quarta-feira, fevereiro 25, 2015

TRÊS POEMAS INÉDITOS (3)

PRESENÇA

Como o mar está na concha
que agora habita a sala de jantar,
tu estás em mim,
no meu amor feito do que foi.
Como o vôo ainda existe
na ave agora prisioneira,
tu estás em mim, no meu amor
feito do que pode ser.
Tu estás em mim
como a semente  da noite está no dia
e a semente da morte está na vida.
Como o salto dos tigres nos tapetes,
os poemas nos dicionários,
a explosão nas bombas.
Assim tu estás em mim:
no que resta,
no que pode ser
e em tudo aquilo que será
um dia.



COLUMBIA ULTRA LIGHTS

A música, a chuva,
a vontade de ser nada.

Mais um cigarro aceso,
mais uma hora apagada.

(A vida que era pra ser vivida
e foi fumada.)

A ânsia, a calma,
a vontade de fazer nada.

Mais um cigarro apagado,
mais uma esperança acesa

na noite desesperada.

(A vida que era pra ser vivida
e foi sonhada.)




O POEMA PERDIDO

Há muito eu queria te fabricar um poema
que dissesse do vento banal
de uma tarde em Copacabana
e do direito de ser feliz.
E ainda hoje, neste exato instante
em que meu coração volta a reclamar por ele,
o poema se oculta atrás de algum edifício,
talvez de um morro, como lua fugidia
que deixa apenas a claridade de sua luz 
sobre as coisas e os homens.
O poema se esconde e se confunde
por entre as pernas
das pessoas que passam como fantasmas pelas ruas,
no alarido dos carros e vozes,
na sinfonia patética da tarde e seus raios de sol
desenhando uma paisagem irreal.
Perguntei a todos pelo poema e um bêbado me disse
que ele foi entreouvido num bar,
talvez estivesse perdido na serpentina do chope,
nas galerias escuras dos esgotos urbanos,
nos bancos de praça onde se sentam os homens que
perderam o emprego e a dignidade de viver.
Talvez o poema esteja irremediavelmente morto,
para sempre sepultado em alguma cova rasa
onde crescem flores mórbidas,
num cemitério da cidade.
Mas talvez ainda viva,
preso pelos fios elétricos das ruas
que porventura o salvaram
em sua última tentativa de suicídio.


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