sábado, janeiro 11, 2014

FAMÍLIA

DODÔ
A morte a veio
embalar na rede
armada
na manhã maranhense
vestida de luz e ventania.
Imagino que ali estava a tecer um tapete
(ou simplesmente a pensar na intrincada teia da vida)
quando, num segundo, silenciosamente,
se apagaram nela
as lembranças
(o que podia ter sido e não foi),
os sonhos de alguma felicidade mesmo que tardia,
ali estava
quando se diluíram num átimo
os gestos,
o estalar das suas unhas longas e duras,
o jeito de resmungar
e até o amor incondicional
que tinha por mim.
Assim imagino a morte da minha mãe
deitada numa rede
embalada
pelo vento sem sentido
da vida.


VISITA AO CEMITÉRIO DO GAVIÃO

Ali me vi
( me li )
no mais cruel dos espelhos,
carteira de identidade
na lápide sob o sol:
meu nome na pedra suja
de cocô de passarinho
no túmulo de meu pai.


QUATRO RETRATOS

Os quatro nos olham da parede
e atravessam três séculos.
As fotografias denunciam um elo
em seus semblantes.
Todos trazem o mesmo nome:
Miguel.
Dois se chamaram assim
e dois ainda se chamam.

Dividem o mesmo espaço,
separados pelo tempo.
Cada um em sua moldura,
sua dor,
sua alegria,
seu irrepetível momento.
Um deles os colocou ali.
Queria restabelecer
um elo para além da semelhança.
Agora olha para si e para os outros
e estão sós.

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