terça-feira, janeiro 27, 2015

TRÊS POEMAS INÉDITOS



NUNCA OCULTEI MINHA ALEGRIA

Nunca ocultei minha alegria.
Não vejo porque, agora,
ocultar minha tristeza.

Aqui estou, como se Tanatos
houvesse vencido Eros
para sempre.

Sei que amanhã,
quando o sol nascer rubro
neste céu de Botafogo (que vejo ardente ao crepúsculo
desta janela carioca
que “dá excessivamente” para o Cristo),
talvez o pio de um passarinho
ou uma canção de Jobim
possam trazer de volta a alegria perdida.
Mas agora sou um homem para sempre triste,
olhando sem consolo
o crepúsculo ardente de Botafogo.



OS DIAS E SUAS NOITES

A segunda-feira reinaugura a semana
Os passarinhos reinauguram o dia
e cantam obstinados

sua presença no mundo
enquanto os homens

prosseguem em seus equívocos
e em sua insensata esperança.

Estes dias passarão

como passaram os da última semana,
carregando-nos em seus barcos velozes
rumo ao inatingível horizonte.

Maio se foi com com suas luzes
antes que o fotografássemos,

que dele guardássemos uma lembrança
para nos consolar na travessia
dos meses tristes que virão.

O rio de Heráclito prossegue
em seu curso, indiferente
ao nosso temor de que por ele

jamais voltaremos a passar

À sua margem seguimos cabisbaixos
com o andar cada vez mais pesado
pelo fardo dos dias e suas noites.

Os nossos mortos se acumulam
como guimbas de cigarro num cinzeiro
ou como a louça suja na cozinha.

Os dias se acumulam
em nossos próprios corpos
trazendo rugas e saudades
cabelos brancos e a certeza
de que deles não poderemos
na pia ou na lixeira nos livrar.

E embora haja luz e azul
nesta bela manhã
que o morto em nós
ainda contempla,
a segunda-feira nos dói
como uma artrose aguda
na cervical do tempo.



DEPOIS DO PESADELO

Acorda. Corre para o banheiro
para lavar seu rosto sujo de espanto,
escovar os dentes enegrecidos pelas trevas,
urinar o veneno do seu medo.

Olha o espelho e ainda não é ele
quem lá está se olhando.
É o Outro,
o que carrega em si como um estorvo,
o mesmo que sonhou o pesadelo,
aquele que mirou seu rosto em outro espelho,

o do pesadelo que ainda não acabou.

Só quando vai à varanda
e avista o mundo na manhã
chuvosa e bela,
enfim se reconhece,
refletido nela.

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