domingo, janeiro 11, 2015

TRÊS POEMAS DE 'O REI DO VENTO'

AS CARTAS

Vivem silenciosas no fundo da gaveta.
Como nós, também envelhecem,
como se pode ver 
pelo pálido amarelo de suas folhas.
Para elas já é outono,
não a primavera febril 
que um dia eu quis te dar.
No fundo da gaveta,
silenciosas vivem
as cartas
que nunca te mandei.


O DIA NASCE RUBRO

O dia nasce rubro
pros rumos de Botafogo.
O Pão de Açúcar é um presente
que meus olhos desembrulham
ainda cobertos de nuvens.

Na encosta do morro
os passarinhos cantam
obstinados
sua presença no mundo.
Logo estarão — estaremos —
vencidos pela manhã ruidosa.



ACEITAÇÃO

Escrevo meu nome 
com a ponta do dedo
na lousa de ar desta manhã
escura e fria
(desta manhã quase noite).

Letras de fogo brilham no ar por um instante.

Brilham como as estrelas que na madrugada se abriram
— rosas rubras sobre minha solidão — 
e me trouxeram a luz da aceitação
de ser quem sou.

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