Nunca ocultei minha alegria.
Não vejo porque, agora,
ocultar minha tristeza.
Aqui estou, como se Tanatos
houvesse vencido Eros
para sempre.
Sei que amanhã,
quando o sol nascer rubro
neste céu de Botafogo (que vejo ardente ao crepúsculo
desta janela carioca
que “dá excessivamente” para o Cristo),
talvez o pio de um passarinho
ou uma canção de Jobim
possam trazer de volta a alegria perdida.
Mas agora sou um homem para sempre triste,
olhando sem consolo
o crepúsculo ardente de Botafogo.
OS DIAS E SUAS NOITES
A segunda-feira reinaugura a semana
Os passarinhos reinauguram o dia
e cantam obstinados
sua presença no mundo
enquanto os homens
prosseguem em seus equívocos
e em sua insensata esperança.
Estes dias passarão
como passaram os da última semana,
carregando-nos em seus barcos velozes
rumo ao inatingível horizonte.
Maio se foi com com suas luzes
antes que o fotografássemos,
que dele guardássemos uma lembrança
para nos consolar na travessia
dos meses tristes que virão.
O rio de Heráclito prossegue
em seu curso, indiferente
ao nosso temor de que por ele
jamais voltaremos a passar
À sua margem seguimos cabisbaixos
com o andar cada vez mais pesado
pelo fardo dos dias e suas noites.
Os nossos mortos se acumulam
como guimbas de cigarro num cinzeiro
ou como a louça suja na cozinha.
Os dias se acumulam
em nossos próprios corpos
trazendo rugas e saudades
cabelos brancos e a certeza
de que deles não poderemos
na pia ou na lixeira nos livrar.
E embora haja luz e azul
nesta bela manhã
que o morto em nós
ainda contempla,
a segunda-feira nos dói
como uma artrose aguda
na cervical do tempo.
DEPOIS DO PESADELO
Acorda. Corre para o banheiro
para lavar seu rosto sujo de espanto,
escovar os dentes enegrecidos pelas trevas,
Olha o espelho e ainda não é ele
quem lá está se olhando.
É o Outro,
o que carrega em si como um estorvo,
o mesmo que sonhou o pesadelo,
aquele que mirou seu rosto em outro espelho,
o do pesadelo que ainda não acabou.
Só quando vai à varanda
e avista o mundo na manhã
chuvosa e bela,
enfim se reconhece,
refletido nela.
e avista o mundo na manhã
chuvosa e bela,
enfim se reconhece,
refletido nela.
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