.
O discurso do tempo
só muda o estilo:
sua voz mantém o tom
no Amazonas, no Nilo.
É sempre água o idioma
em que o rio faz seu discurso:
independente do assunto
ele segue seu curso.
Não há diálogo aqui,
onde ele impõe sua fala
sobre todas as coisas,
enquanto todos se calam.
Calam-se para ouvir
o monólogo-viagem
que arrasta os detritos
roubados das margens.
E os leva sempre em frente,
tanto, que não é sabido
se ainda é condutor
ou se tornou conduzido.
É conduzido e conduz
em sua roda de água, vida
de sua própria viagem,
imensa, desconhecida.
Não há significado
naquilo que ele fala:
o que há é só o fluir
de tudo em direção a nada.
Ou de nada em direção a tudo,
dependendo de quem o navega:
de quem na correnteza o afirma
ou contra ela o nega.
Para que mar caminha
esse rio-tempo que discursa?
Tirano de existirmos,
dentro de nós ele pulsa.
AO POETA RUBENS DE ALMEIDA
Cantaste o mênstruo,
o mau-hálito,
a cagada e a caspa
com a mesma imensidão
com que cantaste o mar.
Teu canto,
quando o operas no humano mar,
também traz altas ondas:
a poesia se faz na abjeta zona
com a mesma morbidez-beleza
que é a poesia não porque apraz.
Mas porque habita todas as zonas
em que o existir se faz.
(Para Cristóvam Araújo)
O braço ergue
a vontade
além
do peso, além
do próprio braço.
Aqui,
se exercitam músculos
e versos.
E o poeta,
na Voluntários da Pátria,
voluntário da pátria
de sua própria força,
põe abaixo
a lei
da gravidade.
PÁSSARO
Pássaro inviável
(em si mesmo engaiolado)
Pássaro amarrado
em anti-vôo
desolado des-alado
em impossível viagem
Feito não de ar, como todo pássaro,
mas de engrenagem
O que em ti fabricas não é o vôo
mas a impossibilidade
O que em ti engendras não é o tempo, variável
mas a eterna estiagem
No entanto
em ti mesmo voas
(não vôo animal, mas vôo-máquina)
Porque és a inviável ave
o in-pássaro
no impasse
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