segunda-feira, março 30, 2015

POÇO FUNDO (1)

POÇO FUNDO

Os aipins florescem vertiginosamente
no interior da terra.
Um beija-flor exerce a plenitude do seu nome.
Na estradinha de terra
um caminhão passeia
carregado de realidade.

Você ainda dorme
na casinha pequenina
onde nosso amor
cresceu.


O CACHO DE BANANAS

O cacho de bananas repousa agora
no cimento do pátio.
Ontem à noite o resgatamos
da bananeira que pendia
        perigosamente 
 para o abismo. 

Pousa agora sobre ele (sobre nós)
a primeira luz da manhã.
As bananas são ogivas verdes
apontando para nossa fome de vê-las.
Estamos salvos, por enquanto
(enquanto o tempo permitir) 
livres de toda podridão.



 DEUS E AS FORMIGAS

Todos já dormiam quando saí para ver o luar. Era uma noite fria, dessas que eu amo. E havia um silêncio mais alto que o assobio do vento, mais alto que o pio dos passarinhos, desses que eu não sei o nome. Soltei um jato de urina forte e ruidoso sobre a terra e aspirei no alívio o cheiro da noite. Jasmim e estrume do gado. Foi aí que vi as formigas, perigosamente próximas, vítimas potenciais da hecatombe. Mudei a direção do jato cuidadosamente. Depois, agachei-me e fiquei observando a fila indiana dupla, a que ia e a que vinha, só uma delas carregando os luminosos pedacinhos de folha, bandeiras verdes de um exército em marcha. Havia ali uma determinação, um propósito. Todas eram iguais perante o meu olhar. Até que me assomou a possibilidade espantosa de cada uma ser um indivíduo. Para que estavam ali sob o luar de maio? Que sonho, que utopia, as animava a ir em frente? E elas iam, numa disciplina estrita, denodada. Por um breve instante a luz da lua brilhou num pedacinho de folha e refletiu, ali, a cara de Deus. E aquela procissão de formigas não era menor que a caminhada dos judeus do Egito para Canaã, não era menos épica que a marcha dos exércitos de Napoleão pelos campos gelados da Rússia, nem menos memorável que o primeiro astronauta caminhando sobre o chão da lua. Havia um fim naquilo tudo, mas ele não me foi revelado.Tudo o que sei é que só um ser ali podia deter aquele caminhada. E esse ser era eu. Bastava uma pisada, um jato de mijo, um chute na terra.



DE TARDINHA, EM POÇO FUNDO

Os urubus sobrevoam o morro.
O que farejam?
Um boi morto ou o cadáver do dia?



MOMENTO EM POÇO FUNDO

Pra realçar ainda mais o seu gritante azul,
o céu se tinge de repente do preto de um urubu.
Nesse instante, o poeta olha para o céu.
E tinge de preto o branco do papel.

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