sexta-feira, janeiro 17, 2014

FAMÍLIA (2)



IRMÃ

És apenas um retrato.
No entanto,
aqui estás,
viva
como um caranguejo, um coelho,
um beija-flor.
Antes e depois
desse momento eternizado,
a vida seguia, seguiu
seu curso,
avançando como o câncer
que já te consumia.
A vida seguiu seu curso
no apartamento em Salvador
na tarde ensolarada em l980
até aqui.
E agora, na foto,
sã, intacta,
cara a cara comigo,
tu lanças teu sorriso.


SOARES ESTRELA ABFAIÇAL DAMOUS
Não me foi dado o sobrenome
De minha mãe.
Mas ele brilha oculto
Em um dos quatro cantos
Do que sou.


PAI
Esse que teve o meu nome,
em que parte de mim habita?
Num gesto meu que o retome?
Na minha voz que o repita?

Esse que eu nem amei,
sob que forma ele vive?
No pouco que dele sei,
no que eu dele retive?

Esse que a mim se assemelha,
como o verei um dia?
Sob a luz de uma centelha
ou clara fotografia?

Esse que em mim deflagra
essa genética flor,
será que um dia me flagra
em sua mesmíssima dor?

Esse que eu não conheço
viverá dentro de mim?
Mesmo que eu responda não,
imporá ele o seu sim?


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