terça-feira, janeiro 28, 2014

(S)OBRAS (IN)COMPLETAS (3)

Posto aqui mais um grupo de poemas que ficaram de fora do meu livro O Rei do Vento, que reúne o que considero a melhor parte dos poemas que escrevi. Ficaram de fora justamente por considerá-los inferiores aos publicados. Mas há de haver algum que agrade à minha meia dúzia de leitores.



QUERIDO DIÁRIO

Qualquer dia
eu te conto
conta
a
conta
o rosário
destes dias.



Aldora cruZ

De A  a Z  te percorri
no dicionário dos dias.

Meses levei 
a decifrar palavras
que se ocultavam atrás
de teus cabelos.

Mas não te decorei.
Os significados
não vivem nos verbetes,
mas nas frases
construídas no tempo,
pelo tempo.

Ainda hoje
procuro pela palavra
mais linda, inda não dita.
E não decifrei aquela
que para sempre se ocultou
nas sombras fatais
do meu, do teu
destino.



A POESIA NÃO RIMA COM A MORTE

A poesia não rima com a morte.
Por isso, o poema que a canta
na verdade canta a vida
ou canta na morte o que esta tem de vida,
o fim desta, o começo de outra (vida?)
Toda elegia é ode,
toda tristeza alegria,
no sentido de que  a dor
é um sintoma de vida.
Todo Tanatos é Eros
mesmo que Eros caído
Todo Tanatos é um mero
outro lado da vida.
Porque o que existe é isso
(apenas o que é vivido).
O outro lado é um dado
escuro e desconhecido.
Por isso é que se resiste 
quando morre alguém querido.
Por isso é que a vida segue
imune ao acontecido.
A vida não se contamina com a morte,
com seu misterioso vírus.
A vida segue seu rumo
sem cair nesse abismo.
Porque a morte não existe
(como Deus, desconhecida).
Não é alegre nem triste:
é somente um não-vivido.
A morte apenas assusta
no momento em que é assistido
esse fenômeno que custa
a passar quando é sofrido.
Mas passa porque a vida
vai curando suas feridas
fazendo nelas nascer
uma outra carne mais viva.
Assim, não inventarei para tua morte
um poema: não há poesia possível
para o que já não mais existe.
Só há poesia para o que insiste
em estar vivo: a memória que resiste



PRESENÇA

Como o mar está na concha 
que agora habita a sala de jantar,
tu estás em mim,
no meu amor feito do que foi.
Como o voo ainda existe
na ave agora prisioneira,
tu estás em mim, no meu amor
feito do que pode ser.
Tu estás em mim 
como a semente  da noite está no dia
e a semente da morte está na vida.
Como o salto dos tigres nos tapetes,
os poemas nos dicionários,
a explosão nas bombas.
Assim tu estás em mim:
no que resta,
no que pode ser
e em tudo aquilo que será
um dia.



O POEMA PERDIDO

Há muito eu queria te fabricar um poema
que dissesse do vento banal 
de uma tarde em Copacabana
e do direito de ser feliz.
E ainda hoje, neste exato instante 
em que meu coração volta a reclamar por ele,
o poema se oculta atrás de algum edifício,
talvez de um morro, como lua fugidia 
que deixa apenas a claridade de sua luz  
sobre as coisas e os homens.
O poema se esconde e se confunde
por entre as pernas
das pessoas que passam como fantasmas pelas ruas,
no alaraido dos carros e vozes,
na sinfonia patética da tarde e seus raios de sol
desenhandop uma paisagem irreal.
Perguntei a todos pelo poema e um bêbado me disse
que ele foi entreouvido num bar,
talvez estivesse perdido na serpentina do chope,nas galerias escuras dos esgotos urbanos,
nos bancos de praça onde sentam os homens que 
perderam a o emprego e a dignidade de viver.
Talvez o poema esteja irremediavelmente morto,
para sempre sepultado em alguma cova rasa
onde crescem flores mórbidas,
num cemitério da cidade.
Mas talvez ainda viva,
preso pelos fios elétricos das ruas
que porventura o salvaram
em sua última tentativa de suicídio.




SONETO DOS 25 ANOS

Este presente que o tempo te oferece
é o susto de um número que súbito te adere
e te concede um tempo que ainda não merece
ser rotulado em ti,  pois não confere

com o que foi vivido e o que foi feito:
um troféu que te chega antes da hora,
uma medalha que te põem no peito
e a tua mão treme e o teu rosto cora

pois esse prêmio não é teu. Imerecido,
sabes que o tempo é que venceu em sua porfia
com tudo aquilo que não foi construído

e só restou a esperança de que um dia
tu faças anos como quem festeja
não o tempo que passou, mas o que fica.



AURORA, ALBOR, ALVA, ALVORADA

Madrugo só com palavras,
trancado aqui neste quarto.
Não escuto canto de galo,
não enxergo luz da manhã.
Acendo mais um cigarro,
sol portátil em minha mão.
Na mesa, um despertador
me faz as vezes do galo.
No relógio digital
vejo nascer a manhã.
Trancado aqui neste quarto,
madrugo só com palavras,
madrugada triste e vã.





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